Exotismo
September 30, 2008

E por falar em Finlândia, a charmosíssima Islaja lançou um disco ao vivo, “Blaze Mountain Recordings”, o seu primeiro. Cantora, compositora e artista visual, Islaja representa o clichê do exotismo nórdico, uma coisa meio “artistas do fim do mundo”. Mas suas músicas são muito boas, e seus videos – co-dirigidos pela própria com Nicky Lianos – deixam os velhos clipes da Björk no chinelo. Mares silenciosos, florestas sombrias e crepúsculos gelados ilustram sons esquisitos, hinos apocalípticos de um mundo perdido no tempo. Meu finlandês não é dos melhores, mas tenho o pressentimento que as letras devem ser ótimas.
Terra do gelo
September 30, 2008


Em parceria com o Museu finlandês de Fotografia de Helsinki, o Nicéphore Niépce está exibindo uma exposição em homenagem à fotografia finlandesa, de 1950 aos 1980. Oportunidade para descobrir diversos fotográfos como Matti Saanio (acima, com “Filho de pescador”, de 1965) e Ari Jaskari (abaixo, com “Evening swim”, de 1983).
Quimeras. Horizonte.
September 26, 2008
Um porto é o começo do desconhecido.
Li e ouvi de vários críticos franceses: 2008 é o ano de Jean de La Ville de Mirmont, escritor nascido em 1886 e morto muito jovem durante a Primeira Guerra, aos 27 anos, deixando uma obra curta e rapidamente esquecida. Redescoberto, Mirmont, está sendo chamado agora de “tesouro esquecido da literatura francesa”, graças a uma recém lançada coletânea da editora Grasset, “L’horizon chimerique”, que reúne os seus escritos: um romance, alguns poemas e contos. Todos foram praticamente ignorados durante quase um século. Nunca li. Eu, também, descobri-o agora. Entre as relíquias, fala-se maravilhas de “Les Dimanches de Jean Dézert”,romance sobre um medíocre funcionário público sem ambição, arquétipo do anti-heroi. É o único texto que Mirmont publicou em vida. Trata-se, segundo a lenda, do livro de cabeceira de Michel Houellebcq.
Mirmont retrata seu personagem como alguém que “sabe esperar”. Vivendo no piloto automático no início do século, espera o domingo chegar, a promoção chegar, a morte chegar, tranqüila e sem surpresas. Em alguns trechos que encontrei na internet, li ao menos uma frase muito boa sobre esse tal de Jean Dézert (cujo trocadilho no nome, aliás, já diz tudo): “Ele considera a vida como uma sala de espera para passageiros de terceira classe”. Parece Tchekhov!
Encontrei também alguns de seus poemas na internet. Há versos bonitos, de uma insatisfação baudelairiana. Uma espécie de errância imóvel, assombrada por partidas adiadas. A existência é uma grande aventura frustrada:
Que me importa, agora, que a terra seja redonda
E moradia do homem, sem esperança?
Sim, entendi porque criaram o mundo;
Foi para meu prazer, exuberante, de uma só noite!
Reproduzo abaixo o poema “L’horizon chimerique”, que inpirou um poema sinfônico de Gabriel Faure (desculpem, mas não ousei traduzir essa parte):
Vaisseaux, nous vous aurons aimés en pure perte ;
Le dernier de vous tous est parti sur la mer.
Le couchant emporta tant de voiles ouvertes
Que ce port et mon coeur sont à jamais déserts.
La mer vous a rendus à votre destinée,
Au-delà du rivage où s’arrêtent nos pas.
Nous ne pouvions garder vos âmes enchaînées ;
Il vous faut des lointains que je ne connais pas.
Je suis de ceux dont les désirs sont sur la terre.
Le souffle qui vous grise emplit mon coeur d’effroi,
Mais votre appel, au fond des soirs, me désespère,
Car j’ai de grands départs inassouvis en moi.
Antes de partir para a guerra, o jovem poeta deixou em sua escrivaninha esses versos: Dessa vez, meu coração é a grande viagem, / Não sei quando voltaremos.
Sinalizações
September 25, 2008

Sim, eu compreendia. Nessa vida que nos parece, às vezes, um grande terreno baldio, sem sinalizações, em meio a linhas de fuga e horizontes perdidos, bem que gostaríamos encontrar algum ponto de referência, armar um tipo de cadastro, acabar com esse sentimento de navio levado pela corrente. Então, amarramos as pontas. Tentamos tornar estáveis os encontros do acaso.
(Patrick Modiano, Dans le café de la jeunesse perdue)
Atrás do vidro
September 24, 2008

Caroline Manas
Baile da 3ª idade
September 24, 2008
Ah, Aznavour… Caso sério, esse “menino”.
É tanto clichê em torno da sua figura, que fico até com medo de comentar qualquer coisa… Será que vou escorregar num “Monsieur Charme” ou “Embaixador da Canção Francesa”? Por favor: NÃO, BOLÌVAR!
Ok, fui no show dele domingo. Dizem que a última vez que vem ao Brasil. Mas foi também o que disseram abril passado. Sim, o Aznavour tem tantas despedidas do palco como o Maradonna do futebol. Mas tudo bem… Cheguei lá tentando guardar em mente o homenzinho baixinho e feinho, mas cheio de auto-confiança, que a Nouvelle Vague fincou na minha memória quando vi “Uma mulher é uma mulher” (meu Godard preferido) e “Atirem no Pianista” (um Truffaut que não revejo há séculos). Ou então o vozeirão das boemias melancólicas – o saudosismo azedo – de “Ma bohème”. Queria tirar da mente o cafonérrimo senhor que aparece de vez em quando em programas de TV franceses, geralmente entrevistado por apresentadores com cara de pastel e smoking de maratonas do telethon.
