Sábado

Gripado. Cansado. Mais um dia de festival. Eterno, eterno em nessa brasila, onde nosso amigo Cabeção pegou sapinho. Sapinho de tanto beijar (Sapinhôooo!). Desculpa a estranheza. Dizendo bobagens. Quebrando tudo. Mas com muito respeito. Tempo seco demais… Documentários demais… Arquitetura moderna… Isso não faz bem pra cachola. 

Acordo e vejo essa coisa plana pela janela, quilômetros e quilômetros parecendo um imenso pasto, recheado de arranha-céus. Onde estão os bois? Ruminando nos gabinetes do congresso. Eterna em mente. Eternamente. Eterna mente a mesma brasila.

Sempre, sempre: tempo seco, filmes ruins, arquitetura moderna. Três dias aqui e já virei poeta concreto. Então foi isso que aconteceu com o Cabeção…

E os filmes ruins. Muito ruins? Talvez exagere. Sábado à noite lá estou eu, no Cine Brasila (desculpa, Cine Brasília), a mesma fórmula: dois curtas e um longa. Sentado na minha poltroninha. Concentrado. Tentando pegar algum gancho para a matéria de amanhã.

Dormindo.

Acordando de novo.

Estou na cadeira dos surdos. O quê? Não estou ouvindo… Os surdos. Tem uma fila reservada pra eles. Bem no setor da imprensa. Como sempre cheguei atrasado, todos os lugares estavam ocupados. Apenas um vago, na fila dos surdos. Ganho a aprovação de uma garota surda, muito bonita, e herdo o lugar do surdo ausente. Fico amigo da garota, e “conversamos” um pouco antes da sessão.

Começa o primeiro curta. Mais um de Brasila (ops, Brasília). ”Ana Beatriz”. Parece comercial do Master Card. Ou de crédito bancário. “Assim fulano e cicrana se conheceram…” Conseguiram um ótimo crédito e foram felizes para sempre. É um spot televisivo de 15 minutos.

Rápido, o curta seguinte! E que seja curto. Bom, vinte minutos. Dura vinte minutos o ”Minami em close-up”. É divertido. É sobre a Boca do Lixo. Adoro a Boca do Lixo. Desde que não precise ver os filmes da época. Mas cenas esparsas, com a história do movimento resumidinha, ah: isso é agradável. O filme tem ótimas entrevistas.

“Muitas prostitutas viraram atrizes. E muitas atrizes, prostituas”, diz o cineasta. E Helena Ramos: “Atriz você é ou não é… Não é Shakespeare que diz… To be ou not to be?”

Começa então o longa: “Eu Guarani”. Mais um doc. É sobre índios. Índios tentando sobreviver a ameaça do homem branco. Percorremos vários Estados do Brasil. Percorremos o Paraguai, a Argentina. Em busca de aldeias guarani. Depoimentos. Depoimentos. Depoimentos. Caciques, antropólogos… É uma grande reportagem. Cadê o Sérgio Chapelin?

No final, aplausos entusiamados. Ovações. Toca música guarani nos créditos, platéia acompanha o ritmo, com palmas. Se você não quer receber vaia, aprenda a receita: faça documentário político e traga alguma liderança. Dois caciques estavam lá, e antes do fime foram apresentados no palco pelo diretor. Agora me diga: quem, quem, quem em são consciência, vaiaria?

Sexta

Nessa cidade horrível tudo é longe. Precisa de carro para tudo. Mas o bom o Festival é que todos, jornalistas, cineastas e atores, ficam no mesmo hotel. É muito fácil conseguir entrevista. E a organização disponibiliza van, a cada quinze minutos, até o Cine Brasília.

Desfeita a polêmica do ticket refeição, certamente a discusão mais importante do Festival: é 40 reais no hotel, e 30 nos restaurantes do cinema. Ufa! Numa carona na van, Murilo Salles explicou algumas manhas para fazer o ticket render mais: se você janta pouco, não gaste o ticket no restaurante do hotel. Acumule custos de serviço de quarto, e no final pague a conta com o ticket. Assim sobra mais para a cerveja. É impressionante como se aprendem coisas importantes nos festivais.

Na noite de sexta, o público teve seu momento de penitência. Antes de “Siri-Ará”, o filme mai chato do festival, passaram dois curtas nada empolgantes: “Brasília”, de J.Procópio, está na pior linha do exercício metalingüístico engraçadinho. E “Arquitura do corpo”, de Marcos Pimentel é, vá lá, fofinho, mas meu Deus como dá sono. É praticamente uma video-arte sobre a dança, muito bemfilmado e sonorizado. Foi aplaudido, e com justiça. Mas, sinceramente, eu preferia ver algum enlatado americano na TV do quarto.

