O grêmio é gay
April 9, 2009
Da coluna de Hiltor Mombach, colunista – sério, não humorista – do Correio do Povo:
Recebi e-mail: ‘Vá ao Google, digite gay, e não pressione o enter; aparecerá imediatamente uma palavra. Faça o teste! Digite a palavra gay e espere!’. Fiz isto. Fui ao www.google.com.br, digitei gay (sem aspas) e, para meu espanto, apareceu a palavra Grêmio. Telefonei para Evandro Krebs, conselheiro gremista, e pedi para que repetisse, em sua casa, o procedimento. Deu a mesma coisa. Pergunta: como é que pode? Quem explica tamanha barbaridade? Estou chocado.
Às 23h15min de ontem, a informação era esta: o Grêmio iria exigir explicações dos responsáveis pelo site de busca. Faz muito bem. Se fizeram isto com o nome Grêmio, o que mais podem fazer?
Se isto realmente ocorrer, Porto Alegre vai virar piada mundial (mais uma vez, graças ao Grêmio). Todo mundo sabe que esses recursos do google são feitos através de pesquisas. “O que fizeram com o nome do Grêmio?” Meu Deus, o nosso Estado ta quebrado, nossa governadora está envolvida em diversas denúncias de corrupção, e é com isso que nos preocupamos. Vergonha alheia! Além, é claro, de absoluta ignorãncia digital. Atraso, atraso, atraso… Porto Alegre realmente não tem senso do ridículo. Continuamos patinando na lama da obscurantismo provinciano.
PS: Quando li a coluna do cara, eu achava que estava lendo José Simão.
That’s what vacations all about
March 20, 2009
Sexta-feira, 13h45. Normalmente, estaria agora caminhando pelas ruas do Rio Comprido, voltando do almoço para o trabalho, a barriga cheia da comida gordurosa dos restaurantes da redondeza.
Mas não. Estou bem confortável, deitada na cama do meu quarto, olhando para o movimento das folhas de uma árvore na minha janela, e recebendo o ar da tarde.
Ou poderia estar correndo. Lendo um romance. Ou então, como agora, ouvindo um debate de futebol pela rádio.
Como que eles conseguem falar 1h30 sobre futebol! Pra passar o tempo, cada debatedor dá sua lista dos melhores jogadores do Inter de todos os tempos. Por e-mail, um ouvinte manda a sua seleção, praticamente só com jogadores mais novos (nada das estrelas do rolo compressor dos anos 50, e sim ídolos recentes como Taffarel, Gamarra e Fernandão). Os mais velhos se mostram insatisfeitos, como o debatedor Claúdio Cabral (ex-dirigente do Inter, conhecido na mesa de debates da rádio como “Mestre Cabral”, que além das opiniões sobre esquemas táticos se arrisca a reflexões culturais – afinal, é o “mestre” da mesa – como a de que João Gilberto não canta nada. Uma vez lembro também que ele chamou o filme sobre Cazuza de “festival da bichice nacional”). Enfim, Mestre Cabral – me sinto como numa fábula de La Fontaine, usando os títulos de honra em tom irônico – o “Maître”, dizia eu, reagiu à seleção mandada.
- É triste, mas daqui há cinco anos, ninguém vai falar de Pelé.
Seu companheiro João Garcia – este, em vez de “Mestre” possui um título mais modesto: “Gordo Garcia” -acrescenta uma pitada filosófica ao debate:
- É porque as gerações passam – diz o Gordo. – Mas ainda se fala em Alexandre, o Grande. Se bem que já estão dizendo ai que ele não era tudo isso…
E então o Mestre conclui com malícia:
- É. Dizem que ele era… daquele tipo, né?
O Gordo ri:
- Mas, naquela época, todo mundo era daquele tipo!
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E quem precisa de redação para se divertir? Ah, férias…
Gran Torino
March 18, 2009
Desde Um mundo perfeito, Clint Eastwood não parou de brincar com sua imagem de reacionário individualista, eternizada nos anos 70. O ícone Eastwood foi expandido em suas obras-primas dos 90, com a figura crepuscular do “homem que volta”, assombrado pelo passado. Em Gran Torino, o ator/cineasta mantém a áurea fantasmagórica, mas vai além, pondo em cena seu próprio desaparecimento (morte não só de uma imagem brava e destemida, mas da identidade de um país e início de sua reciclagem mítica), com esplêndida força autosacrificial e redentora. De certa forma, o longa é para o cineasta o que The man who shot Liberty Valance foi para Ford – aqui, com Clint fundindo em uma só figura os personagens de John Wayne e Jimmy Stewart.
Composto em tom menor (e por isso ignorado pelas vovós da Academia do Oscar, mais inclinadas a picaretagens épicas), espécie de Karatê Kid ao contrário, o filme flutua com serenidade pelos limites do gênero, ao mesmo tempo em que vai desconstroindo calmamente os estereotipos que finge apresentar. No final, os simples acordes de piano de Eastwood apenas reforçam a beleza e melancolia desse filme testamento, triste como um por-do-sol de domingo.
Férias: primeira quinzena
March 17, 2009
Se tem algo que me reconcilia com Porto Alegre é a luz. Corro pelo meu bairro (alto-petrópolis) todas as manhãs e fins de tarde. A luz, de fato, é a única qualidade inquestionável daqui. Até meu bairro, antigamente tão agradável e arborizado, está sendo tomado pelos prédios, num crescimento mal planejado. Mesmo assim, gosto do cheiro da grama e da luz penetrando as folhas das árvores. E os crepúsculos são bíblicos (me sinto num filme de Cecil B. de Mille).
Camus tinha mesmo razão. Ele veio para cá na década de 40. Logo que chegou, anotou no seu caderninho: “a luz é muito bela. a cidade feia”. Claro que ele não deve ter passado pelo meu bairro, bem melhor que os arredores do aeroporto. Mesmo assim, é preciso admitir: não há nada que provoque interesse em Porto Alegre, além do céu e da luz.
No alto-petrópolis, cada vez mais as casas antigas são substitúidas por condomínios de luxo. As árvores estão sumindo. Ou as cortam, ou destroem suas raízes. É triste vê-las apodrecendo aos poucos. Mas é também horrível ver as bases dos tocos – pobres tocos, sem seus corpos. Ao lado, quase sempre um muro de madeira com o nome cafona de alguma imobiliária (a cada três palavras escritas, uma é luxo) e o esqueleto de uma obra.
Antigamente, as árvores se curvaram no alto das ruas, nos cobrindo. Havia metros e metros de teto de vegetação. Mas isso se vê cada vez menos. Agora, os geniais engenheiros, arquitetos e empresários estão nos obrigando ao céu limpo e direto. Com o sol mortífero, pós-camada de ozono, apontado para nós.
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Aproveitando as férias para ver DVDs. Os filmes que não deu para ver em cinema no ano passado. Não adianta. Não gosto de James Gray. Podem falar o que quiserem. Uma estrela para We own the night (vou dizer outra: Eva Mendes também não é tudo isso). Três estrelas para Zodíaco. Uma estrela também para Dois dias em Paris (aliás, uma hora a Julie Delpy diz: “Sem sarcamos em Paris”. Deu vontade de acrescentar: Mas Paris foi erguido com o sarcasmo!)