Mas enfim, consegui um convite espetacular. Sentei ali, na terceira fila (obrigado, Poladian!), esperando que Aznavour cuspisse em mim. Só que, assim que as luzes apagam, surge o homem com um blazer cinza cheio de firulas (ai, ai!) e uma banda dessas que só de olhar dá medo: muitas cordas, pianista com cabeleira tosca, backing vocal oxigenada de meia-idade e, porra, teclado! Já sentia o que estava por vir.
Era o Aznavour do Telethon, não o do Godard.
Olhei para o lado e confirmei: estou cercado por idosos. Fudeu! Com todo respeito à melhor idade (um dia, espero, também chegarei lá – mas devagarzinho, Deus, por favor), naõ me imaginava me encontrar nessa situação num domingo à noite chuvoso, no dia seguinte ao meu aniversário. Mas tudo que é ruim pode piorar – e então Aznavour começa cantar sob uma bateria ensurdecedora, com arranjos de mambo de churrascaria. Na primeira parte, gastou seu repertório mais novo – e definitivamente, sem graça. Era um pouco como estar num desses shows de cruzeiro, esperando que o Capitão viesse convidar os passageiros para um partida de pôquer no final.
Mas ai fui abstraindo. Começou a ficar bacana. Aznavour faz umas caretas, teatraliza as canções, com uma canastrice agradável. Não é um Jacques Brel, claro, mas tudo bem. Parecia um Roberto Carlos em francês, uma coisa meio entre Tijuca e Paris. Domínio de palco ele, realmente, tem. Uma velhinha ao meu lado, falou para o velhinho ao seu lado: “Ele é bonito, não é?” “Um gato”, concordou o velhinho.
Não dá para negar: Aznavour é mesmo o Chico Buarque das heptogenárias. Ao falar com o público, tremia as mãos. Mas, assim que começava uma canção, seu corpo de 84 anos exibia controle e firmeza absolutos. Entoando “Les plaisirs demodés”, se deu o luxo de dançar para ilustrar o “joues contre joues”. As velhinhas foram a loucura. E eu tive certeza: “Estou no baile da terceira idade”.
Mas Ave Maria foi o ponto alto. Quando um imagem em laser de vitrô de igreja começou a se desenhar no fundo do palco – enquanto o velho Azna erguia as mãos com uma fúria emocionada – aí, meus amigos, não deu mais. Pensei: “Relaxa. É Aznavour…”
Na redação
September 24, 2008
Na redação, agora, fechando matéria.
Alguém manda aumentar o volume da televisão. Deveriam proibir televisões em locais de trabalho, mas não proibem. Aliás, deveriam proibir televisão em todos os lugares.
Aumentam o volume. Wagner Montes está mancando no estúdio. Ele fala sem parar, e eu não ouço o que diz. Só sei que, na frente dele, tem um monte de sujeitos bombados fazendo abdominais no chão.
O dia promete.
Polêmicas literárias
September 24, 2008
AINDA HÁ ESPAÇO PARA POLÊMICAS LITERÁRIAS NO BRASIL? SERIA O FIM DA DISCUSSÃO POLÍTICA E ESTÉTICA?
RESOLVI FAZER A REPORTAGEM. É MATERIAL EXCLUSIVO PARA O BLOG:
Guerra e paz literária
Entre escritores, críticos e teóricos, parece haver unanimidade: no Brasil, as polêmicas literárias não têm mais a força de antigamente. Se em países mais familiarizados com a leitura o desejo e o hábito do debate agoniza, mais ainda persiste, por aqui ele está cada vez mais ausente na imprensa, na atividade dos escritores, e até no meio acadêmico. A opinião pública em geral não estaria mais disposta a discutir questões políticas e estéticas de determinada obra.
- Há um claro esvaziamento da importância social da literatura, o que contribui para a inanidade da discussão literária brasileira hoje, analisa o jornalista Jerônimo Teixeira. – Creio que falta, sim, alguém que agite o marasmo do ambiente letrado.
Polêmicas literárias podem ser uma forma saudável de debate, um diálogo amplo e um jogo de trocas, em que o escândalo é provocado por um posicionamento original às convenções sociais, e não por ataques localizados. A tomada de posições e as intervenções apaixonadas possibilitariam um choque entre diferentes visões artísticas e políticas.
Para os defensores da polêmica, o debate pode se tornar um complemento à criação, tornando a obra mais viva. Além do mais, seria o reflexo de uma produção rica e vibrante, a prova de uma aproximação entre a literatura e as questões importantes da sociedade.
Porém, a polêmica também pode dar margem a embates pessoais e batalhas verbais puramente arrivistas, em que prevalecem insultos. O proselitismo mais vulgar vira instrumento para a promoção pessoal, e as panelinhas literárias fazem prevalecer a troca de elogios entre os “amigos” e a troca de insulto entre os “inimigos”. A pequenez das ações belicosas é o melhor argumentos dos anti-polemistas, personalidades avessas a controvérsia.