Com muito atraso, chegou a vez de “Siri-Ará”. Metade da platéia dormiu. Outra metade deixou a sala. Mesmo assim, recebeu aplausos calorosos no final. Há uma coisa muito irritante na psiquê dos festivais: o compromisso com a brasilidade. Ainda não superamos o CPC. Ainda não superamos Ariano Suassuna. Qualquer coisa folclórica sobre a cultura nordestina merece a reverência incondicional do público. Mesmo daqueles que dormiram.

Rosemberg Cariry, o diretor, é realmente uma pessoa muito culta. Digo isso sem nenhum sarcasmo. Ouvi-o no debate, depois conversamos na van. Fala muita coisa interessante, e tem uma visão ampla da arte: pra ser sincero, é injusto compará-lo com Suassuna, como (covardemente) fiz algumas linhas acima. Sua visão da cultura popular não é xenófoba, reducionista ou demagógica. Mas não creio que suas grandes idéias rendam bons filmes. 

O longa é uma “ópera épica”. Só tem alegoria. Os personagens são arquétipos e recitam como no teatro de versos. Há milhares de referências – desde o filósofo romeno Cioran até Cervantes, Camões, Glauber e Aristóteles. Fica pesado demais, carregado excessivamente de símbolos e artifícios poéticos. Todos eles óbvios demais, na minha opinião (no melhor estilo: elefante de signos, formiga de significados).

Depois da sessão, voltando para o hotel na van, o motorista botou um DVD de um terror americano dublado com Jessica Alba. Inebriados pelo espetáculo cultural de “Siri-Ará”, os passageiros se revoltaram com a escolha cinematográfica do motorista. “Tira isso pelo amor de Deus”, ouvi alguém falar. Outra passageira ainda disse, com muito ranço: ”Depois de tanta cultura, temos que ver algo desse nível…”

Lá fora, a cidade deserta. No escuro vazio, os muros pareciam pichados por fantasmas. Cruzando no conforto da van as ruas assustadoras de Brasília, aproveitei para dar mais uma cochilada.  A segunda da noite, é claro.

Quinta-feira

Cheguei na capital federal às 17h30. Vale aqui um registro: vôo do Rio atrasou 40 minutos, cheguei para fazer a conexão em São Paulo em cima da hora. Sai do avião já ouvindo meu nome anunciado no alto-falante: “Atenção passageiro Bolivar (eles sempre falam bolivar, sem acento no “i“), última chamada para o vôo para Brasília”. Fiz rapidamente o check-in, mas me informaram o portão errado. O tempo de descobrir o engano e chegar até o embarque, já haviam fechado o portão. Reclamei com uma das funcionários da Gol, que me respondeu de forma rude e grosseira que, apesar do atraso do vôo, outros passageiros da minha conexão conseguiram embarcar. Mas, peraí: foram cinco minutos entre meu desembarque em São Paulo e o fechamento do portão. Esse não é um prazo razoável. Se eu erro um portão (ou sou mal informado, como aconteceu) perco a conexão… E se eu fosse uma velhinha com dificuldade de locomoção, ou um deficiente  físico? Nunca chegaria a tempo. Sabendo que o vôo vindo do Rio estava atrasado (por culpa deles, ainda por cima) o mínimo que podiam fazer era segurar mais um pouco antes de fechar o embarque.

Mas, enfim, esse é o tato e sensibilidade da Gol, que não faz a menor questão de respeitar seus clientes. Fica aqui o registro.

Chegando em Brasília, jovens funcionárias do festival me esperam. A van me leva até o hotel Nacional. Vamos passeando por essa cidade maluca. Longas retas, ruas arborizadas – mas sempre aquela impressão de floresta artificial, sei lá, um cenário de cidade cenográfica. Sabe aquele joguinho Simcity. Pois é, parece uma daquelas cidades…

Ao longe, vejo as torres do Congresso, e a fila de prédios esquisitos. Nunca entendi nada de arquitetura, mas sei do que gosto e do que não gosto.  E isso, realmente, eu não gosto. Simplesmente não funciona. 

Chegando no hotel descubro que vou precisar dividir o quarto. Péssima notícia. Mas pelo jeito meu “roomate” não sabia.  Não se deram o trabalho de avisá-lo. Então vocês imaginem a cena estranha: eu abrindo a porta, e o sujeito na cama, sem camisa, me olhando sem entender. Obrigado hotel Nacional!