E três estrelas para Expresso Darjeeling. Que filme! O mais emocionante e bonito de Wes Anderson.
Só uma observação: num dos DVDs vi um trailer de um filme sobre a vida de Jane Austen, com Anne Hathaway fazendo o papel da romancista. Deus! Fico impressionado. Pobre Austen. Agora, além de ser obrigada a ver do seu túmulo suas obras-primas de cinismo virarem inofensivas e frívolas comédias românticas para solteironas, precisa aguentar sua própria vida virar uma comédia romântica… Aliás, tirando o genial As patricinhas de Beverly Hills (melhor adaptação disparada de qualquer romance da autora), todos os filmes baseados em Austen transformam as obras dela em Sex and the citys do século XIX.
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Duas semanas comendo comida saudável. Duas semanas correndo todos os dias. E não emagreci um quilo.
We are close
March 16, 2009

Está explicado por que o blog ficou tanto tempo sem atualizações. Férias, férias.
Ideologia contra ideologia
March 5, 2009
Juremir Machado Da Silva (da edição de hoje do Correio do Povo)
Quem é mais ideológico: Hugo Chávez ou a revista Veja? Evo Morales ou o jornal Estado de S. Paulo? As Farc ou O Globo? Nos três casos, o mais razoável é cravar empate. Numa competição brasileira, há uma hierarquia clara: Veja, Estadão, O Globo. A diferença pode ser revelada com uma analogia vagabunda: o ideologismo de Veja é pornográfico, o do Estadão, obsceno, já O Globo coloca uma faixa preta em cima das partes pudendas dos seus comportamentos ideológicos mais explícitos. Nossos três veículos ultraconservadores adoram chamar de ideológicos somente os posicionamentos dos seus adversários. Por que mesmo? É uma guerra de comunicação.
A direita conseguiu vencer muitas batalhas colocando etiquetas nos esquerdistas: xiitas, fundamentalistas, fanáticos. Nem sempre errou. Os mesmos termos, porém, sempre puderam ser aplicados aos defensores do neoliberalismo cuja ideologia era a autorregulamentação do mercado. Parte da mídia se deixou convencer por um estratagema da direita: a fala mansa, com voz de motivador ou de palestrante de autoajuda, confundida com ponderação e equilíbrio. Primeiro a direita disse que não existiam mais esquerda e direita, aproveitando para bater nessa esquerda que estaria mais morta do que um cachorro. Essa é uma ideia claramente de direita. Depois se apropriou da palavra ideológico como categoria de acusação. Ideologia agora é toda ideia que contrarie os meus interesses. Se concordo, não é ideologia.
Somente a esquerda praticaria atos ideológicos. Professores fazem greve em defesa do piso: ideologia. Cria-se a política de cotas nas universidades: ideologia. Qualquer insatisfação organizada contra a ordem vigente é imediatamente rotulada de ‘ideológica’. Para a direita, só a esquerda age ideologicamente. Sempre que um representante de direita ataca alguém por ‘ideologismo’, embora se imagine neutro, imparcial e pragmático, está babando e cuspindo ideologia. As pessoas mais ideológicas que conheço são aquelas que vociferam contra o ideologismo de outros uma dúzia de vezes por dia. Por ideologia entende-se a defesa de algo irrealizável ou até nefasto, contrariando a realidade, a racionalidade ou os interesses gerais, por apego a um conjunto de ideias abstratas e dogmáticas. É exatamente o caso, com frequência, dos que criticam os ‘ideológicos’.
Ideológica é sempre a postura do outro. Jamais a nossa. Muitos não têm consciência objetiva do quanto são ideológicas as suas manifestações. Isso vale para esquerda e direita. Outros, no entanto, agem de má-fé. Isso também vale para esquerda e direita. A mídia brasileira, de maneira geral, cada vez mais conservadora, incorporou a estratégia da direita de que ideológicas são exclusivamente as posturas da esquerda. Qual governo gaúcho foi mais (ou menos) ideológico, o de Olívio Dutra ou o de Antonio Britto, o do socialista que mandou a Ford embora ou o do neoliberal que queria vender até as calças do Estado e acreditava piamente nas virtudes totais da privatização e no mercado soberano? É próprio do ideológico se achar mais moderno, racional e eficiente que os outros. Quem é mais ideológico, um sociólogo militante de uma ONG, com sua bolsa a tiracolo, ou um publicitário que acredita na racionalidade moderna de andar sempre de preto e na relevância espetacular de só dar ao público o que ele pede? Os partidos políticos têm outra lógica. Não são ideológicos. Mas fisiológicos.
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Concordo num ponto com Juremir: há sim uma polarização simplista na opinião pública de hoje. E, simplificações são, sim, próprias de ideologias. E quem diz polarização admite que ela acontece dos dois lados, em sentidos opostos, mas lógicas idênticas. Agora, não é verdade que a direita não se assuma como ideologia. A direita americana sempre assumiu seu liberalismo econômico como ideologia, sem nenhuma vergonha disso. Só que a sociedade americana, ao contrário da brasileira que só funciona com proselitismos e alianças intelectuais bestas, é complexa: a direita não é um grupo ideológico uniforme, há diversas vertentes republicanas ou conservadoras, e elas convivem entre si, concordando ou discordando. De qualquer maneira, ela se assume, sim, como ideologia.
Mas é verdade que, no Brasil, um certo grupo rotulou a esquerda de “ideológica” como se fosse uma ofensa (“Ideologia agora é toda ideia que contrarie os meus interesses. Se concordo, não é ideologia”, como bem lembra Juremir). Acontece que esse grupo não é exatamente de direita como Juremir diz. Veja, Estado, Globo – para usar os veículos citados por Juremir – podem ser definidos, talvez, como progressistas de centro-direita, bastante liberais (no sentido americano do termo) em diversas questões, como aborto, pesquisa de células-tronco, direitos civis, etc.
Justamente pelo fato de estarem no centro, caem na tentação um tanto ilusória de se colocar acima das ideologias. Talvez acreditem que estejam quando se comparam com seus colegas mais fanáticos à esquerda. Mas não estão. A verdade é que ideologia não é sinônimo de fanatismo, como acusam esses grupos. Mas na maioria das vezes leva à miopia, ao simplismo, à falácia e à imparcialidade.
Mas só para provocar: por que todos os dias ouvimos a imprensa falar horrores de Hugo Chávez e nada contra Putin? Os dois são tiranos da mesma forma, mas parece que só um merece nossa repugnância… Ah, sim, Putin foi um “estabilizador”. Só que, para isso, usou os mesmos meios de Chávez.
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A crônica de Juremir lembra outro texto lido essa semana, o do seu brother Diogo Mainardi, “Quatipuru, quem?”. O texto do Mainardi é excelente, engraçadíssimo. Vai aqui:
PCdoB tem um blogueiro. O nome dele é Ananindeua Borges. Ananindeua Borges ou Quatipuru Borges? Agora estou meio embananado. Só sei que ele tem o nome de uma cidade no interior do Pará. Abaetetuba Borges. Paragominas Borges.
Ulianópolis Borges apresenta-se como membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil. É como se alguém se apresentasse como membro do Terceiro Reich do Brasil. Na última semana, ele me citou em seu blog. O texto contaminou a internet, como um parasita transmissor de esquistossomose.
Parauapebas Borges disse o seguinte:
Karen Kupfer, da revista de fofocas Quem, publicou há poucos dias uma notinha reveladora: “Para comemorar o sucesso do programa Saia Justa, Suzana Villas Boas abriu sua casa para uma festança daquelas. A turma de convidados, que também era recebida por Arnaldo Jabor, marido de Suzana, reuniu políticos, artistas e jornalistas. O candidato José Serra, para quem Suzana presta assessoria, foi prestigiá-la”.
E Parauapebas Borges concluiu acidamente:
O filhinho de papai Diogo Mainardi criou no início do mandato de Lula o seu tribunal macartista mainardiano, no qual promoveu abjeta cruzada contra alguns profissionais da imprensa. Será que o difamador travestido de jornalista fará barulho agora contra seus amiguinhos da TV Globo que gozam das intimidades demo-tucanas?
Itaituba Borges é jornalista. Sua principal fonte de informação: a revista Quem. Mais precisamente: um número da revista Quem de meados de 2002. A notinha, que, segundo ele, foi publicada “há poucos dias”, na verdade é de sete anos atrás. De lá para cá, Suzana Villas Boas saiu do Saia Justa e da assessoria de José Serra. Ela também já se separou de Arnaldo Jabor. Arnaldo Jabor deve ter se casado umas sete vezes desde aquela festa.
Se Mocajuba Borges fosse menos parasitário e consultasse o arquivo de Veja.com, descobriria que o colunista que mais avacalhei em minha coluna (e também no Manhattan Connection) foi o próprio Arnaldo Jabor, condenado reiteradamente pelo tribunal macarthista mainardiano.
Depois de comentar a notinha de Quem, Oriximiná Borges comentou uma notinha de Hildegard Angel. O blogueiro do PCdoB é assim: só abre o jornal para ler a coluna social. Sorry, periferia, mas Oriximiná Borges é o Ibrahim Sued do maoísmo, o Bola Branca da Revolução Cultural. De acordo com ele, além de denunciar Arnaldo Jabor, eu deveria denunciar também Miriam Leitão, cujo cunhado é irmão de Edmar Moreira, deputado do DEM. Miriam Leitão é a melhor colunista de economia do país, mas, se Curralinho Borges fosse menos parasitário e consultasse o arquivo de Veja.com, leria o que escrevi sobre o ex-marido dela, Marcelo Netto, antigo assessor de imprensa de Antonio Palocci. Bujaru Borges poderia verificar igualmente o que escrevi sobre o filho dela.
A internet é como uma cidadezinha no interior do Pará, assolada por parasitas que proliferam nessas zonas insalubres do Terceiro Mundo. Quer um conselho? Cuidado com a água parada. Quer outro conselho? Use botas de borracha.
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Os argumentos do blogueiro chapa-branca podem perder validade na medida que Mainardi nunca deixou de falar mal de Jabor ou do filho de Miriam Leitão. Só que Diogo não rebateu um ponto essecial do texto: ele, que sempre prestou serviços inestimáveis – sem ironia, mas sem ironia mesmo – ao apontar as ligações incestuosas entre governo e jornalistas (em especial os blogueiros, como esse tal de Ananindeua – Deus! – Borges). Mas se o fisiologismo e a natureza chapa-branca da nossa imprensa remonta ao primeiro jornal fundado no Brasil, por que Diogo se preocupa apenas com os jornalistas ligados a esse governo? Se a acusação de Ananindeua – Deus! – tinha um mérito era de mostrar que os vícios acontecem não apenas na esfera do PT – e isso Diogo não responde. Acho o tribunal macartista-mainardiano excelente. Só gostaria que ele expandisse um pouco mais o seu raio de ataque.
Férias: modo de usar
March 3, 2009
Primeiro dia de férias, é estranho. A pior parte é arrumar as malas. Como sempre, deixo tudo para a última hora. Poucas roupas na bagagem, o laptop, dois romances (um Hemingway e um Modiano) e alguns rascunhos do livro que pretendo revisar e passar a limpo até abril, quando termina minhas férias.
Pego táxi até o Galeão (43 reais), vendo as últimas imagens da cidade. É engraçado: durante 30 dias, toda a lógica da minha vida vai mudar. Sem redação, sem Rio, nem Rio Comprido. Mas também sem praia da Macumba, nem Bar do Mineiro nos fins-de-semana. Agora é o meu bairro tranquilo em Porto Alegre, os velhos amigos em Torres e, claro, a página em branco do meu livro (ou melhor, os rascunhos a serem organizados, o material bruto e confuso a ser lapidado). Talvez seja essa a idéia mais assustadora. Sem desculpas, vou viver a vida que eu quero. Sem desculpas, vou escrever o que eu quero. Xô editores, assessores, urgências factuais…
A liberdade dá medo. Agora é tudo comigo. Posso confiar em mim mesmo?
Pela janela do taxi, vejo a rotina de um ano saindo aos poucos de dentro de mim. Eu consumi essas paisagens, essas paisagens me consumiram. Rodando em círculos na noite escura, e consumido pelo fogo. Saí do círculo, rumo ao horizonte. Boa sorte aos que ficam. E, por favor, não me lembrem que há uma volta.
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Pela primeira vez, presto a atenção no Rio, à noite, de cima do avião. O desenho da cidade, sob as trevas. Que praia de Niterói é aquela? Ali é o Jóquei ou o Maracanã? É o Jóquei, evidentemente. No escuro, não dá para ver as palmeiras do Jardim Botânico. Copacabana aparece iluminada na noite negra.
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Não há nada mais estressante do que aeroportos. Conexões sempre me deixam de cabelo em pé. É qual portão, qual embarque, qual horário, qual bilhete? Afinal, fazer conexão sempre dobra as chances de algum tipo de engano ou acidente no embarque. Não consigo dormir no voo. Estou quase conseguindo, quando a aeromoça chama para o lanche: um biscoito horrível com presunto, colorido artificialmente. Câncer embalado. Mas eu como.
Em Congonhas, o pânico de sempre. Parece que você vai aterrisar no meio da rua, entre os carros. Dá até para imaginar o piloto botando metade do corpo para fora, e fazendo sinal aos motoristas para estacionar.
Antes de embarcar no avião para Porto Alegre, dou uma olhada na banca. Entre os best-sellers, tem um “Stress, aprenda a lidar com ele”. Claro, claro. Porque você não trabalha em redação.
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Agora acordo com o barulho agradável da rua Pirapó de manhã. Pássaros e trânsito calmo. Estou olhando pela minha janela, as árvores, as casas. É outro mundo. Nada das putas de Copacabana. Nem dos bêbados gritando de madrugada. E das picaretas me acordando às 7 da manhã.
Tomo iogurte caseiro em casa, cem por cento natural, com geléia de morango de Torres. Como vai ser a partir de agora? Férias, como começa isso? Preciso abrir os manuscritos. Preciso dar uma corrida. Preciso cortar o cabelo. Que mais não deu tempo de fazer antes das férias? Experimentar uns sapatos novos, talvez…
Ligo o rádio. Tem um programa na Radio Gaúcha, promovendo um grande debate. “O casamento de Gisele Bunchen vai durar mais do que o de Ronado Fênomeno com Cicarelli?” A Rádio Gaúcha é uma rádio séria. Presta enormes serviços à comunidade transmitindo 14 horas diárias de futebol. Tanto que, para responder à importantíssima pergunta, trouxe suas melhores colunistas sociais (saudades da Hilde e da Heloísa Tolipan…), um publicitário afetado e um psiquiatra. O psiquiatra já deve estudar há vinte anos a mente humana. Do alto da sua sabedoria, chegou a seguinte conclusão:
“Olha o que o Ronaldo fez no cabelo durante a Copa de 2002. Isso é uma prova clara de que ele tem déficit mental…”
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Não tem para onde fugir. Por favor, me levem daqui.
Sem comentários
February 20, 2009

A foto é da minha amiga canadense Fanny Pierre Galarneau
O Rio Comprido é uma metáfora
February 20, 2009
E, de repente, ouvem-se tiros, do lado de fora da redação. Os colegas soltam uivos. “Já?”, ironizam. “Começou cedo”. Todo mundo está acostumado. Todo mundo trabalha no Rio Comprido.
Eu, pelo menos, estou acostumado. Venho trabalhar todos os dias aqui. Saio da orla, passo pela Lagoa. No trânsito, fico observando os vários tons da água, a fronteira bem definida de reflexos, verde, azul, cinzento… Passo de mar a água doce, cercada por natureza, verde, árvores, corcovado… E aí entro no túnel. Tudo fica escuro. Quando a luz aponta na saída, é um outro mundo. A natureza ressurge esmagada pelo concreto, pela sujeira, pela miséria.
Começa a Rua Paulo de Frontin. Logo de cara, aparece o viaduto, trazendo as imagens mais grotescas do lugar. O concreto pingando líquidos negro. Carros estacionados em posições estranhas, DENTRO da calçada (alguns incendiados ou gravemente danificados). O barulho confuso na pista de cima, que faz tudo vibrar e tremer. E, abaixo, aquele rio, o tal rio comprido, com sua cor indefinida de sujeira.
Depois dos tiros, chega a hora do almoço. É preciso cruzar as mesmas ruas poeirentas novamente. Na rua do Bispo, tem uma mulher vivendo embaixo do viaduto. A casa dela é lixo e fica no meio da passagem. E quando digo “lixo” é lixo mesmo, não força de expressão. Ela construiu uma fortaleza com resíduos, e fica lá dentro, vivendo a sua vida. Come, faz suas necessidades, medita – tudo no interior de um cercado de menos de um metro quadrado, feito de latas, plásticos, pedaços de móveis velhos, lixo orgânico… Ao passar ali por perto, é preciso encontrar um espaço minúsculo entre o castelo de lixo, os buracos na calçada e as poças de urina e lama. O rosto da mulher é inescrutável. Ela não olha os pedestres que passam por seu reino. Não dá para dizer o que há nos seus olhos.
No caminho, é preciso, ainda, desviar de fios elétricos arrebentados. Os fios grossos caíram dos postes, faz pelo menos três semanas. E continuam no chão, ao alcance dos pedestres. Uma colega pula por cima de um fio. Pergunta:
“Se encostar nisso, a gente morre?”
“Provavelmente”, respondo.
Os tiros vão recomeçar mais tarde. E ninguém vai se assustar. Todos sabem que o Rio Comprido não é um bairro. É uma metáfora. Um espaço mítico, palco de todos as derrotas. Talvez por isso o clima de união entre os jornalistas que trabalham aqui. “Somos fudidos do Rio Comprido”, dizem ao entrar – não exatamente com palavras, é claro, mas com uma curvatura de corpo, com uma cabeça baixa, um olhar derrotado. Tem algo de trágico em ser jornalista no Rio Commprido. Tem um quê de fado, que torna a nossa história de vida muito mais simpática e interessante. Sempre me lembro do final de Chinatown, a tragédia que recomeça, o bairro trazendo a mesma fatalidade. “Esqueça, Jake. É Chinatown”.
O Rio Comprido é minha Chinatown. As casas de pintura descacada. Os terrenos abandonados. Os buracos na calçada. As misteriosas poças azuis. E os pé-sujos. Os pé-sujos e seus jukeboxes tocando boléros, pratos de fígado cozido no balcão, bêbados tristes dormindos nas mesas, e gatos famintos rondando as cadeiras.
Já é noite. Estou prestes a ir embora. Páro no ponto de ônibus. Atrás de mim, uma família de mendigos dorme enrolada num lençol. Acima de mim, um tapete espesso de teias de aranha – não aquelas teias normais, mas teias de filme, aquelas seculares, incrivelmente grossas, que aparecem nos Indiana Jones. As aranhas se movimentam por cima da minha cabeça. Os carros passam a toda, jogando a água da rua em mim.
Esquece, Bolívar. É o Rio Comprido.
Orgulho zumbi
February 19, 2009

A história é conhecida. Na pequena cidade de Longbourn, a jovem Elizabeth Bennet observa à distância a atmosfera frívola e provinciana ao seu redor, em especial o arrogante Mr. Darcy, amigo do pretendente de uma de suas cinco irmãs. Trata-se do enredo de Orgulho e preconceito (Pride and prejudice, no original) , o primeiro – e talvez mais conhecido – romance da escritora inglesa Jane Austen (1775-1817). Clássica, a narrativa já foi estudada por acadêmicos do mundo inteiro, sendo analisada sob diversos pontos de vista. Foi, também, adaptada com sucesso para o cinema. Quase dois séculos depois de ser publicada, porém, uma nova versão literária da obra-prima surge agora na internet, provocando barulho.
O mundo geek não fala em outra coisa. Em poucas semanas, a novidade se espalhou por sites, blogs e grupos de discussão. A foto da capa, que mostra uma heroína horrivelmente deformada, mandíbula carcomida e roupas repletas de sangue, adianta a irreverente proposta do livro: misturar o realismo novecentista de Jane Austen com… mortos-vivos sedentos por carne fresca. Intitulado Pride and prejudice and zombies, o projeto do escritor americano Seth Grahame-Smith (responsável pelas obras Como sobreviver a um filme de terror e O grande livro do pornô) insere esmagamento de ossos, evisceramentos e outras ações sangrentas à obra canônica, imaginando como seria se a cidadezinha descrita por Austen fosse devastada por uma insurreição zumbi. O livro só deverá chegar às livrarias americanas em junho. Mesmo assim, já virou um best-seller viral, só mesmo possível em tempos de conexões virtuais.
– A ideia veio do meu editor, Jason Rekulak – revela Grahame-Smith, em entrevista ao Jornal do Brasil. – Ele tinha uma longa lista de possíveis combinações, mas a de Orgulho e preconceito com zumbis pareceu a mais divertida. Primeiro, porque escrever cenas de luta e ataques de zumbis sangrentos no estilo de Jane Austen me interessava muito. Segundo, porque o livro original tinha várias cenas, detalhes e personagens que eram, por alguma razão, fáceis de imaginar no contexto de uma insurreição zumbi.
O livro reproduz o conteúdo original da obra de Austen, mas acrescentando novidades em cada uma das suas aproximadamente 300 páginas. Como comprovam as mórbidas 20 novas ilustrações, feitas no estilo de C.E. Brock, responsável pelos desenhos do romance original, as cenas adicionais vão sempre no mesmo sentido: monstros e terror. Agora, além de se preocupar com a mesquinhez de Darcy e a vida amorosa das irmãs, a heroína Elizabeth Bennet deverá conter a ameaça zumbi. E o confronto violento entre os dois apaixonados se mistura a um ainda mais brutal derramamento de sangue.
– Inseri os mortos-vivos, mas num contexto diferente – adianta o escritor. – Não podia mostrar Londres como uma cidade fortificada sem descobrir qual era a sua aparência, o seu cheiro, o seu som, sem trocar cada uma das descrições e detalhes de Austen pelas minhas.
A popularidade precoce do livro surgiu há algumas semanas, quando o projeto da editora americana Quirkbooks (especializada em livros irreverentes, como Guia para descobrir se seu namorado é o anticristo ou Como sobreviver em meio a um tiroteio) vazou na internet. Em menos de 24 horas, uma dezena de websites já espalhava a capa com a ilustração acima, junto com uma breve sinopse. A expectativa é tanta que, antes mesmo do lançamento, a editora já recebe propostas de produtores querendo adquirir os direitos para o cinema.
– No último Comic-Con (festival internacional de arte popular que acontece anualmente em San Diego), centenas de pessoas apareceram querendo cópias – comemora Jason Rekulak, editor da Quirkbooks. – Somos uma pequena editora e fazemos todo tipo de livros estranhos e incomuns. Outras editoras maiores já estão tentando comprar os direitos do livro. Dizem que somos pequenos demais para vendê-lo corretamente. Espero que isso seja o sinal de que o lançamento será algo grande, mas, na verdade, não sabemos no que vai dar. Será interessante ver o que resultará desse online-buzz.
Sucesso ou não, Grahame-Smith espera que a brincadeira aproxime o grande público do universo de Austen.
– Muita gente me escreve dizendo “Nunca li Jane Austen, mas vou ler isto”. Os livros dela têm a reputação de serem verborrágicos e pesados (ao menos, é assim que eu os via quando estava no colégio). Mas Austen é, na verdade, incrivelmente espirituosa, sarcástica e até um pouco malvada. O que são ótimas qualidades.
Incompreendida em seu tempo, Austen traçou um retrato irônico e realista da elite inglesa do século 19. Por outro lado, a figura dos zumbis (presente nos filmes de terror de George Romero e nas “espirais” do autor haitiano Frankétienne) serve frequentemente como alegoria para a exclusão social de certos grupos. Será que, ao menos na crítica política, a união entre a autora e o gore parecerá menos esdrúxula?
– Vou manter o subtexto político do original, mas no nível do absurdo – assevera Grahame-Smith. – Elizabeth continua a heroína independente e emancipada, só que demonstra essa independência se transformando na principal caçadora de zumbis da Inglaterra. Austen gostava de fazer piadas com os ricos e acho que ela iria rir ao ver aristocratas organizando festas e tomando chá enquanto mortos-vivos rasgam o país lá fora.
Não se sabe exatamente como os puristas receberão Pride and prejudice and zombies. Profanação? Brincadeira de mau gosto? Smith garante que se lançou na empreitada com orgulho. E sem preconceitos.
- Tenho certeza que algumas pessoas acharão a coisa de mau gosto – admite. – Mas acredito que a maioria dos “Janetes” espalhados mundo afora tenha algum senso de humor. Além do mais, não sou a primeira pessoa a pôr um toque pessoal numa história dela.
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Aproveitei para fazer uma pesquisa com algumas personalidades. A pergunta era:
Qual clássico da literatura brasileira você reescreveria inserindo zumbis?
Diogo Mainardi e Carlos Heitor Cony não me responderam. Agradeço a atenção. Por outro lado, Tatiana Salem Levy lembrou A paixao segundo GH, de Clarice Lispector (pessoalmente, acho que Clarice devia gostar de zumbis). “O clima estranho do romance combina com zumbi”, justificou a autora de A chave da casa, vencedora do Prêmio Sâo Paulo de literatura. “Seria bom um zumbi para se confrontar com a solidão da personagem. É um livro de confronto. E aquela historia de barata estava fácil demais. Ela tinha era que comer um zumbi…”
Allan Sieber citou Os sertões, porque, segundo ele, já é uma coisa meio zumbi. Já o sempre atencioso Affonso Romano de Sant’anna pensou, pensou, mas não conseguiu achar. Mesmo assim, me passou uma contribuição valiosa. Reproduzo aqui:
- Existe na teoria da literatura, desde os anos 70 algo chamado de ” teoria
da carnavalização”. Durante décadas trabalhei com essa teoria originária de obras Makhail Bakhtin e orientei dezenas de teses a respeito.No Brasil,
classicamente, obras como
“Macunaima” e “A morte e a morte de Quincas Berro d’agua” e “João Ternura”, são exemplos disto. O narrador mistura magia e cotidiano, realidade e suprarealidade para fazer uma paródia da sociedade. É um processo de ” inversão” do mundo, o que se chama de “mundo às avessas”,
como no carnaval. Ora, as estórias vampirescas pertencem a esse universo. Lembro-me que Geraldinho Carneiro, enquanto meu aluno na PUC, nos anos 80, fez até um trabalho sobre vampirismo e carnavalização. As novelas brasileiras de Agnaldo Silva e Dias Gomes, na linha do realismo fantástico exploram isto também. Havia também aquele seriado ” A família Adams” onde Drácula, Frankstein e outras figuras terriveis apareciam carnavalizando os
fatos em forma de comédia. Não conheço o livro do americano, mas é uma fórmula, que está em Dostoievsky e aliás em Érico Verissimo de ” Incidente em Antares”.
La Concejala antropófaga
February 17, 2009
Almodóvar voltou aos curta-metragens em um especial para o Canal + da Espanha. Mesmo espírito politicamente incorreta dos seus super-8 dos anos 70, só que agora em 35MM e participações de luxo, como a de Penelope Cruz. Já caiu na web:
Tempos de crise
February 5, 2009

Acabei de ler essa frase de um leitor no site do Libé, a melhor definição do mundo que nos espera:
“Cada um por si. Godemichés para todos.”
Um lugar ao sul
February 5, 2009
Outro dia o colega Leandro Sotto Maior chegou aqui na redação esbravejando contra Botafogo – bairro que, segundo ele, é “a Zona Sul que não deu certo”.
Não entendo essa fixação dos cariocas em dividir sua cidade entre Sul e Norte. Está eternizado o mito do paraíso ao sul, o mundo civilizado do Rio – e que na cabeça de muita gente se extende para a compreensão socio-geográfica do país. Quantas vezes não ouvi essa imagem absurdamente idealizada de que tudo lá para baixo é melhor, mais limpo, educado, etc… Quantas vezes não ouvi: “Ah, você é do sul, lá é tão melhor…”
O brasileiro quer encontrar seu “lugar ao sul”. Os retirantes nordestinos se matam por Rio-São Paulo, enquanto paulistas e cariocas sonham com Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com a ilusão de que na ponta de baixo do país não há violência, desordem, pobreza, apenas loiras incríveis prontas para cumprir seu papel reprodutivo no processo de embranquecimento do país…
É sempre a vontade de descer um pouco mais, mais abaixo da nação, rumo a um lugar que “não pareça Brasil”. Por outro lado, os gaúchos, na última ponta do pedaço, se preocupam em estacionar seus cavalos na estância velha, jurando de que sua terra é diferente da do resto do país. Mas posso dizer com conhecimento de causa, já que conheço os dois lados: não é. Vá para Porto Alegre e você encontrará os mesmos problemas do Rio, só que com loiras para disfarçar. Há uma idéia falsa, fetichizada, utópica de Sul no país.
Da mesma forma, a Zona Sul não difere em nada da Zona Norte. E esse foi o argumento que usei para tentar desmontar a tese do colega: o fato é que não é apenas Botafogo. Toda Zona Sul é a Zona Sul que não deu certo. A Zona Sul é a Zona Norte com um pouco de maquiagem. Os prédios parecem mais bonitos porque foram construídos com material melhor, mas têm a mesma pobreza arquitetônica de quaquer outro espigão da Penha. As ruas são mais limpas, mas não porque as pessoas se incomodem em não jogar porcarias no chão – apenas há mais lixeiros circulando. As mulheres também não são mais bonitas. Têm uma melhor produção, roupas, produtos de beleza, postura, bronzeamento, perfume, tratamento dentário, etc..
Dirão vocês que não sei o que estou falando, já que nunca morei na Zona Norte, e não sei o horror que é. De fato, nunca morei. Mas morei na Zona Sul. E sei o horror que é. Portanto, posso dizer sem medo: a Zona Sul é a Zona Norte. Ou por outra: a Zona Sul é a Zona Norte com praia.
(E o Rio Grande do Sul é o Nordeste com loiras.)
PS: Por causa de um doloroso ato de traição, não fui para Tiradentes, então não vi o Praça Saens Pena, de Vinícius Reis. O filme tem a Zona Norte como cenário, coisa que raramente acontece no nosso cinema. Ver o filme será uma boa oportunidade para comprovar minha tese.
Litania
February 4, 2009

Nunca nos realizamos.
Somos dois abismos – um poço fitando o céu.
(Fernando Pessoa/Bernardo Soares, Livro do Desassossego)
Duvido que Emily Dickinson tenha lido Rimbaud
February 3, 2009

Presa em seu quarto no final do século XIX, é difícil que Dickinson – “uma ilha cercada por deserto”, como definem a poeta e a limitação do ambiente rural que a cercava – tenha tido qualquer contato com os poemas de Rimbaud.
V poema de Time and eternity
(Emily Dickinson)
On this long storm the rainbow rose,
On this late morn the sun;
The clouds, like listless elephants,
Horizons straggled down.
The birds rose smiling in their nests,
The gales indeed were done;
Alas! how heedless were the eyes
On whom the summer shone!
The quiet nonchalance of death
No daybreak can bestir;
The slow archangel’s syllables
Must awaken her.
L’étoile a pleuré rose …
(Arthur Rimbaud)
L’étoile a pleuré rose au coeur de tes oreilles,
L’infini roulé blanc de ta nuque à tes reins ;
La mer a perlé rousse à tes mammes vermeilles
Et l’Homme saigné noir à ton flanc souverain.
Finca Vigía revelada
February 2, 2009

Arquivos de Hemingway são abertos em Cuba
Por Bolívar Torres
De todos os escritores do século 20, o americano Ernest Hemingway, autor de clássicos como Adeus às armas e O velho e o mar, foi provavelmente o mais biografado. A vida movimentada do autor, que escapou da morte por pouco cobrindo guerras na Europa, participando de safáris na África e sofrendo acidentes de carro e avião, para finalmente pôr fim à própria existência com um tiro na cabeça, sempre fascinou leitores e biógrafos.
Mesmo assim, entre touradas, pescarias, bebedeiras e casos de amor, o período em que o autor viveu em Cuba, na sua ampla casa em Finca Vigía, é relativamente pouco documentado. No último dia 5, porém, o anúncio de que o Museu Hemingway, em Havana, vai disponibilizar aos estudiosos versões digitais de documentos, fotos e livros que passaram décadas escondidos no porão de Finca Vigía abre possibilidades para reavaliar a importância dos 21 anos em que Hemingway viveu no país. São cartas, manuscritos iniciados, diários, relatórios enviados ao governo dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra e outras raridades escritas a mão e a máquina, formando um total de mais de 3 mil páginas e fotografias
– O material pode enriquecer diversos aspectos da biografia do escritor – afirma Ada Rosa Alfonso Rosales, diretora do museu. – A maioria das biografias de Hemingway minimiza, quando não ignora, sua presença em Cuba e a importância desse período em sua vida e obra. O primeiro contato do escritor com Cuba foi em 1928. Viveu em Finca Vigía desde maio de 1939 até 25 de julho de 1960 e foi lá que escreveu clássicos como O velho e o mar e Paris é uma festa, entre outros.
Para o escritor Eric Nepomuceno, autor de Hemingway na Espanha, sobre a relação entre o escritor e o país que tanto amava, o farto material ajudará a revirar ainda mais a vida do escritor.
– Para quem gosta de Hemingway, é uma notícia espetacular – comemora. – Por mais rigorosas que sejam essas biografias ou perfis biográficos, sempre há zonas de sombra e também algo novo a ser descoberto que poderá servir para mudar pontos de vista e conclusões ou para trazer novas luzes sobre essa figura tão esmiuçada. Logo após o suicídio de Hemingway, em 3 de julho de 1961, sua viúva, Mary, queimou algumas cartas que o autor separara, levando outros manuscritos e anotações para os Estados Unidos. O governo cubano manteve intacto o resto do material. Mas décadas de exposição à umidade, insetos e calor prejudicaram muitos dos documentos.
– Os materiais não são documentos de arquivo e sim peças de museu – explica Ada. – A consulta dos originais foi limitada para conservação. Estão sendo devidamente preservados, restaurados por especialistas, e digitalizados.
Entre as raridades, há relatos de Hemingway sobre suas aventuras na Segunda Guerra, quando procurou submarinos alemães ao largo de Cuba, além de cartas de amor da condessa italiana Adriana Ivancich – possível inspiração para a heroína de Do outro lado do rio, entre as árvores. O escritor cubano Norberto Fuentes teve acesso à parte do material. Sua pesquisa resultou no livro Hemingway en Cuba – para muitos, a melhor biografia sobre o período do escritor na ilha. Apesar dos levantamentos, ainda circulam no imaginário popular várias lendas e mentiras sobre Papa (como o autor também era chamado).
– Sua figura folclórica e fácil de ser encontrada no velho centro de Havana gerou um sem-fim de histórias, muitas verdadeiras, muitas inventadas – esclarece Nepomuceno.
O biógrafo cita o bar e restaurante La Bodeguita del Medio, que expõe um cartaz escrito “Para mi daiquiri, El Floridita; para mi mojito, La Bodeguita”, com uma suposta assinatura de Hemingway embaixo. Só que, apesar de ter consagrado a Bodeguita com suas façanhas etílicas, o escritor nunca pôs os pés ali. Na época, o lugar era um depósito de bebidas, não um bar:
– O cartaz manuscrito é um blefe. Não foi escrito por Hemingway. Que, a propósito, não assinava Ernest, mas Ernesto ou Ernestito ou Ernestico. E mais: quem vai à Bodeguita vê uma foto de Hemingway sentado num balcão de madeira polida, com um drinque na mão. Tudo igualzinho ao balcão da Bodeguita. Fica mais do que evidente que é ele ali, no lugar em que se encontra o visitante. Pura mentira. A foto é real, mas foi tirada no bar de um navio. O balcão da Bodeguita foi feito à imagem e semelhança do bar desse navio, quando, nos anos 60, o lugar foi reaberto.
Yes, man!
January 30, 2009
Em tempos de mudanças e yes, we can, Carl Allen (Jim Carrey) decide dar um gás na sua vida com uma promessa: dizer sim para tudo. A sinopse de Sim senhor (muito similar a de O mentiroso) já sugere um clássico Jim Carrey movie. Ou seja, aquele filme de assegurado sucesso comercial que o genial ator alterna com projetos mais experimentais. E a estrutura não deixa dúvida: é a mesma mistura de comédia romântica, fábula e mensagenzinhas ingênuas, que domesticam a ferocidade – e elasticidade – cômica de Carrey, presentes de forma mais bruta em grandes obras selvagens como Ace Ventura e Eu, eu mesmo e Irene.
De todos os produtos dessa safra, porém, esse é o mais estranho e menos esquematizado – e, por isso mesmo, o melhor. O diretor Peyton Reed conseguiu quebrar a formatação industrial inserindo elementos interessantes, com destaque para as presenças do bizarro stand-up comedian neozeolandês Rhys Darby (no papel do patrão Norman) e a graciosíssima Zooey Deschanel, numa auto-paródia de sua adorável figura indie-freak.
Em sua busca frenética pela felicidade, o filme leva às últimas conseqüências a frase de Hitchcock: “O cinema é a vida, sem os momentos chatos”.
Gasparetto e os Gasparzinhos
January 22, 2009
(Minha entrevista com Zíbia Gasparetto)
Aos 82 anos, a escritora espiritualista Zíbia avisa aos seus milhões de seguidores: vai diminuir a produção de livros. No novo, que sai este mês, são os leitores que escrevem
Bolívar Torres
Com 82 anos completados na última terça-feira, a médium Zíbia Gasparetto decidiu: vai diminuir o ritmo de sua produção. Desde a década de 50, diferentes seres desencarnados começaram a lhe soprar do além narrativas que misturam suspense, romance açucarado e mensagens de auto-ajuda. Um dom sobrenatural que já rendeu 31 livros psicografados e mais de 9 milhões de exemplares vendidos. Mas, em 2006, a entidade Lucius, que teria sido membro do parlamento inglês numa vida passada e que é hoje “responsável” pela maioria dos best-sellers de Zíbia, assobiou no ouvido dela: “Este ano, você escreverá menos”. Zíbia obedeceu seu guia e publicou “apenas” dois livros desde o final de 2007. O mais recente é Eles continuam entre nós, uma rara obra não-psicografada, que chega às livrarias ainda este mês. Trata-se, nas palavras do release enviado pela editora, de “uma coletânea de relatos feitos por leitores sobre experiências que só podem ser explicadas pela intervenção de seres de outras dimensões, sem qualquer lógica materialista”.
– A mediunidade é uma coisa de ciência, mas também é delicada – explica Zíbia. – As pessoas têm medo de lidar com ela. Muita gente tem aptidão para isso, mas não estudou. O que é um problema, porque a mediunidade mexe com muitas energias e é um mundo vasto, que invade a áurea.
Zíbia diz que o livro pode desmistificar as fantasias em torno da paranormalidade – que para ela, não tem nada de “para”.
– Há muitos estudos comprovados a respeito desses fenômenos. Tem essa tal de física quântica, que mostra que o corpo pode sobreviver à parte física. Há muitos autores e livros que comprovam isso – afirma Zíbia.
Quais, Zíbia?
– Hum, pois é, assim, de cabeça, não sei dizer.
Ao longo dos anos, os espíritos foram bom conselheiros para a família Gasparetto. Além do rentável material literário, Zíbia ganha orientações para os negócios. É graças ao bom faro das entidades comunicacionais que os Gasparetto abriram a empresa Vida & Consciência, uma editora especializada em livros cujo principal objetivo é ajudar as pessoas a superar seus tormentos. Com o tempo, no entanto, Lucius já não se comunica tanto com Zíbia, dando mais liberdade para a empresária agir.
– No começo, ele estava comigo em todos os lugares – lembra. – Era no trabalho, no trânsito, na cozinha… Me orientava até na hora de atravessar a rua! Mas, hoje, ele já não me ciceroneia tanto quanto antigamente.
Não é apenas na sabedoria de Lucius que bebe o trabalho literário e empresarial de Zíbia. Outros autores ditam obras para a médium. Entre eles, há nomes conhecidos da cultura brasileira, como Gilberto Freyre. A única diferença é que, pela pena incansável de Zíbia (as entidades ditam horas a fio, sem descanso), o pensador que definiu o conceito de democracia racial troca a antropologia por histórias sentimentalóides no melhor estilo roman rose.
Não dá para negar: devido aos seus dons psicográficos, o grande público brasileiro pôde enfim conhecer alguns autores canônicos da nossa nação. Com um estilo menos erudito, vá lá. E talvez com idéias um pouco menos profundas.
– Ah, o Gilberto… – lembra Zíbia. – Esse só aparece esporadicamente. Mas dita boas histórias. Do que ele escreveu quando vivo, só conheço aquele livro, o Casagrande e Senzala.
“Dona Zíbia”, como é chamada pelos mais de 200 funcionários de sua editora, não sabe explicar por que os autores clássicos mudam tanto seu estilo depois de mortos. Aliás, a empresária não fala muito sobre Freyre. Nem do romancista Graciliano Ramos, outra entidade ilustre que lhe dita alguns contos. Prefere citar José Silveira Sampaio, um espírito vivo, alegre e otimista, que lhe foi apresentado por Lucius. Em vida, Sampaio foi um autor, ator e diretor teatral de sucesso e virou um dos seres desencarnados preferidos da médium.
– Quando ele vem me visitar é sempre uma festa! – exulta. – Ele me dá conselhos. Um dia ouvi claramente: “Hoje você não come sobremesa. Só frutas”. E eu, claro, obedeci.
Mais do que dicas culinárias, Sampaio já ditou alguns livros, como o clássico O Mundo em que eu vivo, em que relata a vida em outras dimensões. Mas é o guru Lucius que emplaca os grandes sucessos da editora: seu Ninguém é de ninguém que ensina a superar os desacertos do ciúme, vendeu mais de 1 milhão de exemplares desde seu lançamento, em 2000. O mais recente triunfo da entidade é o livro Onde está Teresa?, espécie de thriller espírita que vendeu 200 mil cópias em menos de seis meses.
Ao ser perguntado sobre o significado oculto de seus livros, o escritor Ernest Hemingway costumava brincar: “Quando quero passar uma mensagem, mando um telegrama”, dizia. Zíbia Gasparetto, por sua vez, leva mais a sério essa função. Todos seus livros – e os de sua editora – trazem mensagens de aprendizado a seus leitores. Quando é preciso voltar (2001) avisa que fugir dos problemas apenas transfere o momento de enfrentá-los. Já A Verdade de cada um (1996) mostra o quanto se erra quando se pretende julgar os outros. Em Tudo valeu a pena (1993), Lucius ensina que, quando se vencem os desafios, descobre-se que tudo aconteceu para o melhor.
– O mundo está conturbado e as pessoas estão sem rumo – alerta Zíbia. – Quero distribuir para os outros a minha experiência. As pessoas precisam acordar para melhorar sua maneira de viver. Enfim, essa é minha experiência, e ela é intransponível. E aí, consegui tirar as suas dúvidas?
Publicado no Caderno B (Jornal do Brasil) no dia 3 de agosto de 2008
Yes, we can
January 21, 2009
E, já que os tempos mudam e estamos a quebrar tabus, para quando um transexual asiático passivo na Casa Branca?
Obama-Kramer
January 20, 2009
Vi de relance a posse de Obama. Na hora, lembrei do clássico de Robert Kramer, Route one USA (1989) documentário de mais de quatro horas, que segue a estrada da fronteira do Canadá até Florida Keys. O documentário é uma espécie de volta ao lar para Kramer, que nasceu nos Estados Unidos e se exilou na França no final dos anos 70. Dez anos depois, lá estava ele de volta, cruzando o seu país, e tentando compreendê-lo. É um filme lindo, do tamanho da América, que mostra os mitos, os sonhos, o imaginário, a industrialização, a religião, a imigração, a questão racial, a desigualdade social… Começa com o trecho de Folhas da relva, de Whitman, a Canção da estrada aberta – e logo depois já estamos seguindo fascinados pela Route One, com planos incríveis de crepúsculos nas pequenas cidades, os portos silenciosos, as casas fechadas, aquele tédio no ar… Ou então as grandes cidades industriais, com a fumaça das fábricas, as máquinas funcionando a pleno vapor, os ghetos, dois jovens pobres latinos que se casam, os planos para o futuro, mendigos numa fila de ação de graças comunitária, senhoras protestando na rua contra aborto, um grupo de “bruxas” se reunindo em casa num subúrbio puritano (“Quando Salem encontra Haloween”, diz o narrador).
Finalmente, Jesse Jackon. O então primeiro pré-candidato negro à presidência dos Estados Unidos se deixou filmar pelo diretor, primeiro em um escritório, em seguida durante um discurso para uma multidão. Jackson empolgava, mas, na época, ninguém acreditava de fato que seria eleito presidente. Quase vinte anos depois, apareceu chorando no discurso que Obama fez logo depois de ser eleito, em novembro passado.
Me pergunto como Kramer, que morreu em 1999 (aos 60 anos) e era fascinado por John Ford e os ideais fundadores da América, estaria filmando Obama, agora, nesse exato momento em que caminha até a Casa Branca.
Fim de jogo
January 19, 2009

Morro da Conceição, no fim de um sábado
That’s what friendship all about
January 19, 2009
Outro dia estava em Ouro Preto, deitado na cama dura de um quarto de hotel (Hotel Mirante, não se hospedem lá), depois de um dia incrível na cidade mineira, que eu conhecia pela primeira vez. Tinha acabado de caminhar sob a noite estrelada, subindo e descendo ladeiras imensas, cercadas por construções agradáveis (desculpa e ignorância, mas ainda não descobri a diferença entre barroco e rococó). Sou um idiota plástico e arquitetônico, mas sei do que gosto – e das construções de Ouro Preto, eu gosto.
Fiquei na cama, olhando para o teto, mas não conseguia relaxar. Não importa o quanto tinha sido bom o meu dia, e o quanto poderia ser boa o resto da minha noite. Eu me sentia culpado. Corroído pelo remorso. Explico o por quê: na semana anterior, havia passado uns dias em SP (ler o post Reminiscências de São Paulo), no momento em que lutava contra uma gripe que não se deixava vencer. E essa mesma gripe acabou passando para minha amiga Bruna, que me acompanhou boa parte desses dias na capital paulista. A gripe chegou avassaladora para ela, transformou-se em febre. E pior é que Bruna é cantora: a garganta inflamada não lhe deixava cantar. Tudo por minha culpa.
Não me aguentei. Peguei o celular e fiz um interurbano para SP. Assim que ela atendeu, percebi a voz fragilizada de doente, e me senti péssimo, muito péssimo.
- Ouch- eu disse. – Ai, ai… OK, eu tô ligando pra me desculpar.
- É tudo sua culpa! – ela brincou (mas seria mesmo brincadeira?) – Você me passou febre! Você tossiu na minha cara!
Para não chorar, nós rimos um pouco, e algumas horas depois eu já estava bebendo minha culpa num bar qualquer de Ouro Preto.
Três meses mais tarde, estou aqui, na minha cama confortável, vendo as descargas elétricas rasgarem o céu, pela minha janela, e escutando a chuva caíndo aos poucos após uma tarde excepcionalmente quente. Tive outro dia incrível. Sol, céu azul, ondas razoáveis na praia da Macumba (sem muito crowd, pelo menos até às 13 horas, antes da garotada invadir o pico), natureza marvilhosa ao meu redor, boa comida, boa música, boa leitura, nenhum trabalho para o jornal… Não tenho muito a reclamar (bem, talvez eu tenha exagerado um pouquinho no sol).
E não é que mais uma vez chega a culpa junto com a noite e a chuva? Bruna está de aniversário. Eu, aqui, no Rio, não sei o que escrever para ela. O que significa essa data, essa nova etapa de vida, e o que iremos enfrentar daqui para frente? Queria ter a palavra certa, a resposta exata, mas melhor ficar quieto. Melhor deixarque o tempo responda para todos nós.
Enfim, o ponto principal desse tetxo sem rumo, vou esclarecer agora: com amigos – os amigos de verdade – é sempre e sempre será assim. Não interessa a sua felicidade, você quer, você precisa, que o outro compartilhe. Que o outro esteja tão feliz quanto você, que tudo dê certo na medida igual. Nos bons, nos maus momento, o seu pensamento está no outro, tanto quanto em você. E é por isso que eu digo, para esse novo ano completado para Bruna, que tudo de bom e de ruim vai ser compartilhado, e que tudo só fará sentido se for assim.
Em tempos onde não se pode mais confiar em quase ninguèm – e eu sei o quanto isso se tornou verdadeiro para mim recentemente – são poucas as pessoas para quem se pode dizer isso sem remorsos.
As coisas boas da vida
January 16, 2009

Floresta da Tijuca, num domingo qualquer, qualquer hora
PS: (É pra me redimir pela amargura do post anterior)