Houve um tempo, no entanto, em que o debate literário literárias não só teve importância, como se mostrou um elemento central na construção de uma suposta idéia de Brasil. Como prova a primeira polêmica literária do Império, conhecida como a “confederação dos tamoios”. Em 1856, José de Alencar atacou o épico A Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Magalhães, poeta patrocinado por Dom Pedro II, e deu início a uma série de debates sobre brasilidade e matéria nacional, que se disseminou nas revistas e periódicos.
No final do século XVIII, a polêmica era o entretenimento predileto dos intelectuais. Segundo Carlos Süssekind de Mendonça, o escritor que desejasse aparecer, só precisava aguardar “uma oportunidade para entrar em polêmica com quem quer que fosse, a propósito dos assuntos em que se sentisse mais à vontade”. Diversas polêmicas se seguiram a partir de então, protagonizadas por figuras como Medeiros e Albuquerque, Carlos de Laet e o desbocado Sílvio Romero (que conseguiu polemizar com o discreto Machado de Assis).
Por que a polêmica literária agoniza nos dias de hoje?
Segundo o escritor e professor Luis Antonio de Assis Brasil, a resposta passa pelo estilo de crítica praticada na imprensa.
- Não há mais polêmicas, e isso acontece justo no momento em que, felizmente, começam a escassear as antigas críticas impressionistas, fruto do auto-didatismo amador, do tipo gosto-não-gosto (e não digo o porquê). Hoje, as críticas tornaram-se tão assépticas e teóricas que nem sempre se sabe o que o crítico está pensando do livro.
Assis, que afirma nunca ter participado de uma polêmica, vê com bons olhos o fim das pequenas e grandes controvérsias.
- Quando elas existiam, eram execráveis, sórdidas. A escória da vida literária. Ademais, inúteis: ninguém convence ninguém de nada, e tudo acaba em rancor e ódio.
A crítica Beatriz Resende, por outro lado, defende um tipo de polêmica positiva, de debate e idéias. Esse tipo de controvérsia, segundo Beatriz, ainda existe, mas não costuma ganhar visibilidade da imprensa:
- O debate positivo depende muito dos cadernos especializados, de um jornalismo de conteúdo que o incentive e o divulgue. Num momento em que este tipo de publicações estão minguando, as grandes polêmicas deixam de ter espaço, não podem se tornar positivamente públicas.
Paradoxalmente, a redemocratização pode ter contribuído para o esvaziamento do debate. Com o fim da polarização ideológica, os artistas se deparam com um cenário de liberdade total, mas repleto de incertezas. Sem um inimigo comum, sentem dificuldade em tomar posições e definir novos rumos. Segundo Beatriz, mais do que polemizar, o grande desafio para os escritores de hoje é a conquista de um espaço:
- Com pouca imprensa, pouca crítica, pouco debate em torno da produção artística e frente à pequena valorização do livro como produto, fica difícil para qualquer autor não canônico conquistar um espaço. É preciso marcar uma diferença para atrair os olhares.
Acabado o debate ideológico, os jovens escritores estariam, conforme Assis Brasil, voltando-se para as questões existenciais.
- Contudo, não podemos esquecer a lição de Walter Benjamin: a literatura intimista é uma forma de manifestar desconforto com o social que aí está, lembra Assis.
Ministrando há 22 anos uma das mais antigas oficinas literárias do país, Assis defende a produção atual e os novos escritores:
- Diferentemente do que acontecia há vinte anos, os jovens alunos de criação literária de hoje querem ser escritores e abrem mão de tudo em função dessa escolha. O amadorismo da década de 80 foi substituído por uma concentração em objetivos profissionais. Meus alunos põem a literatura acima de qualquer outro desejo.
Produção literária e imprensa
O escritor e jornalista Diogo Mainardi tem uma visão diferente. Para ele, antes da escassez de polêmicas, deve-se levar em conta a baixa produção literária do país.
- O que falta no Brasil é literatura. Se houvesse literatura, haveria polêmica. Aqui, o polemista só pode polemizar sobre a falta de literatura, ironiza Mainardi, que sempre viu a escrita no Brasil como uma atividade “onanística”. Antes de abandonar a literatura e se dedicar ao jornalismo, Diogo escreveu quatro romances de caráter polêmico, que tocavam em pontos delicados da sociedade brasileira. Os livros tiveram, de fato, pouca repercussão.
Marcelo Mirissola é outro escritor que vê apatia em seus colegas. Autor do tipo “ame-o ou deteste-o”, ele teve, este ano, um conflito com o rapper Mano Brown.
- Creio que a polêmica não é necessariamente uma reação a uma provocação, mas um desafio ou um açoite dirigido, antes de qualquer coisa, ao próprio criador. Onde estão os criadores? Não existem polemistas porque não existe criação. Nesse país onde os escritores fazem projetos e discutem planilhas, a polêmica não só não tem importância, como está desautorizada de antemão: foi morta e enterrada por aqueles que temem o talento criador e, portanto, não tem opção diferente de compartilhar, festejar e reproduzir as próprias mediocridades, afirma.
Já o professor, escritor e jornalista Juremir Machado cita três causas básicas para a falta de debate:
- Temos 76% de analfabetos funcionais; temos uma classe média estúpida, consumista e mais interessada em marcas do que em cultura; nossos escritores não conseguem tratar dos temas relevantes para o cotidiano das pessoas”.
Outra causa – ou conseqüência – poderia ser encontrada nas redações.
- A imprensa faz assessoria de celebridades, acusa Machado. – Os cadernos culturais abrem mais espaços para o jogo de futebol do Chico Buarque do que para livros inovadores ou críticos. A mídia admira o sucesso, não o talento. É um jogo de compadres, marcado pela conivência com as grandes editoras e dominado pelos elefantes do jet set literário. Com isso, a polêmica desaparece e fica só o release sob a forma de resenha para louvar o famoso de plantão como autor de livros. Em breve, até Wanessa Camargo será certamente escritora.
Machado foi protagonista de uma das poucas polêmicas recentes a ganhar repercussão. Em 1995, trocou farpas nas páginas do jornal Zero Hora com o colega Luis Fernando Veríssimo, depois de sugerir que o pai do escritor, Érico – figura tradicionalmente inatacável no estado – havia se omitido durante a ditadura militar, evitando manifestar-se abertamente contra o regime.
A declaração provocou reações enfurecidas. Na época, uma centena de jornalistas de Zero Hora sub-escreveram um abaixo-assinado pedindo a cabeça de Machado. Apenas o falecido – e polêmico – Paulo Francis defendeu, publicamente, o direito do jornalista de se expressar. No fim, Machado acabou demitido e a controvérsia foi interrompida de forma abrupta, deixando no ar a sensação de que certos temas são proibidos – ou, ao menos, não recomendados.
Haveria uma blindagem da opinião pública, não permitindo que determinadas figuras sagradas, vivas ou mortas, sejam questionadas? Mainardi, bem ao seu estilo, responde:
- A opinião pública não dá a menor pelota para escritores vivos ou mortos. O desinteresse geral permite que os escritores se dediquem ao conchavo mais rasteiro.
Mas qual seria a função de um bom polemista?
- Tem de estar preparado para a apanhar, responde Diogo Mainardi. – A polêmica pode dar visibilidade ao polemista, mas isso tem um preço, sobretudo numa cultura conformista como a nossa, em que o compadrio é a regra.
Juremir Machado cita mais alguns méritos:
- Não se intimidar, pôr em crise o imaginário dos outros, desconstruir o senso comum, levantar questões incômodas, desmitificar e desmistificar…
Ou, como resume laconicamente Mainardi: “Amolar”.
Olímpiadas (ainda…)
September 24, 2008
Então, continuando…
Outro dia, fui jantar com uma amiga americana no Amir, o excelente árabe da Romald de Carvalho. Não lembro do prato que pedimos, mas lembro que estava bom (e que tinha cordeiro ali). Minha amiga é psicóloga e trabalha com pesquisa numa clínica aqui no Rio, com uma bolsa fubright. Enfim, entre uma garfada e outra, me contou que as funcionárias da clínica já estavam há três meses sem receber. E o que muito a surpreendeu, foi que ninguém pensou em reclamar, ou cobrar direitos. Nos Estados Unidos, ela me disse, não há discussão: se você deixa de receber um mês, já faz direto uma queixa na justiça e acabou. Eles te pagam. Mas no Brasil, é uma inação total.
“Tentei motivar as pessoas para que reclamassem, fizessem algumas coisa”, disse ela. “Mas nada. Todo mundo fica assim, parado, como se fosse tudo uma maravilha…”
Aí mudamos de assunto. Falamos sobre não lembro mais o quê, até que, finalmente, chegamos nas olímpiadas. “Por que os brasileiros levam tão a sério esse negócio?”, ela me perguntou. “Tudo bem, no meu país as pessoas se reúnem, assistem, mas não ficam pensando que o destino da pátria depende de uma medalha…”
Concordei e, para reforçar seu argumento, falei do meu espanto com a cretinice patriótica que toma conta das pessoas nesse período (e em outros, e em outros…). Os malucos saem na rua comemorando a vitória em um esporte que nunca acompanharam na vida. Um dia, vi um pobre mendigo esquelético gritar orgulhoso “é ouro, é ouro” depois da medalha em salto a distância. Ficou ali, em frente à TV do bar, quase chorando de emoção. Depois estendeu a mão e pediu dinheiro prum salgado.
“As pessoas choram ao ver a bandeira nacional, botam a mão no peito… Mas na hora de demonstrar patriotismo no dia-a-dia, quer dizer, de respeitar os outras pessoas e as leis, estão se lixando”, eu disse à minha amiga. “Aqui patriotismo é só simulacro, festa e representação. Não tem nada a ver com construir uma nação digna e sim com cantar musiquinhas e fazer festa. É um sentimento abstrato, não tem senso prático.”
Mais, uma vez, minha amiga lembrou da clínica onde faz sua pesquisa. Disse que, quando Brasil e Estados Unidos se enfrentaram no futebol femino, foi hostilizada no trabalho por torcer por seu país. Uma funcionária da clínica veio lhe cobrar explicações. No começo, minha amiga achou que era piada. Mas depois começou a ficar com medo.
“Juro: até agora não sei se aquilo era gozação ou se era sério”, ela contou. “Tinha alguma coisa nos olhos das pessoas que me diziam para eu me cuidar. Estavam muito bravas. Tive que torcer escondida. O mais engraçado é que era uma cobrança estúpida. Chegavam me dizendo: seu país ganha tudo, deixa o nosso ganhar também! Só o Phelps têm mais medalhas do que todos nossos atletas… Falavam como se estivessem brincando, mas levavam aquela partida muito a sério. Por que não deixam essa pra gente, eles diziam. Sinceramente, não entendo esse raciocínio…”
Coube a mim explicar que somos fracos. É isso mesmo, eu disse, não há outra conclusão: somos fracos. Por causa da nossa herança clientelista, não aceitamos confronto. O Brasil não consegue entender que aquilo é uma competição, e não se trata de deixar o outro ganhar por bondade. O negócio é premiar o melhor, apenas isso.
Realmente, todo esse episódio tinha deixado minha amiga perplexa.
“Se o pessoal da clínica tivesse usado para cobrar seus salários ao menos 10 por cento do esforço que usaram pra torcer e reclamar de mim, talvez estivessem pagando suas contas agora, e não entrando no cheque especial…”, foi a conclusão da minha amiga estrangeira.
Vou fazer Control+C e Control+V e no que ela disse:
“Se o pessoal da clínica tivesse usado para cobrar seus salários ao menos 10 por cento do esforço que usaram pra torcer e reclamar de mim, talvez estivessem pagando suas contas agora, e não entrando no cheque especial…”
Pois é.
O fim
September 24, 2008
Graças a Deus: as Olimpíadas acabaram. Não agüentava mais. Apesar da chatice, ficou um balanço positivo para os anti-patriotas: Brasil confirmou-se como impotência olímpica. Nem viagra nos salva.
Mesmo não tendo televisão, fui obrigado a acompanhar nas padarias, nos botecos e na redação o ufanismo dos narradores. De vez em quando, ainda tinha o azar de pegar uma reportagem de telejornal. E lá vinha os textos mais cafonas do mundo, seguido de entrevistas com familiares, as frases de incentivo e as lições de coragem de sempre. E o Galvão gritando: “A medalha é de bronze, mas o sorriso é de ouro”. Ou então o repórter sobre a jogadora de vôlei de praia, que competia sendo assistida pelo filho na platéia: “Pôs a força na bola e no coração do filho Lucas…” Que lindo, é a poesia do vôlei de praia! Perto disso, Paulo Coelho é Homero.
Mas eu não posso escutar essas coisas. Fico irritado, e começo a criticar em voz alta, pra todo mundo ouvir, onde quer que eu esteja. Não consigo abstrair. Dói o coração. Vejam bem: partindo do princípio que nossas crianças são educadas pela televisão, que exemplo terão para o futuro. O texto pseudo-poético-cafona de quinta categoria? O garoto de cinco anos vai chegar em 2030 dizendo que Pedro Bial foi sua maior influência literária. E nossos escritores serão ainda piores que nossos atletas.
Mas, dizia eu, que fico irritado e saio gritando. É verdade. Isso incomoda as pessoas. Se saísse gritando “é ouro! é ouro!” por causa que um indivíduo que eu nunca tinha visto na vida deu um pulo vencedor, ninguém veria problema. Mas gritar contra a televisão é blasfêmia. Pior: parricídio. Estou matando a mãe da nação. ELa que nos educa, nos forma e nos alimenta, diariamente, com sua fantasia. Ela que transforma chatices como competições de bicicleta, ou de pingue-pongue, em momentos inesquecíveis e emocionantes. Ela que diz a que momento chorar, a que momento sorrir, a que momento nos abraçarmos, felizes, com nossa boçalidade patriótica.
Mas eu sou um mau filho, admito.
O barquinho
September 24, 2008
Citando José Simão: o Brasil é ouro no bronze!
(“Chega de bronze. Bronze a gente pega em Ipanema”)
Estou torcendo contra o Brasil. Aliás, a parte mais chata das Olímpiadas, para mim, não é ver barquinho navegando, cavalinho pulando ou bicileta correndo. Sim, tudo isso é MUITO chato, muito chato mesmo, mas nada supera o furor nacionalista que toma conta dos escritórios, das academias, das padarias e armazéns (sempre uma tevê ligada em algum canto, com o Galvão enchendo o saco…)
O antídoto a toda essa chatice patriota é o site FRACASSO (http://fracasso.com.br/). Quem torce, como eu, pelo fracasso dos canarinhos, pode finalmente se deliciar com matérias de alta qualidade ANTI-NACIONALISTA, que trazem nossos fracassados atletas olímpicos, como o levantador de peso Wellison Silva (trecho do lead: “Nossa tradição no levantamento de peso é semelhante ao Badminthon, então por que nós levamos alguém? Numa das cenas mais engraçadas dos últimos tempos, Silva, tinha que ser, fez cara feia, bufou, levantou o peso e… deixou cair na própria cabeça”) ou o velejador Bimba (“Depois de estrear com um 12º lugar, Bimba, sempre ele, se recupera e fica em sexto na segunda regata dos Jogos Olímpicos de Pequim”).
Acessem: http://fracasso.com.br/
Guerra e Rimbaud
September 24, 2008
É engraçado, mas não se costuma falar sobre esta relação. Rimbaud nunca viu a guerra de perto (embora seja quase certo que tenha se juntado aos communards da Comuna de Paris e talvez tenha sido estuprado por um deles), mas escreveu bastante sobre o assunto. Não só a guerra franco-prussiana, da qual foi contemporâneo, mas a guerra como tema recorrente, imagético, em seus poemas. Pessoalmente, acho que Rimbaud está de longe de ser o escritor que melhor falou sobre a guerra: às vezes, principalmente em seus primeiros poemas, ele passa a impressão do clichê adolescente revoltado e romântico, tipo os que vemos hoje nas passeatas anti-guerra do Iraque, sua implicância com Napoleão III parecida com o anti-bushismo (“Car l’ Empereur est saoul de ses vingt ans d’ orgie!/ Il s’ était dit: ‘Je vais souffler la liberté/ Bien délicatement, ainsi qu’ une bougie!’ “, versos de “Raiva dos Césares”, crítica direta, no estilo Victor Hugo, à Napoleão, o Pequeno. Traduzindo literalmente: “Pois o imperador está embriagado com seus vinte anos de orgia/ Ele se disse: ‘Eu vou soprar a liberdade/ Bem delicadamente, como uma vela!’ “).
Longe de uma visão lúcida sobre um conflito armado, o que podemos esperar de Rimbaud é uma visão simbólica sobre a morte, como no poema gótico “O baile dos enforcados”, variação cínica sobre uma canção carolíngia que homenageava os soldados paladinos (e que também tinha sido retocada, um pouco antes, por Baudelaire). Assim começa: “Na forca negra, amável maneta/ Dançam, dançam os paladinos/ Magros paladinos do diabo/ Esqueletos de Saladino”. Em seguida, o fidalgo Belzebu começa a brincar com os esqueletos com a corda da forca e, como um titeteiro, chacoalha de um lado para o outro seus “capitães fúnebres”, esses “alegres dançarinos sem pança”, até que não se saiba mais se é “batalha ou dança”… Rimbaud “canta” a guerra com tradicionais imagens medievais de inferno e morte (e que fazem lembrar as gravuras sinistras que vemos na Idade de Média ilustrando a peste, a fome e a guerra). Tudo está lá: o esqueleto, o diabo, o vento sonoro, o céu sombrio, essa assustadora visão do inferno, em que a Terra toda parece exalar o cheiro de morte.
Por outro lado, no belo “O adormecido do vale”, a situação se inverte, criando uma manipulação clássica: as imagens sinistras dão lugar a uma descrição bucólica, onde um soldado dorme, “em seu leito verde e pingado de luz”. Rimbaud nos faz vislumbrar uma harmonia perfeita entre homem e natureza, bem distante dos cenários góticos do poema anterior, para no final informar que na verdade trata-se de um soldado morto, com dois buracos no peito, seu corpo petrificado engolido pela vasta e verde vegetação. Cria-se o contraste mágico: enquanto em “O baile dos enforcados” o cenário se mimetiza às imagens inconscientes que costumamos ligar à morte, em “O adormecido…” a dureza e estupidez da guerra entram em conflito com a pura, paradisíaca e maternal imagem da Terra.
Depois, no entanto, com o simbolismo de “Os corvos”, Rimbaud volta novamente às imagens sinistras. Começa com esse verso genial, associação evidente entre inverno e morte (sim, sim, todos nós aprendemos com Ricardo III): “Senhor, quando frio são os campos”… De cara, o poeta já esclarece que o cenário está devastado, gelado, improdutivo: é nessa paisagem pós-apocalíptica que Deus chama aos céus os negros corvos, “armada estranha de gritos severos”, o símbolo perfeito da morte, para dar seu recado aos seus filhos estúpidos que procuraram a guerra (vamos admitir: esse poema não podia ser mais Baudelaire). Os corvos vão, “aos milhares pelos campos da França/ Onde dormem os mortos de anteontem”, e percorrem o país cantando a derrota inútil, “a derrota sem futuro”, o que é com certeza a forma mais inteligente de classificar a derrota da França para Bismarck. Lendo tudo isso, sente-se cada vez mais verdadeira a afirmação de Victor Hugo, de que Rimbaud foi, de fato, o “Shakespeare criança”.Mas chega de ilustrações.
Abaixo, os dois poemas na tradução de Ferreira Gullar:
Adormecido no Vale
É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.
Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.
Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.
E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.
Os corvos
Senhor, quando os campos são frios
E nos povoados desnudos
Os longos ângelus são mudos…
Sobre os arvoredos vazios
Fazei descer dos céus preciosos
Os caros corvos deliciosos.
Hoste estranha de gritos secos
Ventos frios varrem nossos ninhos!
Vós, ao longo dos rios maninhos,
Sobre os calvários e seus becos,
Sobre as fossas, sobre os canais,
Dispersai-vos e ali restais.
Aos milhares, nos campos ermos,
Onde há mortos recém-sepultos,
Girai, no inverno, vossos vultos
Para cada um de nós vos vermos,
Sede a consciência que nos leva,
Ó funerais aves das trevas!
Mas, anjos do ar, no alto da fronde,
Mastros sem fim que os céus encantam,
Deixai os pássaros que cantam
Aos que no breu do bosque esconde,
Lá, onde o escuro é mais escuro,
Uma derrota sem futuro.
Três Travecos
September 24, 2008
Caetano Veloso, obviamente, se rendeu à polêmica. E por isso, eu também vou me render – com algumas semanas de atraso. No seu show Ordem em Progresso, Caetano resgatou “3 travestis” uma canção sua antiga – gravada por Zezé Motta e recusada por Ney Matogrosso – para “homenagear” nosso Ronaldo Baleia. Não vale a pena comentar o formato supostamente revolucionário do show, que faz de Caetano uma espécie de versão tropicalista de Juca Chaves, dialogando com assuntos “da atualidade”. Fico muito mais interessado pelas palavras de Caetano a respeito da polêmica com Ronaldo.
Indo além das afirmações óbvias – do tipo todos têm direito a uma vida privada eo que fazem dela não diz respeito a ninguém, etc.. – o cantor viu no incidente de Ronaldo uma prova da beleza e complexidade da vida. E elogiou a coragem do jogador em não se deixar chantagear, explicando que foi isso que ele, Caetano, guardou do episódio.
- Sem querer desmerecer as outras três pessoas envolvidas, Ronaldo tem toda razão quando disse que não quis pagar porque estava sendo ameaçado. Quem diz isso é craque.
OK. Gosto dessa visão de Caetano, de “que a vida é bonita e complexa”, e de que não é preciso dar explicações a ninguém. É assim mesmo: você pode ser um bilionário capaz de pegar todas as mulheres e um dia querer ir prum motel de quinta categoria com travestis. Qual o problema? Por que uma experiência num motel barato é necessariamente pior do que noite numa suite real do Shereton? Por que um travesti é degradante e uma modelo carreirista não? Afinal, se fosse uma orgia com modelos numa mansão em Búzios, como Ronaldo e outros já devem ter feito muito na vida, ninguém falaria nada… A vida é complexa, sim, o desejo é complexo -e isso é bonito, Caetano tem razão. Um dia, você quer deixar de ser o astro comedor de modelos e experimentar o fruto sujo numa espelunca da Barra da Tijuca. O desejo tem dessas coisas, e por isso a experiência humana é mesmo um mistério (não é Caetano que canta: “Gente espelho da vida/ Doce mistério? Vida doce mistério”)
Mas não defendo Ronaldo. Ao contrário do que Caetano diz, o jogador se rendeu aos chantagistas. E estava preocupado com a sua imagem, e se sentindo culpado. Veja bem: ELE próprio estava se sentindo culpado. Ronaldo deixou de pagar não por um ato de coragem, estava apenas confuso e perdido. Quando chegou na delegacia, dizem que chorou como uma criança. Ficou falando que era o fim da carreira dele. Só faltou pedir pela mãe.
Depois, pagou o que os travestis queriam. Tanto que os travestis mudaram a versão. Na televisão, Ronaldo disse que não sabia que eram travecos – confusão ótica que, a julgar pela foto do(a) moço(a), até o Mr. Magoo não faria. De novo, a hipocrisia reinou.
Se Ronaldo tivesse dito, de boca cheia (sem trocadilhos, por favor): “Peguei os travecos sabendo, sim senhor, queria experimentar e ninguém tem nada a ver com isso” – então, com certeza, eu estaria nesse momento defendendo o rapaz, junto com Caetano. E não hesitaria em dizer: esse Ronaldo é macho pra caramba!
Mas, como mais uma vez, graças à grana, tudo foi varrido pra debaixo do tapete e um respeitável Ronaldo já aparece em capas de revistas com sua respeitável namorada – e, uma vez dissociado dos travestis, aos olhos do público ressurgindo perdoado, dignificado, higienizado – prefiro ficar com a ironia implacável de Millôr Fernandes.
Entrevistei o sátiro octogenário pra edição do B desse domingo. E, quando perguntei sobre o humorismo atual, ele me veio com essa:
“Essa do Ronaldo me fez morrer de rir. O rapaz promete. Vai dar muito. O que falar.”
Tudo passa
September 24, 2008

Seremos obrigados a agüentar, até o dia 20 de abril, uma das exposições mais picaretas dos últimos anos: “Darwin: Descubra o Homem e a Teoria Revolucionária que Mudou o Mundo”. Por escandalosos 15 reais, o visitante pode conferir uma exposição pretensamente lúdica que não acrescenta nada a uma boa pesquisa à internet ou algum Cd-Rom da década passada. Duas pobres tartarugas aprisionadas em aquários, painéis confusos, audiovisuais chatos – como atrações tão pobres podem sustentar uma exposição? Dizem que é o tipo de programa que agrada às crianças. Pode ser, desde que elas não entrem em contato com os guias. Não sei quem escolheu e de onde surgiram os guias da exposição, se de alguma faculdade caça niquel de biologia ou o quê, mas uma cena me deixou bem perplexo.
Um grupo de pré-adolescentes estava olhando para um conjunto de crânios de diferentes épocas, australopithecus, pithecanthropus erectus, neardental e outros hominídeos… Entre os crãnios brancos, destoava um exemplar marrom, que atiçou a curiosidade de um dos jovens. Ele perguntou a guia porque aquele crânio tinha uma cor diferente das outras. Resposta da guia:
- Ah, isso eu não tenho como saber, né? Você tá querendo saber demais!
Enfim, bem melhor é levar seus filhos ao Moreira Salles, para visitar a linda exposição das fotos de Augusto Malta. Até o dia 15, ficam expostas 50 imagens realizadas a partir de 1905 pelo fotógrafo oficial de Pereira Passos, que retratou as transformações ocorridas na paisagem do Rio de Janeiro no início do século. Não há como não se emocionar com as belezas naturais ainda intocadas, como a vista panorâmica do redentor, mostrando uma lagoa Rodrigo de Freitas antes da formação do canal, a água doce encontrando o oceano; ou ainda a Estrada da Gávea antes da urbanização; São Conrado antes dos arranha-céus; e o Leblon deserto, completamente deserto. Mas há também os registros do Centro e da Ávenida Beira-Mar antes das reformas urbanas do prefeito Pereira Passos, que desfiguraram completamente aqueles ambientes. Tudo parecia mais largo, maior e mais vazio (e mais limpo também). É estranho ver a Cinelândia, a Rio Branco e a Avenida Brasil tomadas pelos maravilhosos prédios antigos. E também é estranho ver todas aquelas pesoas bem vestidas passando pelas fotos, aquelas pessoas outrora tão cheias de vida, e perceber que todas elas já estão mortas. Enterradas. Todas passaram: viveram, amaram, dançaram. Todos tiveram sua chance. Já não podem voltar.
Entre os passantes, um menininho dá a mão a seu pai. Você olha para o menininho e sabe que seu corpo foi pra debaixo da terra, alimentou os vermes, e hoje desapareceu. Virou pó.
Um dia, você, também, será pó.
Respira, respira
September 24, 2008
O escritor e diplomata mexicano Alfonso Reyes ganhou recentemente uma exposição na ABL. Embora muita gente não saiba, Reyes foi importantíssimo para as relações entre Brasil e México na década de 30. Também foi um grande divulgador aqui no país da literatura que se fazia na Espanha pré-guerra civil. Além do mais, importou para o Brasil um pouco do espírito revolucionário que fervia no México daquela época, influenciando diversos artistas brasileiros, numa lista que ivai de Portinari a Murilo Mendes.
Pois bem. O escritor, que foi considerado por Borges como “o maior prosador de língua espanhola” (????) que já existiu, tinha uma visão interessante da escrita. Dizia: “Escrever é deixar a alma respirar”.
É uma bela analogia. Quer dizer, as pessoas que conseguem enxergar uma dose de transcendência na escrita, provavelmente entendem o que significa. A alma está lá dentro, presa, e precisa respirar, ganhar forma. É bonito, porque nenhum estilo é igual ao outro, assim como nenhuma alma se parece. Mas há, claro, diversas formas de encarar o processo de escrita assim como existem várias formas de respirar. Há quem escreva de forma automática, como uma simples obrigação, assim como há quem respire sem cuidado, apenas para se manter vivo.
Faço parte do grupo dos que respiram de forma automática. Estou longe de ser um yogue nesse assunto, não tenho a menor consciência de como estou respirando. Inspiro e expiro sem nenhuma técnica, sempre rápido demais e sem rítmo algum. Por outro lado, coloco na atividade da escrita minha medida de transcendência. É com esse tipo de “respiração” que deixo minha alma se soltar. Não me refiro ao que escrevo no blog, claro. Escrever num blog, entre uma pausa e outra no trabalho da redação é mais ou menos como aquela respiração ofegante que fazemos depois de uma corridinha ou um esforço físico pesado, uma respiração que sai de forma completamente descontralada. Algo um pouco estéril, mas necessário. Acho que é assim que a alma “respira” nos blogs que vemos por ai (ao menos é assim que ela respira nesse blog, isso eu garanto).
A verdadeira expressão da alma, só posso deixar para o trabalho literário. Mais do que isso: para o trabalho literário escrito à mão. Em “O grande vazio”, Norman Mailer lembrou como é agradável escrever a mão: “Você sente que todo o seu corpo, e também uma parte do seu espírito, chegou até a ponta dos seus dedos”. Respira, respira…
PS: Pra quem quiser saber mais sobre a exposição em homenagem a Reyes na ABL, vejam a matéria que escrevi pro B:
http://jbonline.terra.com.br/editorias/cultura/papel/2008/03/15/cultura20080315001.html
Monólogos interiores
September 24, 2008
Personagem urbano:
“Trabalho que nem um condenado. Só ganho 1000 reais por mês.
Pago 100 reais para morar num conjugado apertadíssimo, um cubículo.
Gasto 50 reais mensais em condução.
Mais 50 reais entre telefone, luz e gás.
Quase não saio à noite, não me divertido.
Cara, com tão pouco dinheiro, não sei como ainda não me dei um tiro!
Quer dizer, eu já teria me dado um tiro há muito tempo, se não gastasse 800 reais por mês em análise… “
Campeão da Libertadores
September 24, 2008
Sou um gaúcho perdido no Rio. Estou perdido há um ano e meio, mais ou menos. Por isso foi estranho assistir à grande final, quarta-feira (para quem não sabe: Inter X São Paulo, valendo o título da Libertadores). Assisti no Humaitá, no apartamento de amigos gaúchos. Foi uma gritaria, é claro, como se estivéssemos em Porto Alegre… Mas lá fora, na rua, tudo estava quieto, deserto, os cariocas se lixavam pelo título colorado, talvez nem soubessem que tinha jogo. Alguém propôs: “Vamos pra Goethe comemorar!” – mas a Goethe estava longe, longe…
É engraçado o contraste. Estar numa cidade e pensar que se está n’ outra. Gritamos na janela. Ninguém respondeu. Berramos: é campeão! Uns cachorros latiram. Talvez a gente tenha acordado um mendigo…
Estávamos em outro clima. Temperamento diferente do resto da cidade. Quando saí na rua era um mutismo, uma indiferença, e de repente não entendi aquelas imagens de histeria coletiva em Porto Alegre, com as pessoas subindo em carros e cantando pra lua.
No táxi, conversei com o motorista. Ele estava procupado com o jogo do Vasco. O Vasco tinha perdido e ele estava triste. Mas elogiou o meu título, sem muita emoção. Chegando em Copacabana, eu saí e ele disse algo em voz baixa, tipo “parabéns”. Um parabéns meio chocho. Em Copacabana, também, estava silencioso. Eu caminhei pela Nossa Senhora me sentindo sozinho, muito sozinho.
(Sábado, Agosto 19, 2006)