Desfeito o mal-entendido, tomo um banho e desço para me credenciar. E olhem que genial: está tudo fechado. Pelo jeito, a organização do Festival segue os princípios dos admiráveis políticos e funcionários públicos daqui. 18 horas e todo mundo vai pra casa. Resultado: preciso me virar sem ticket refeição e muito menos acesso aos filmes. A não ser que eu pague ingresso. Mas ah, me lembrei: acabaram os ingressos. Hmmmm….

Converso com alguns críticos. Cheguei com dois dias de atraso, então tento me ambientar sobre o Festival. Algum filme marcante? Alguma polêmica? Nenhum filme marcante. Na verdade, uma polêmica, sim: quanto vale o ticket refeição? É trinta ou quarenta reais? Por enquanto, é só sobre isso que os críticos falam. E onde se beberá cerveja à noite, é claro.

*****

À noite, porém, surge a primeira polêmica: FilmeFobia, de Kiko Goifman. Um “objeto fílmico não-identificado”, como definiu o crítico do Estadão, que perturba nem tanto pelas questões éticas que provoca, mas mais pelo estranhamento, a indefinição de gênero. O filme simula a realização de um documentário sobre fobias, dirigido pelo lendário crítico de cinema Jean-Claude Bernardet, que submete os atores do filme dentro do filme a ficar frente a frente com seus maiores temores. Só que muitos desses atores são fóbicos na vida real, confundindo a platéia sobre o que é interpretação e o que não é.

Então? É ficção? Documentário? O diretor Kiko Goifman subiu ao palco com essa: “Se fosse um documentário, eu e o Jean-Claude iríamos presos”.

Teoricamente, o filme parte de uma premissa de Bernardet, de que “atualmente a única imagem verdadeira é a de um fóbico diante de sua fobia.”  Mas tanto Bernardet quanto Goifman sabem que essa premissa é absolutamente falsa. Só está lá para confundir ainda mais o público. Não se pode esquecer que muitos fóbicos falsos têm atuações mais reais do que os fóbicos verdadeiros.

O filme é interessante, mas ambicioso demais. Como disse o próprio Bernardet, “dispara possibilidades de discussão, que nunca fecham e que às vezes nem seus realizadores conseguem entendê-las”. Acho justamente que as várias idéias que vão surgindo ao longo do filme, como uma espiral, muitas vezes não geram grande interesse. Acho também que muitas das cenas de fobia não rendem do ponto de vista dramática.

Sim, porque o filme não é apenas uma exploração da fobia em si. No cerne, havia a preocupação de como o contato com a fobia geraria situações interessantes do ponto de vista dramático e plástico. Todas as situações de confronto são reforçadas de artifícios cênicos, como luzes e música ambiente. Alguns atores aparecem nus (para aumentar o constrangimento), amarrados ou até mesmo suspensos no ar. A luz é expressionista; algumas máquinas, surealistas – e a interpretação é totalmente naturalista!

Essa mistura é de fato interessante e rende plano muito bonitos, como o do fóbico a papagaio suspenso no ar, contra um céu negro, e do fóbico a palhaço diante do palhaço, com um vidro entre os dois criando uma estranha fusão.

Não é um mau filme, claro. Mas se essa for mesmo a melhor obra do Festival (como estão dizendo por ai), a coisa não tá muito boa, não.

****

Antes do Filmefobia, dois curtas foram exibidos. O primeiro dels, Nº27,  causou boa impressão. Muito bem filmado, mas o trabalho com o som não esteve a altura. Também poderia ter terminado alguns minutos antes, com o belo slow motion da menina olhando ao longe.

Cidade Vazia, o segundo curta, ganhou mais vaias do que aplausos. Na verdade, acho que só a equipe  – e seus familiares – aplaudiram. Mas o filme não é ruim, não. O grande defeito, na minha opinião, é que o diretor tentou abraçar num curta o material de um sonhado longa. Ficou esquisito, e a montagem confusa tentou salvar, mas não conseguiu. Agora, tenho uma explicação para a vaia…

Quem conhece o mundinho do cinema – estou falando do mundinho da universidade de cinema – conhece os grupinhos e o preconceito. Enfim, na apresentação subiu toda a equipe no palco. Estavam visivelmente emocionados, já que o filme saiu caro, e teve poucos recursos públicos. Mas aí a produtora – casualmente irmã do diretor, Cássio Pereira dos Santos - roubou o microfone quando todo mundo já estava deixando o palco. Muito a vontade, fez uma frase profundamente infeliz. Quer dizer, foi engraçado, mas daquele jeito: vergonha alheia. Ela chegou e disse pro irmão: “Só quero dizer uma coisa: Cássio, cansei de ser sua produtora, quero ser sua atriz”, e deixou o palco rebolando e sorrindo para câmeras imaginárias, como se estivesse no tapete vermelho de Cannes (menos, menos: vamos dizer Gramado).

A sala foi tomada por um silêncio constrangido. À minha frente, ouvi uma mulher suspirar: “ai, ai”. Estava selado o fracasso do filme. O que antes seria “Gostei, achei sincero, eles fazem parte da minha turma”, virou: “ÚUUUUH”, e ”Muito ruim!”. Geralmente, é assim que funciona o público-cabeça composto por estudante de cinema: nunca é pela qualidade em si. É pela identificação.

Muito além do cachorro morto

November 16, 2008

“Uma coisa de nada”, romance de Mark Haddon, é com certeza um dos cinco melhores livros lançados esse ano no Brasil. Não li o seu romance anterior, “O estranho caso do cachorro morto”, do qual se falou bem no mundo todo. Esse saiu em 2006 na Inglaterra e teve uma recepção bem menos favorável, o que é uma pena. Haddon bebe numa tradição realista que remonta a “Anna Karenina”: segue vários personagens, entrando na mente de cada um deles. Cada capítulo é narrado do ponto de vista de cada personagem, com focalizador único. Apesar disso, é impressionante como consegue manter uma unidade romanesca.  

Entrevistei Haddon para o B. Abaixo, publico a matéria que saiu na sexta-feira (e aproveito para publicar nos comentários a entrevista completa):

Depois de se consagrar com um best-seller inusitado, O estranho caso do cachorro morto, que contava a história de um garoto autista decidido a investigar o assassinato do cachorro da vizinha, do qual é o principal suspeito, o britânico Mark Haddon fez uma promessa: não ia se acomodar.

Em vez de explorar exaustivamente a mesma fórmula e garantir altas vendas, o autor preferiu usar suas 150 mil cópias vendidas pelo mundo para buscar novos caminhos. Uma coisa de nada, seu último e aguardado romance, toma uma direção oposta ao sucesso anterior. Sai de cena o mundo delirante e fantástico de uma criança com deficiência para dar lugar às idiossincrasias familiares do aparentemente confortável e pacífico subúrbio inglês.

– Há muitas vantagens em se tornar um best-seller – admite ao Jornal do Brasil o autor, que, antes de freqüentar a lista dos mais vendidos só havia publicado livros infanto-juvenis.  – Agora, posso escrever o que eu quiser, gastando meu tempo tentando fazer a escrita funcionar. O sucesso de O estranho caso do cachorro morto me deu confiança para editar selvagemente meus próprios livros. Mas acho que para mim seria impossível escrever uma obra igual a essa. Eu me entediaria até a morte. Gosto de explorar outros registros, como poesia, peças para rádio, roteiros… Preciso toda hora fazer algo difícil e diferente. Se não há risco ou desafio, qual o sentido? Seria melhor eu ser um contador, ou um padeiro.

Uma coisa de nada segue os passos de quatro membros de uma família inglesa de classe média. George, o patriarca, usa seu tempo de aposentado para terminar uma obra no jardim de casa, enquanto sua mulher, Jean, já não sente mais paixão pelo marido.

Ambos estão preocupados com a perspectiva do segundo casamento da filha, Katie, que pretende se unir a um sujeito bonachão e simpático, mas vindo de um meio social inferior. Enquanto isso, o filho Jamie tem dificuldades de levar adiante seus relacionamentos amorosos.

A calma dos jardins suburbanos é aos poucos tomada por estranhezas e conflitos familiares. George se revela hipocondríaco e entra gradualmente na demência; Jean vive um caso extra-conjugal com um antigo colega de trabalho do marido; Katie se desdobra entre a vida profissional e familiar; e Jamie tem dificuldade de lidar com sua homossexualidade… No fim das contas, o leitor não se sentirá tão distante assim da temática pitoresca de O estranho caso do cachorro morto.

– Acredito que há estranheza na vida de todos – avalia Haddon. – A diferença é que certas pessoas compartilham essa estranheza, enquanto outras fazem o possível para escondê-la. É verdade que a história de Uma coisa de nada é mais convencional e que a história de O estranho… é mais idiossincrática. Mas você não pode se concentrar em escrever um livro idiossincrático. Você tem que se concentrar em escrever um bom livro e ver o que acontece.

Cada capítulo enfoca os movimentos e reflexões de um dos quatro protagonistas. Com um estilo simples e econômico, Haddon entra na mente de seus personagens, captando desde as emoções mais secretas às observações mais banais. E, principalmente, as dúvidas e incertezas que surgem pelo caminho.

– Adoro entrar na mente das pessoas, embora não seja fácil conseguir isso – confessa Haddon, que, antes de abraçar a carreira literária, trabalhou com garotos deficientes. – Essa é a maior alegria que sinto num romance, seja como leitor ou como escritor. Ironicamente, foi muito mais desafiador fazer isso nesse livro do que em O estranho caso…, com o qual fui aclamado por entrar na mente de um garoto com “desvios de comportamento”. Pessoalmente, acho muito mais difícil entender o que se passa na cabeça de uma mulher de 60 anos ou de um jovem gay.

Longe dos padrões mastigados do best-seller, Haddon vai multiplicando os personagens coadjuvantes, introduzindo-os em meio a narrativa sem sequer apresentá-los ao leitor. Como no dia-a-dia, os eventos e as pessoas se sucedem sem muita explicação, permitindo ao escritor captar emoção em alguns instantes aparentemente banais, como o choro de uma criança no meio da noite ou o inesperado som de um trem em movimento.

– Mas não é assim na vida real? Conhecemos tantas pessoas tão diferentes todo o dia. Alguns acabam virando íntimos, outros conhecemos por cinco minutos e depois nunca mais encontramos. A vida é assim. Quis dar uma amostra disso no livro. Além do mais, sempre pensei que a regra mais prática de escrita é: não explique. Deixe ao leitor espaço para que possa fazer sua própria escrita.

Estereótipos nacionais

Para o escritor, o universo tipicamente inglês do seu livro, com seu humor irônico, suas histerias contidas, pode ser compreendido no mundo inteiro.

– Todos os livros são quintessencialmente locais. Quando você tenta escrever para um público internacional, sempre cai em algo geral e sem interesse. Agora, não tenho a menor idéia se os leitores brasileiros vão gostar de meu livro. Acho que nos deixamos levar demais por estereótipos nacionais. Se você já foi membro de uma família, creio que há coisas no livro com as quais irá se identificar, tenha você crescido no Alasca ou em Fiji.

Por Bolívar Torres

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(cena de Le prix du pardon)

No Rio para participar do 2º Encontro de Cinema Negro Brasil, África e América Latina, que começa nesta sexta-feira, o cineasta senegalês Mansour Zora Wade reza. Torce os dedos. Nesta sexta-feira, no exato momento em que esta reportagem é publicada, uma comissão de países francófonos pode decidir o futuro do último longa do diretor, Les feux de Mansare.

Se a instituição aprovar um financiamento extra, Mansour conseguirá finalizar o processo de pós-produção de seu filme, que já dura um ano. O drama é um resumo da situação vivida pelos diretores de Senegal, país que teve uma indústria pioneira em seu continente, mas que hoje sequer possui salas de cinema.

– É muito difícil fazer cinema no Senegal – lamenta Mansour, contemplando as ruas cariocas da sacada de um hotel no centro da cidade.

– Até a metade da década de 80, conseguíamos fazer dois filmes por ano, graças a incentivos públicos. Depois, em função de políticas do Fundo Monetário Internacional, nossas salas de cinema foram privatizadas e acabaram fechando. Foram transformadas em shopping centers e templos religiosos. Ao contrário de outros países africanos onde a indústria do cinema floresce, como Burkina Fasso, o Senegal não investe mais um só tostão em filmes.

Mansour explica que as poucas obras produzidas atualmente em seu país – uma a cada dois anos, na melhor das hipóteses – são financiadas por países europeus, principalmente a França, para exibição em festivais mundo afora. Lançando um olhar melancólico para os arcos da Lapa, 25 andares abaixo, o cineasta resume seu dilema:

– Hoje, a pergunta que se impõe a todo cineasta senegalês é: “Para quem faço meus filmes?”. Não conseguimos exibir nossas obras em nosso próprio país.

No Encontro de Cinema Negro, Mansour mostra Le prix du pardon, longa de 2001 sobre dois amigos de infância que tentam seduzir a mesma mulher, enquanto o vilarejo de pescadores é engolido por uma inexplicável bruma. O diretor também exibe o curta-metragem Picc mi, de 1992, fábula política em que se confrontam dois mundos: o dos adultos gananciosos, violentos, destruidores do ambiente, e o das crianças, que tentam escapar de sua pesada realidade.

– Meus filmes costumam se basear em lendas africanas e abordar questões relativas à memória humana – diz o diretor, que começou a fazer “cinema” ainda criança, projetando sombras chinesas em telas.

– No vilarejo onde nasci, os filmes passavam a céu aberto, numa tela cercada por muros. Eu fazia um buraco no concreto para poder assistir. Lembro que o primeiro filme que vi foi um faroeste em preto-e-branco. Mas fui realmente influenciado pelos filmes japoneses.

Curador da mostra, o diretor Zózimo Bulbul, ícone negro dos anos 60 e 70 por suas interpretações na TV e no cinema, é amigo de Mansour. Os dois se conheceram em Paris, quando estudavam cinema.

– Ele é um grande cineasta. E o encontro é a chance para que os grandes nomes do cinema africano possam mostrar seus trabalhos – exalta Bulbul, afirmando que, apesar de ter pensado num festival só com nomes brasileiros, abriu depois para africanos e latino-americanos.

– Os cineastas negros precisam se encontrar, conversar. Para isso, temos as exibições e os debates.

Além de Brasil e Senegal, o encontro (“Não é um festival, somos todos irmãos, não há competição”, esclarece Bulbul) terá filmes da Mauritânia (Sarraounia, de Méd Hondo, exibido nesta segunda-feira) e de Mali (Finzan, de Cheick Sissouko, na terça-feira) e debates com cineastas latino-americanos, como Antônio Molina (Cuba) e Derby Arboleda (Colômbia), sob o tema “Intercâmbio do cinema negro Brasil, África e América Latina”, neste sábado.

Há exibições no Odeon BR, no Centro Afro-Carioca, no Espaço Tom Jobim, no Centro Cultural Justiça Federal e numa tela ao ar livre na Lapa.

– Optei por vários lugares para formarmos platéias. As pessoas precisam conhecer o cinema africano – observa Bulbul. – Ele tem compromisso com a história da África e com a recuperação da tradição oral.

Publicado hoje no Caderno B

Esperando mórmons

November 14, 2008

Resolvi ligar.

Uma telefonista me disse que membros do templo mórmon me entregarão o DVD na minha casa, dentro de uma semana. Perguntei se os membros irão cantar para mim. “Provavelmente, sim”, ela respondeu.

Me desejem boa sorte.

Jesus Cristo me ama

November 11, 2008

Saí aqui da redação rapidamente para comprar um chocolate na Casa do Biscoito. Precisava da minha dose diária de glicose do meio-da-tarde. Enfim, saí Rio Cumprido adentro. Passando pelos viadutos, pelos mendigos. Quando começo a atravessar a praça Condessa Paulo de Frontin, ouço: “Oi!” Me viro e vejo um alemão alto, de gravata, me seguindo. Ele continua me chamando mas eu sigo em frente. Aí o alemão cruza o meu caminho, sem fôlego, me estendendo um folheto. O sotaque também é de alemão: “Ligue para esse número. Tem um presente esperando por você”. Olho pro rosto: tem cara de garoto e rosto espinhento. Pego rapidamente o folheto e corro pra Casa de Biscoitos.

De volta à redação, estou agora com um sufflair e o folheto. Diz ali: “Leve o espírito de natal para sua casa, com a história do nascimento e da vida do Salvador e músicas cantadas pelo Coro do Tabernáculo Mórmon. Ligue grátis para 0800 286-2200″.

E aí? Ligo?

Dias e noites na floresta

November 11, 2008

Começa hoje, no CCBB, a melhor mostra do ano no Rio. Vinte filmes da nouvelle vague indiana, quase todos inéditos e em película. Pela primeira vez no Brasil, um filme de Rithwik Ghatak! Mas vai ser a oportunidade de finalmente descobrir o cinema de Mrinal Sen e rever o meu filme preferido de Satyajit Ray: “Days and nights in the forest”.

Rever o filme será um exercício de regressão. Voltar em 1993, quando eu tinha 12 anos, e vi o filme no cinema Sémaphore, na cidade de Nîmes. Já estava um bom tempo afastado do Brasil. Na época, morava numa cidadezinha pobre do sul da França. O único cinema passava blockbusters dublados, o que me obrigava a pegar um trem para Nîmes – uma cidade maior e muito mais alegre – e ir todo fim-de-semana ao Semaphore. Lembro até hoje do caminho da estação de trem até o cinema, uns dez minutos, que eu alongava para passear pelas ruas estreitas e visitar as arenas romanas (Nîmes é uma antiga colônia do tempo de Augustus e tem alguns dos monumentos romanos mais bem preservados). Foi no Semaphore que vi os filmes de Orson Welles, Frank Capra, Anthony Mann, os primeiros David Lynch… Vi tudo antes de completar 13 anos. Muitas vezes, aproveitava para ver dois ou três filmes no mesmo dia, então torcia para dar sol, e para, entre uma sessão e outra, andar sozinho pela cidade, cruzando a Maîson Carré, a Torre Magne, o Templo de Diana e o Jardim de la Fontaine. A volta para minha cidade era naqueles velhos e barulhentos trens de lataria, furando a noite entre as paisagens da Provence. Durava uma hora mais ou menos, e era sempre agradável no clima ameno da primavera.

Agora, por que eu me lembro de “Days and nights”? Bom, era um ciclo de Satyajit Ray que o Semaphore exibia, com uma dezena de filmes dele inéditos (na França). No mesmo dia tinha visto um filme incrível, “O covarde”. Foi meu primeiro contato com Ray. Lembro como a história me deixou perplexo: um homem abandona o amor da sua vida porque não tem dinheiro para se casar. Anos mais tarde, já bem-sucedido, seu carro enguiça numa cidade rural, durante uma tempestade. Lá, encontra a hospitalidade de um rico fazendeiro, que descobre ser casado com a mesma mulher da qual se separou no passado. O homem tenta convencê-la a voltar com ele para a cidade – agora tem dinheiro, e os dois podem ser felizes… Ela fica em dúvida, ainda está ressentida com a separação. Acabam marcando encontro à noite, na estação de trem. Mas ela não aparece. Ele espera horas, termina dormindo num banco. E então de madrugada ela finalmente aparece. Os olhos do “covarde” se iluminam de alegria. Ela apenas se aproxima e lhe entrega um frasco de remédios. “Você esqueceu suas pílulas”, ela diz, e volta para o seu casamento.

Na sessão seguinte começou “Days and nights in the forest”. E foi ainda melhor que “O covarde”. Era incrível aquelas florestas indianas, filmadas em preto e branco, com uma câmera fluída, sempre em movimento. Mas acho que o que mais me impressionou foi a semelhança com o Brasil, que eu não via há anos. A história, sobre quatro sujeitos da cidade que resolvem passar um feriado nas florestas de Palamau, mostrava os contrastes entre campo e cidade que eu testemunhava aqui. Lembrou minha infância, quando ia para o sítio com a família nos finais de semana, de Porto Alegre a Itapuã, quando o carro saía das zonas urbanizadas e mergulhava no campo, nas casas simples e armazéns de parede mofada, as estradas de areia, a poeira levantando do chão… E o contato com as pessoas de lá, completamente diferentes. Em 1993, morando no sul da França, aquilo já não fazia parte da minha realidade, e o filme de Ray fez eu me sentir novamente familiarizado com divisões sociais, culturais, geográficas. Foi minha conexão Índia-Brasil-França. É estranho: aos 12 anos, precisei de um filme indiano, visto num cinema francês, para me dar conta da estrutura social do meu país, do qual eu já me sentia quase um estrangeiro.

Vou rever o filme, 15 anos depois. Estou curioso.

Acabou

November 5, 2008

Eu tinha que acordar cedo hoje, para pegar meu vôo para Ouro Preto, mas não me agüentei. Fiquei até de madrugada acompanhando o resultado das eleições pela internet. No site do New York Times, vi as imagens ao vivo dos discursos de McCain, em Phoenix, e do Obama, em Illinois. Não sei quanto a vocês, mas depois de meses seguindo frenéticamente em todos os blogs, sites e jornais, já estava saturado de eleições. Queria por um ponto final nisso ai.

E foi um belo final. As imagens estavam bonitas, tanto em Arizona quanto em Chicago. Dava para sentir a brisa da noite tocando o rosto do público, as bandeiras americanas tremulando no ritmo certo. Não pude deixar de fazer um paralelo com a posse do Lula, em 2003, que mereceu a mesma histeria. Mas que diferença entre os dois espetáculos… Em Brasília era uma bagunça , pessoas se esparramando no chão, música chata e – o pior – uma idéia de festa, de catárse, mais do que de consciência histórica. Eram duas festas sobre democracia, mas a americana parecia carregada de responsabilidade, de recomeço…

Tudo começa pela natureza dos eleitos. A eleição de Lula parecia a chegada da boquinha: “agora, vamos poder aproveitar”. Obama é a face da responsabilidade. Peguem o discurso. Ele pronunciou o que Bush ingnorou por oito anos: o sacrifício, esse sentimento tão americano, que parecia perdido em cortes de impostos, especulação absurda, créditos irresponsáveis e endividamento inevitável. Os Estados Unidos estão num momento que pede sacrifício, e essa era a palavra de Obama: um apelo a responsabilidade. Mas, assim como Lula, também chama para uma esperança que invariavelmente leva a desilusão.

Há, no entanto, uma diferença entre a esperança de Lula e a esperança de Obama. A do americano tenta inspirar na população o que ela tem de melhor. A do brasileiro é do acomodamento, a do me-dá-que-eu-quero, da boquinha e da esmola. Outra diferença evidente: o tom de recociliação, acima de raça, posição social ou partido. Nesse sentido, Obama é o contrário de Lula, que passou os últimos anos agravando divisões (não vou dizer criando porque elas sempre existiram).

Em seu discurso, Obama elogiou o adversário. O mesmo faz McCain, num esforço bastante digno. Ambos se mostraram calorosos um com o outro.  Enquanto aqui se fala em um terceiro mandato pra mamar mais, lá a democracia está acima de tudo. Nada mais importa. ”Perdi, mas tenho orgulho de ter servido meu país”. McCain disse: o meu adversário agora é meu presidente e vou aceitá-lo. As urnas falaram. E falaram claro.

Ufa, acabou. Não quero mais ouvir em Estados Unidos por uns três meses.

November 2, 2008

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These fish have no eyes
these silver fish that come to me in dreams,
scattering their roe and milt
in the pockets of my brain.
But there’s one that comes -
heavy, scarred, silent like the rest,
that simply holds against the current,
closing its dark mouth against
the current, closing and opening
as it holds to the current.

(Raymond Carver, “The current”)

 

Quarta-feira, 29 de outubro, noite de entrega do Prêmio Portugal Telecom. Foi na casa Fasano, em São Paulo, um lugar realmente bonito. A cerimônia demorou para começar. Enquanto isso, fiquei ali, sozinho no meio saguão, catando uns salgadinhos na bandeja dos garçons, me entupindo com champagne, e observando a agitação dos convidados. Não conhecia ninguém. Tentei azarar – sem sucesso – uma ou outra assessora. Peguei o press-kit e reli o nome e biografia de todos os concorrentes. 100 mil reais. Um deles ia ganhar 100 mil reais. Obviamente, estava na torcida por Lobo Antunes – talvez o prêmio tornaria ele mais conhecido no Brasil, obrigando a imprensa a falar um pouco menos de Saramago. Mas um outro jornalista me abordou dizendo que preferia Cristovão Tezza. “O Tezza precisa de grana”, justificou.

Passei mal durante a cerimônia. A cerimônia teve discursos longos, muito longos, e eu já começava a sentir os efeitos do whisky, do vinho tinto e do champagne na minha gripe. Não parava de tossir. Difamei com estrondos de tosse as leituras de Fernanda Montenegro, como sempre apresentada como “a grande dama do teatro”. Lugar-comum é o ponto forte dessas cerimônias. Eu estava prestes a desmaiar, quando finalmente chamaram o vencedor.

Deu Cristovão Tezza. Sim. Ele ganhou ”uma grana”.

Depois da premiação, houve um pequeno rebuliço. Alguém falou em polêmica. Vou dizer aqui o que me contaram: assim que foi anunciado o vencedor, um tal de Jorge – não souberam dizer o seu sobrenome, mas me informaram que se tratava de um careca – gritou por farsa. Disse que o veredicto não correspondia à votação. “Polêmica” – era o comentário no jantar. Começaram a ironizar a situação. Ironizaram qualquer tipo de polêmica. Um sujeito de cabelo cumprido puxou o nome de Marcelo Mirissola: “Um dia eu tive que apresentar uma mesa com o Mirissola”, disse o cabeludo: “E aí eu pensei: por que não fazer esse sujeito provar do seu veneno? Pensei seriamente em apresentá-lo ao público como um desgraçado, um imbecil, um debilóide, só para ver a reação dele. ‘Este homem aqui é um ser insignificante’, eu diria, fazendo com ele exatamente o que ele faz com os outros…” 

Fiquei pensando: e, de fato, qual seria a reação de Mirissola? Provavelmente morderia a isca do cabeludo, respondendo no mesmo tom. A mesa acabaria em barraco. Já outras pessoas mais espertas recorreriam a auto-ironia. Diogo Mainardi diria: “Esse sujeito tem razão, sou um ser insignificante, totalmente insignificante. