Inimigos públicos
October 27, 2008
Pedi para que me trouxessem da França o “Inimigos públicos”, os diálogos entre BHL (Bernard-Henri Lévy) e Michel Houellebecq (no meu pacote, ainda inclui a coletânea de Jean de la Ville de Mirmont, da qual já falei nesse blog, e os último Pynchon, recém traduzido na França e ainda ignorado por aqui). Ouvi rumores sarcásticos vindos da imprensa francesa (principalmente da Chronicart), que definiam o livro como “troca de e-mails elevada à grande literatura”. Enfim, vou poder conferir em breve – e aí conto pra vocês. Enquanto isso, reproduzo o comentário de Juremir Machado da Silva (amigo, tradutor e divulgador da obra do Houellebecq aqui no Brasil) sobre o livro:
BONS DE AUTODIFAMAÇÃO, por Juremir Machado da Silva
A França, ao contrário do Brasil, é um país bom de polêmica cultural. Aqui, com uma literatura que vai do mediano ao medíocre, de Luis Fernando Verissimo a Paulo Coelho, passando por uma nova geração anódina, não há espaço para provocações. Somos a nação da bajulação e das celebridades. Não suportamos críticas nem iconoclastas. Os cadernos culturais são rasteiros. Os críticos literários e os resenhistas são meros assessores de imprensa de grandes editoras e de autores consagrados por livros mornos. O último verdadeiro escritor no Brasil foi Jorge Amado. A nova geração é patética. Alguns, por gostarem de beber cerveja, são influenciados por Charles Bukowsky. É cerveja requentada. Parece xixi. Os demais fazem textos de adolescentes como rituais de passagem.
‘Inimigos públicos’, o livro feito a partir de uma troca de e-mails entre Michel Houellebecq e Bernard-Henri Lévy, mostra a importância da maldição num espaço menos deslumbrado e mais contundente. Michel Houellebecq cutucou: ‘Caro Bernard-Henri Lévy: tudo, como se diz, nos separa, com exceção de um ponto fundamental: somos, eu e o senhor, indivíduos bastante desprezíveis. Especialista em golpes fracassados e em farsas grotescas na mídia, o senhor desonra até as camisas brancas que usa. Íntimo dos poderosos, banhando-se desde a infância em uma riqueza obscena, o senhor é emblemático do que certas revistas de nível um pouco baixo, como Marianne, continuam chamando de ‘esquerda-caviar’ [...] Filósofo sem pensamento, mas não sem relações, o senhor é também o autor do filme mais ridículo da história do cinema. Niilista, reacionário, cínico, racista e misógino vergonhoso, seria para mim ainda uma grande honra classificar-me na pouco atraente família dos anarquistas de direita; fundamentalmente, não passo de um francês médio e comum. Autor insosso, sem estilo, só ascendi à notoriedade literária depois de uma inacreditável falta de gosto cometida, há alguns anos, por críticos desorientados’. Que bela auto-ironia.
Em 27 de janeiro de 2008, BHL respondeu com três pistas possíveis para um debate: ‘Meu caro Michel Houellebecq. Pista número 1. Bravo. Está tudo aí. Sua mediocridade. Minha nulidade. Esse nada sonoro que ocupa o lugar de nossos pensamentos. Esse gosto que temos pela comédia, quando não pela impostura. Há 30 anos me pergunto como um sujeito como eu conseguiu, e consegue, iludir. Trinta anos que, cansado de esperar o bom leitor que saberá me desmascarar, eu multiplico as autocríticas vãs, sem talento, inofensivas. E aí estamos. Graças ao senhor, com sua ajuda, talvez eu consiga. Sua vaidade e a minha. Minha imoralidade e a sua [...] Pista número 2: o senhor, está bem. Mas por que eu? Por que eu entraria, afinal, nesse exercício de autodifamação? E por que o acompanharia nesse gosto que o senhor manifesta pela autodestruição fulminante, amaldiçoante, mortificada? Eu não gosto do niilismo. Detesto o ressentimento e a melancolia que o acompanha. E penso que a literatura só serve para contrariar esse depressionismo que é, mais que nunca, a palavra-chave de nossa época’. Lindo golpe.
Eu, autor rastaquera, desprezado pela crítica, ignorado pela mídia, desconhecido dos leitores, identifico-me com esse jogo. A autodifamação é o que sobra para os sem estilo, para os excluídos da filosofia, da literatura e da crônica de auto-ajuda e, especialmente, para os franco-atiradores niilistas.
(Publicado no Correio do Povo, dia 27 de outubro de 2008)
Shadows
October 26, 2008
Reestreou nessa sexta…
Dois retratos da América
October 22, 2008
Em tempos de eleição e de crise, dois retratos americanos encontrados na Grande Rede essa tarde.
Primeiro, um blog apenas com fotos de flagras do desespero nas bolsas. O nome não podia ser mais apropriado, “Sad Guys on Trading Floors“. Expressões dramáticas, desolação, corpos solitários… É a radiografia da crise, para quem quer ver sangue:

O outro retrato também é bastante irônico. Reportagem do LibéLab, projeto experimental do site do Libération, traz um campeonato de, como dizer… um campeonato de comilança. No Madison Square, os principais comilões do país – alguns com vários títulos na categoria – se reúnem para ver quem come mais pizzas. Na forma inavodora de foto-reportagem audiovisual (estilo “La jetée”), com uma excelente edição, a matéria traz personagens fascinantes como Joey Chesnut, detentor do prestigiado título de Campeão do Mundo de devoração de cachorros-quentes. Enquanto desfilam fotos da comilança pública, ouve-se frases como “Não somos atletas, nem estrelas de rock: nosso trabalho é comer”, ou um animado locutor berrando: “Olha como ele come! Estou nessa há vinte anos, e nunca vi nada parecido!”.
High School é melhor que o Honoré
October 22, 2008
Fui na cabine do “High School Musical 3″. Não vi nenhum dos outros dois, e confesso que fui a contragosto. Mas – surpresa! – achei bom. Melhor do que um musical pseudo-metalíngüístico como “Canções de amor”, em todo caso. Como falei alguns posts abaixo, o filme do Honoré é todo afetado, pasteurizado, é o bom gosto em imagens. “High School”, pelo contrário, é a energia poderosa do mau-gosto. Em alguns momentos (mas só em alguns momentos), recupera um pouco da intensidade de alguns dos melhores musicais espalhafatosos e cheios de cores de Esther Williams ou do cinema pop de Stanley Donen.
De certa forma, o filme é um hino de amor à América Profunda, que regurgita todos os clichês e fetiches do imaginário da classe média americana (o high school, o baile de formatura, o basquete, a paixão por carrões – o filme tem até o personagem de um gentil ogro barbudo que trabalha no ferro-velho). O “estrangeiro” Billy Wilder fez grandes filmes usando com poesia os códigos da cultura de massas (como “Sabrina” e “Irma La Douce”, que brincam com a visão ingênua e estereotipada que os americanos têm Paris). A comparação pode ser exagerada, já que “High School” está longe de possuir esse tipo de distanciamento irônico e refinamento intelectual. Mas não há dúvida que essa apropriação assumida do imaginário popular (com tudo que ele tem de pior, vamos admitir) traz uma força criadora e uma sinceridade estética impossíveis de encontrar num filme de estudante de cinema pretensioso como o do Honoré.
Agora, é uma pena que o filme prefira se concentrar no romance chatinho do casal protagonista, que por sinal rende os piores números musicais. Os dois são sonsos: a mocinha tem um sorriso bonito, mas canta pelo nariz. Já o mocinho é fraco, muito fraco, e dança como um troglodida, sempre querendo forçar uma virilidade que, vamos ser sinceros, não possui ao natural. Em vez disso, poderiam ter dado mais espaço para Ryan e Sharpay, os dois gêmeos que realmente salvam o filme.
Sharpay, a garota arrivista, sabe ser uma vilã caricata na medida certa, e tem ótima presença. Já Ryan, que faz o coreografo do grupo (sim, sim, o longa é cheio de tipos bem delimitados) é sensacional. Além do timing cômico perfeito, tem uma certa distância irônica, misturada com uma energia totalmente inata (não há como não sentir que ele realmente se diverte em cena). Às vezes, parece uma fusão estranha entre Jim Carrey (pelas caretas) e Dean Martin (pela ironia e domínio de si). Enfim, enquanto os outros atores não conseguem esconder que são crias de laboratório, esse aí mostra um talento natural, de quem realmente nasceu pra coisa.
Selecionei no Youtube o que é pra mim o melhor número musical de todos, justamente com a dupla de atores que mencionei logo acima (notem o gênio cômico do garotão) .
PS: a cena original só vai até os 40 segundos. Depois disso, vira um clipe tosco:
Sivuca no Ascensor
October 19, 2008
Sou fiel a “L’ ascenseur pour le jazz”, programa de rádio da France Inter, que passa todo domigo à noite. Sempre que posso, escuto online. Esse domingo, ótima surpresa: o programa recebeu Richard Galliano, o gênio do acordeon. Com aquele sotaque do sul (ele é de Nice), falou com emoção das parcerias, dos concertos no mundo inteiro, os grandes encontros que a música proporciona, e dos amigos que perdeu (Nougaro, por exemplo). Certo momento, pediu pra tocar Sivuca, outro gênio do instrumento. O apresentador tocou “Tico tico” (no fubá), de um álbum de 1961 (“Samba nouvelle vague”), gravado em Paris em 1961. Galliano, que já tocou na França com Hermeto Paschoal – clone de Sivuca – em um show histórico que eu tive a emoção de conferir em 1994, disse que ouviu muito esse disco durante sua adolescência…
O programa continuou com ótimas raridades, como “Swing 42″ (Django Reinhardt et le Quintette du HOT CLUB DE FRANCE), “Tarzan” (Johnny “Guitar” Watson) e uma pérola dos anos 60, “Groovy gravy”, tirada do do incrível álbum “The original jam sessions 1969″, uma co-produção Quincy Jones e Bill Cosby, além de coisas menos raras, mas maravilhosas, como o último disco do Chick Corea, em que ele apresenta duetos com a pianista japonesa Hiromi Uehara.
Aproveitem enquanto o programa ainda está nos arquivos da rádio e escutem aqui:
http://www.radiofrance.fr/franceinter/em/ascenseurpourlejazz/
Canções de amor
October 19, 2008
Entrevistei Clotilde Hesme, a atriz de “Amantes constantes” e “Canções de amor” (que estreou sexta passada) quando ela veio ao Rio para o Panorama Francês. Conheço muita gente que se derrete por ela, por aquele olhar meio autista que faz para a câmera. Enfim, é uma garota bem alta, magrona, com uma pele extremamente branca e marcada por cicatrizes. O cabelo moreno parece um pouco uma peruca. Tem o mesmo ar de enfado que seu amigo Louis Garrel (de quem foi colega na escola de artes dramáticas) e só armou o olhar característico (realmente bonito, com seus grandes e lacrimejantes olhos azuis) quando a fotógrafa apontou a máquina para ela.
Durante a entrevista, Clotilde ficou irritada quando mencionei as referências à Nouvelle Vague em “Canções de amor” (trata-se, segundo ela, de uma obra original, que não deve nada ao movimento). Também posou de atriz fiel ao cinema alternativo (que eu chamei de “cinema de autor” e ela de “cinema de arte”), esquecendo-se da natureza essencialmente pop de “Canções…” – o filme, aliás, é um sucesso comercial em seu país.
A pose de Clotilde transmite o que é o filme. Tem uma afetação irritante ali, que me impede de sentir o sopro de vida que existe nos melhores musicais, sejam eles da Nouvelle Vague (Demy) ou não. É verdade que o Christophe Honoré filma muito bem o cinza de Paris, com uma sobriedade lo-fi, quase documental; mas tudo é bonitinho demais, programado demais. As vozes monocórdicas são a sintese da juventude da Bastille e Strasbourg Saint-Denis (os bairros do filme), e também a síntese de Louis Garrel, com sua eterna pose de playboy do quartier latin. O diretor faz tanta força para fazer um espetáculo sensual e gracioso, que deixa tudo pasteurizado demais.
Também não gosto das canções, com exceção de uma ou outra. Talvez o melhor número musical do longa seja “La distance”:
Integração
October 19, 2008
Eu que caminho e que sou mortal, eu vos contemplo, ó estrelas. Mesmo insignificante, eu me associo a essa imensidão.
Eu bebo, em vos contemplando, minha parte de eternidade.
Ptolomeu (Almagesto)
Crack
October 17, 2008
Dormi ontem à noite ouvindo Sigur Rós, a banda islandesa. Coincidência, cai hoje nessa matéria do Libération sobre o país destruído pela crise. Nossos jornais e tevês mandam com toda urgência um repórter para cobrir qualquer amistoso vagabundo da Seleção no Afeganistão ou nas Ilhas Cook, mas não se dispõem a enviar sequer um mísero correspondente para a Islândia. Uma das economias mais ricas do mundo quebrou, e conferir o que aconteceu lá pode ser essencial para entender a crise. Mas, obviamente, nossa imprensa não está nem ai.
Mais: os personagens incríveis que dá para encontrar lá! A bolsa caiu 76 por cento, em um estalar de dedos… Tudo que parecia firme desmoronou. Que cenário é esse? O que pensam os 300 mil habitantes da ilha? Um presidente de banco falando que é o bing bang, e que o “mercado financeiro nunca mais será o mesmo”; um pai de família sabendo que a outrora forte moeda do seu país não vale mais nada, e que o nível de vida terá que baixar; o governo decidindo se o país deve ou não pegar um empréstimo com o FMI…
É a matéria que algum jornal brasileiro deveria fazer, e que o Libération fez. E que, graças ao mundo mágico da internet, vocês podem ler aqui.
Cordilheira
October 14, 2008
Cordilheira , de Daniel Galera, é o primeiro romance da série Amores Expressos. Foi difícil conversar com o autor – nada a ver com o fato dele estar isolado em Garopaba, uma praia que quem é do sul, como eu, conhece, e sabe que não é o fim do mundo como algumas pessoas aqui no Rio pensam. No fim das contas – hélas – nem pude usar a entrevista como pretendia. Por circunstâncias – coisas de jornal – passou de capa para um pequena tripa do Caderno B desse sábado.
Vou aproveitar o espaço aqui pra publicar a matéria na íntegra. Bom, é jornal, né, e vocês entendem que fui obrigatório falar sobre a polêmica do projeto do Expressos na abertura, muito mais do que do livro. Mas passando isso vira só literatura. Também acabei deixando de fora nossa conversa sobre a “cena literária de Garopaba” que afinal, segundo Galera, existe sim. Um dia passo lá pra verificar.
Aí vai:
Depois de 160 mil quilômetros percorridos e muita polêmica, o projeto Amores Expressos, que enviou escritores brasileiros da nova geração para as principais metrópoles do mundo, enfim ganha corpo nas livrarias. Coube ao paulistano Daniel Galera a tarefa de lançar o primeiro romance da série, Cordilheira, situado em Buenos Aires. Duas novas histórias contadas por Adriana Lisboa (Paris) e André de Leones (São Paulo) devem ser publicadas até o fim do ano.
Lançado em 2007, o Amores Expressos buscou inicialmente recursos públicos, via Lei Rouanet. A iniciativa gerou críticas nos círculos literários, fazendo com que seu idealizador, o produtor Rodrigo Teixeira, desistisse dos incentivos fiscais. O custo (R$ 1,2 milhão) foi totalmente financiado por recursos privados. Mesmo assim, Galera sabe que seu livro pode servir de vidraça para os inimigos do projeto.
– Sei que, por ser o primeiro da série, meu livro pode concentrar as críticas e virar boi de piranha – admite o escritor. – É inevitável que pessoas que não foram com a cara desse projeto desde o início julguem o livro a partir disso. Mas será uma pena se ele for avaliado por questões extra-literárias.
Gostaria que falassem bem ou mal do livro, não do projeto. Minha publicação não diz nada sobre os próximos lançamentos do projeto. Não é uma introdução à obra de ninguém.
Galera entende que a polêmica em torno do uso da Lei Rouanet possa levantar críticas. Mas acredita que, depois do projeto deixar os recursos públicos de lado, não há por que tirar o foco das questões puramente artísticas.
– Quando se começa a falar de literatura sem falar em literatura sempre sinto uma espécie de enfado – lamenta. – Acho que esse tipo de assunto é uma distração, algo desnecessário.
Falemos de literatura, então. Quarto livro do escritor, Cordilheira conta a história de Anita, uma jovem autora frustrada com seu relacionamento. O namorado, Danilo, não quer lhe dar o filho que ela deseja. A jovem decide então deixar bruscamente São Paulo rumo à capital argentina, onde se envolve com Holden, um misterioso escritor. Apesar das mudanças geográficas, o livro traz os mesmos conflitos de seus romances anteriores, como Até o dia em que o cão morreu e Mãos de cavalo – obras que abordam a falta de perspectiva da juventude contemporânea e a dificuldade de criar laços afetivos nas novas ordens familiares.
– Quando surgiu o projeto, tive que transportar a idéia do romance para a Buenos Aires – explica Galera. – Acho a trama combinou muito bem com a cidade. Acrescentou um cenário que eu não imaginava, deixando o livro bastante diferente. Mas Buenos Aires não determina o essencial da narrativa. Essa é, basicamente, uma história que poderia se passar em qualquer metrópole.
O livro é narrado na primeira pessoa, pelo olhar da protagonista. Escrever numa voz feminina não é novidade na carreira do escritor (já havia se arriscado em alguns contos e no final de Até o dia em que o cão morreu).
– Queria mostrar, do ponto de vista de uma mulher, dilemas como a realização profissional e a vontade de ser mãe. A maternidade é um desejo que se impõe, mas vejo mulheres adiando sempre esse projeto. Queria que isso transparecesse no personagem e então criei essa anti-heroína. É uma personagem deslocada, que vai obsessivamente contra uma tendência de comportamento. Ela quer muito ter um filho, mas a ironia é que os à sua volta desdenham seu desejo.
Galera passou a maior parte do tempo “vivendo” a cidade portenha. Sem se envolver com os círculos literários locais, não escreveu sequer uma só linha – apenas anotava o que via ao redor. Foi só na volta, em São Paulo, que começou a escrever de fato o romance.
– Não queria ficar na cidade com a pressão de escrever um livro – conta. – Relaxei e deixei a cidade se revelar para mim
Morando atualmente em Garopaba, cidade do litoral catarinense, onde finaliza seu próximo livro, o escritor se afastou das grandes metrópoles.
– Para mim, era uma fantasia morar numa cidade pequena com praia – revela. – Passo os dias nadando no mar. É maravilhoso essa possibilidade de ficar o dia inteiro lendo numa praia vazia, sem ser incomodado por ninguém.
Chores chinês
October 14, 2008
Animal Collective dia 8 de novembro, em São Paulo. Estou contando os dias. Enquanto isso, um clipe maneiro de “Chores” ilustrado por trechos de “A chinesa”, um dos filmes mais bonitos do God-Art.
Noite
October 11, 2008

Ne m’importune plus, laisse-moi soupirer.
Je cherche le silence et la nuit pour pleurer.
(Corneille, Le Cid – Acte III, Scène IV)
(Foto Jean-Sebastien Chauvin, Inquiétude)
Astrée
October 9, 2008
Alguém já comparou Éric Rohmer a um daqueles professores muito sérios, que, sempre que podem, olham embaixo da saia de suas estudantes. Nesse sábado, o Festival do Rio exibiu seu último filme, “Les amours d’ Astrée et de Céladon”, adaptação de um clássico da literatura francesa do século XVII, “L’Astrée”. Justiça seja feita: quanto mais o “professor” Rohmer envelhece, mais tarado ele fica. O filme tem a sua cara: é erudito e libidinoso. Aos 88 anos, Rohmer desencava uma história gaulesa, escrita por um romancista da corte do Rei Henrique IV, e nela encontra toda espécie de inversões sexuais e outros travestismos dignos das melhores comédias shakespearianas, exibindo maravilhosas imagens eróticas (lindos e intensos planos de coxas femininas, seios graciosamente desnudados, corpos abraçados entre a inocência e a malícia…)
A Gália de Rohmer é mítica, repleta de imprecisões históricas. O livro de Honoré d’Urfé é considerado o primeiro “roman-fleuve” da literatura francesa, ou seja, romance-rio, longo e constante como uma corrente. Composto entre 1607 e 1627, mostra a imagem que os franceses do século XVII tinham de seus antepassados. Rohmer, portanto, recupera uma visão medieval da Gália (até um castelo aparece por lá), e esse é justamente o maior charme de seu filme. Tudo aqui é deslocado: as roupas, a idealização pastoral, os próprios travestimos (um homem enorme e másculo vestido de mulher)… Estamos muito longe do ditatismo acadêmico das sagas históricas, das super-produções culturais que o cinema francês vem nos acostumando.
Foi bom ver o público carioca recusar o silêncio respeituoso da “Missa Cultural” (tão comum em sessões de adaptações literárias). Ouvi todas as risadas que o engraçadíssimo filme merece – embora espere que estivessem rindo com o filme, e não do filme.
Vale ressaltar um fato: 2007 (o filme estreou ano passado na França) foi o ano dos velhinhos da Nouvelle Vague. Enquanto outros cineastas insistiram no naturalismo comportado, a tríade formada pelos veteranos Chabrol-Resnais-Rohmer – todos com mais de 80 anos – lançaram três filmes ousadíssimos, mandando o bom gosto vigente para o espaço. Peguem o “Coeurs” (“Medos privados em lugares públicos”) do Resnais, o “Garota dividida em dois” do Chabrol e esse mesmo “Astrée” e vocês verão novos parâmetros na direção de atores.
Em comum, todos desconstroem as bases firmes do naturalismo, com uma teatralidade mais do que assumida. Chabrol aposta na falsidade over, para com o artifício denunciar o artifício. Resnais transita entre o alto teatro e a soap opera barata, entre o sublime e o grotesco, e confunde a todos redimensionando o que é o bom e o ruim na direção de atores. Já Rohmer dá à tragédia clássica uma malícia infantil, nunca vista antes.
Longa vida aos velhinhos!
Apóstolos (by Dahmer)
October 9, 2008
APÓSTOLOS:
“bota vinho na roda, jesus. nunca te pediremos mais nada..”
JESUS:
“três anforas de romaee-conti. mas quero todo mundo voltando pra casa de taxi, hein?”
APÓSTOLOS:
“aleluia, jesus, aleluia!”
Abrindo o baú
October 6, 2008

Especialista em Kafka, o escritor, professor e arqueólogo James Hawes acaba de lançar na Inglaterra o livro Excavating Kafka, que revê o mito que transformou o escritor tcheco numa figura depressiva, pudica e desprezada por seus contemporâneos. Para o autor, Kafka não seria nada disso, pelo contrário: era boêmio, mulherengo e reconhecido em vida (além de consumidor de pornografia, como comprova um baú repleto de sacanagem encontrado por acaso pelo próprio Hawes). O livro causou polêmica, mas a verdade é que quase o mundo inteiro já sabia disso. Depois de entrevistar Hawes, liguei imediatamente para Modesto Carone, tradutor de Kafka no Brasil, que sempre defendeu a mesma tese, para lhe contar as “novidades”. Carone esculachou o livro de Hawes. Chegou a chamá-lo de sensacionalista. Basicamente, acusou o livro de usar elementos chamativos – como o já referido baú – para se promover em cima de fatos já conhecidos (Carone cita o diário de Kafka, por exemplo: quem o leu com a devida atenção, já sabia, muito antes do baú, que o escritor tinha grande interesse por pornografia chinesa).
Mas Carone não leu o livro de Hawes. Nem eu, para falar a verdade. Nosso diálogo foi curioso, absurdo, meio kafkiano até. Por telefone (ele tinha acabado de sair do banho), tratou de destruir o livro que não leu. Do outro lado da linha, me esforcei para defender o livro que também não li. Minha defesa se sustenta nas palavras que Hawes me disse na entrevista: o livro não é para polemizar em cima de dados já conhecidos, e sim para se perguntar por que ninguém falava com clareza sobre questões já públicas. Abaixo, reproduzo a matéria que fiz para o Jornal do Brasil:
O Baú pornô de Kafka
Por Bolívar Torres
Quando se fala em Franz Kafka, o autor tcheco que se tornou símbolo da angústia moderna, logo vem à mente o sujeito pálido, melancólico, olhando tristemente para a câmera nas velhas fotos em preto-e-branco que lhe sobreviveram. Desde sua morte, em 1924, a posteridade tratou de moldar no imaginário coletivo as características básicas do mito kafkiano: solitário, atormentado, puritano e alheio à glória literária. Afinal, só um escritor com esse perfil poderia imaginar obras como A metamorfose e O processo. Disseminados durante décadas pelos estudiosos, os estereótipos, no entanto, estariam longe de corresponder à realidade. É ao menos o que tenta provar o livro Excavating Kafka, do professor, escritor e arqueólogo inglês James Hawes. Lançada este mês na Inglaterra, a obra vem causando polêmica por retratar um Kafka alegre, boêmio, extremamente sociável e, ainda por cima, consumidor de pornografia.
– A mitologia romântica criou a idéia de que o grande artista sempre deve ser o desconhecido, o pobre, o infeliz, aquele que encontra inspiração apenas em seu coração, em oposição cultural ao seu tempo – afirma Hawes, em entrevista ao Jornal do Brasil. – O “K-myth”, como eu chamo a mitologia kafkiana, corresponde em cada detalhe a essas características. Mas não tem relação alguma com a verdadeira vida de Kafka.
Ex-professor de alemão na Universidade de Swansea e autor de cinco romances ainda não publicados no Brasil, Hawes estuda Kafka há mais de 10 anos. Durante esse tempo, juntou indícios suficientes para quebrar a imagem carregada por Kafka de Nostradamus solitário da Europa. Para começar, o autor tcheco não teria sido um frustrado funcionário público sem tempo para escrever.
Vivendo com os pais (uma família judia abastada), tinha um trabalho tranqüilo: o expediente durava não mais do que seis horas por dia, o que lhe deixava tempo de sobra para dedicar-se à literatura. Hawes também afirma que Kafka não era um escritor obscuro em seu tempo. Chegou a ganhar um prêmio literário antes de completar 30 anos, além de publicar alguns artigos no Diário de Praga, em 1918.
Outras mentiras, de acordo com Hawes, envolvem os problemas românticos de Kafka e à sua atitude, digamos, comportada em relação ao sexo. Longe do sacrossanto assexuado que alguns apresentam, teria sido um ávido freqüentador de bares e prostitutas em Praga. Aliás, o livro do professor britânico revela, pela primeira vez, um achado recente: o baú pornô de Kafka.
Trata-se de uma coleção de revistas eróticas das quais o autor era assinante. Descobertas pelo próprio Hawes entre a British Library de Londres e o Bodleian de Oxford, exibem desenhos explícitos de animais praticando felação, lésbicas trocando carícias e outras imagens proibidas para menores.
– Quando comecei esse trabalho, não fazia idéia da existência dessas revistas – ressalta Hawes. – Mas o mais importante é que todos esses dados, as prostitutas, o êxito crítico contemporâneo e até mesmo a pornografia, já eram conhecidos pelos estudiosos. Só que ninguém falava disso com clareza.
Acusações de anti-semitismo
Para Hawes, a sacralização de Kafka foi construída progressivamente por diversos agentes, para quem o escritor deveria soar mais como um “horrendo e enfastiante sub-Sartre”, e não como o criador de comédias negras sobre a sociedade – muito próximas dos contos de Dostoievski – que sempre foi. Ironicamente, o autor acaba batendo forte no meio acadêmico, pelo qual sempre circulou, tanto como pesquisador quanto como professor.
– O primeiro a tentar construir essa falsa imagem de Kafka foi seu grande amigo e editor Max Brod – denuncia. – Mais tarde, foi a vez dos críticos alemães: depois da Segunda Guerra Mundial, era necessário descobrir um escritor de língua alemã livre de todas sombras da história moderna daquele país. Esses críticos não queriam saber que Kafka era filho de família rica, bem conhecido entre seus colegas artísticos e alto e leal funcionário do Estado Habsburgo até o fim! Afinal, quem se importava com isso?
Em sua profanação ao “K-myth”, Hawes chega a questionar a própria consciência judia do artista: Kafka, o visionário que, fechado em seu quarto, profetizou o Holocausto, seria um produto da cultura alemã, com a qual se fundia com perfeição. A idéia estraga a velha teoria fundada em torno da inadequação cultural, literária e social de Kafka, o que garantiu uma acusação de anti-semitismo. Acadêmicos alemães também atacaram Hawes, reclamando do sensacionalismo de sua tese.
– Essa idiotice sobre anti-semitismo foi dita por apenas uma jornalista americana que vive em Berlim. O jornal alemão onde foi publicada essa mentira, Der Spiegel, chegou a se desculpar e mudar seu website. Quanto ao resto… Bom, como eu disse no livro, o retrato quase santo de Kafka é como um tesouro de igreja: proibido de tocar, é preciso crer!
(Publicado no Caderno B, Jornal do Brasil, em 28 de agosto de 2008)
Civilização
October 3, 2008

Pessoas me deram imenso prazer, em vários sentidos, mas concordo com Proust que relações humanas são essencialmente fraudulentas. Sempre se quer dos outros aquilo que não podem dar, e eles reciprocam, cobrando também de nós o intangível. Bom humor, civilização, o que chamamos de civilização, ou seja, que a vida é um compromisso, que temos de equilibrar o que queremos com o que cedemos, é o caminho para a sobrevivência tolerável.
Paulo Francis (Trinta anos essa noite)
Na redação – II
October 2, 2008

Two boys, 1971 © Jeffrey Silverthorne / VU’
Na redação, TV ficou ligada essa tarde, mais uma vez. Não sei qual canal. Enquanto fechava matéria, fiquei vendo um programa de calouros, paródia do American idol: em vez aspirante a cantores, era só gente bizarra, com curiosidades físicas, tipo muito gordas, com cara esquisita, baixos demais (tinha um anão vestido de metaleiro, eu acho) e outras aberrações. Entre os jurados, Tom Cavalcante, Tiririca, Mendigo do Pânico e Alexandre Frota. Que classe!
Enfim, não deu pra ouvir direito, por causa do trabalho, mas pude perceber que o objetivo era tirar sarro dos calouros. Algumas pessoas ficam chocadas com esse tipo de coisa. Por repulsa aos “freaks”. Outras, pela falta de respeito do programa aos “freaks”.
Eu não sei. É uma questão muito complicada. Vamos pegar os filmes do irmãos Farrely, por exemplo. Há quem ache degradante a maneira como fazem piada com deficientes. Mas essas pessoas não percebem o carinho com que os Farrely tratam esses mesmos “freaks”, a dignidade que dão a eles ao mostrá-los como qualquer outra pessoa, isso é, humana, imperfeita, cheia de defeitos. OK, deixo escapar um lugar-comum, agora: somos todos “freaks”. É piegas, mas é verdade. E é o que os filmes dos irmãos Farrely dizem.
Mais do que isso: os Farrely MOSTRAM os deficientes, as aberrações, enquanto a grande maioria da midia e do mundo cultural tenta escondê-la. E mostram naturalmente, sem censuras, sem edulcorações. E por que mostram com tanta insistência, ás vezes gratuitamente, até? “Por que os outros não mostram o sufiente”, respondem. O sensacionalismo se justifica. Peguem O amor é cego, a cena das crianças queimadas no hospital: é uma das cenas mais importantes da história do cinema recente. Um plano subjetivo, filmado como ponto de vista. É direto, frontal: as crianças olham de frente para a cãmera, para o espectador. “Olhem pra gente”, elas dizem.
Mas e os “freaks” do Tom Cavalcanti? Não sei. Realmente, não sei. São os marginalizados da TV, os excluídos do nojento mundo higienizado das novelas, das famílias-modelos iluminadas dos comerciais de margarina, dos sorrisos perfeitos das pastas de dente… Finalmente, aparecem em algum lugar, num concurso de aberrações. É triste? Sim, mas também pode ser engraçado, bonito, comovente. Quem sabe.
Daqui a pouco eu vou dormir. Não quero pensar nisso.
Eros frenético
October 1, 2008
Poeta radical e revolucionária, Luiza Neto Jorge (1939-1989) passou como um cometa pela literatura portuguesa do século 20. Com uma obra curta e intensa, sua presença deixou marcas profundas, que podem ser vistas até hoje nas novas gerações de escritores de seu país e da Europa. O lançamento da coletânea 19 recantos e outros poemas (7Letras) revela ao público brasileiro um apanhado da obra da escritora que, apesar de ainda pouco conhecida, foi figura destacada da geração Poesia 61 – o famoso grupo de poetas que mudou a literatura portuguesa nos anos 60. A publicação traz em versão integral a obra 19 recantos, publicada originalmente em 1969, além de uma seleção de poemas das demais cinco obras de Luiza.
– O critério da seleção foi oferecer uma coletânea inteligente dessa poeta extraordinária – diz o organizador, Jorge Fernandes da Silveira, lembrando que, no Brasil, Luiza só tivera, até então, poemas publicados em antologias. – Publicá-la é um ato de justiça.
19 recantos é uma releitura da obra Os Lusíadas, de Camões. Seus 19 cantos dialogam com os 10 cantos do épico do século 16, criando interlocuções entre a poesia clássica e a moderna. Como digna representante do Poesia 61 – que pretendia rever as tradições da literatura portuguesa buscando um novo trabalho de identificação – Luiza tenta dar outra dimensão à gênese da poesia de seu país, acrescentando um olhar feminino à tradicional e arbitrária maneira masculina de escrever a História.
– Luiza falava sobre a condição feminina sem uma dicção feminista, pois não excluía o masculino – observa Silveira. – Tinha consciência de seu corpo e fez dele um objeto cantado, com um surpreendente e desassombrado erotismo. Não há, ao meu ver, poesia de língua portuguesa mais erótica do que a dela no século 20.
A artista lançou seu primeiro livro, Noite vertebrada, em 1961, durante o governo de Salazar – um período de intensa repressão e isolacionismo. Numa linguagem seca, despida de sobras, fez uso de elipses e combinações rítmicas próprias. Ao misturar, com sutileza, êxtase e fragilidade, sua poesia alcançou o que alguns críticos definem como “eros frenético”. Um exemplo pode ser visto nesses versos de O poema, em que a autora faz um trocadilho com o órgão sexual masculino e uma alusão sugestiva ao ato da felação: “Falo/com uma agulha de sangue/a coser-me todo o corpo/à garganta”.
Luiza teve uma obra escassa. Mesmo com poucos livros, deixou poemas que são referência no âmbito da sensualidade poética e do sarcasmo em relação às convenções sexuais. Nos últimos 16 anos de vida, deixou de publicar, dedicando-se apenas à tradução. Morando em Paris, traduziu desde poetas clássicos, como Jean Racine, a escritores modernos, como Céline. O suposto mistério sobre sua retirada da produção literária virou razão de culto para alguns admiradores, mas o real motivo é menos romântico.
– Luiza parou de escrever por questões econômicas – admite Silveira. – Não há nada de romântico em sua decisão. Ela simplesmente ganhava mais dinheiro traduzindo.
(Reportagem: Bolívar Torres. Publicado no Jornal do Brasil – 23/4/08)
DOIS POEMAS
POEMA QUASE EPITÁFIO
Violentamente só
desfeito em louco
- nem um gato lunar
te arranha um pouco
Morreram-te na família
irmãos mais velhos
Restam retratos de vidro
e espelhos
Entre as fêmeas bendita
não te quis
As outras mataste
(nem há sangue que te baste)
O chão do teu país
deu-te água e uma raiz
muitas pedras mas prisões
- Senhor demónio dos sós
Quando ele morrer
onde o pões?
ANOS QUARENTA, OS MEUS
De eléctrico andava a correr meio mundo
subia a colina ao castelo-fantasma
onde um pavao alto me aflorava muito
em sonhos à noite. E sofria de asma
alma e ar reféns dentro do pulmao
( como um chimpanzé que à boca da jaula
respirava ainda pela estendida mao ).
Salazar tres vezes, no eco da aula.
As verdiças tranças prontas a espigar
escondiam na auréola os mais duros ganchos.
E o meu coito quando jogava a apanhar
era nesse tronco do jardim dos anjos
que hoje inda esbraceja numa árvore passiva.
Níqueis e organdis, espelhos e torpedos
acabou a guerra meu pai grita “Viva”.
Deflagram no rio golfinhos brinquedos.
Já bate no cais das colunas uma
onda ultramarina onde singra um barco
pra cacilhas e, no céu que ressuma
névoas águas mil, um fictício arco-
-irís como é, no seu cor-a-cor,
uma dor que ao pé doutra se indefine.
No cinema lis luz o projector
e o FIM através do tempo retine.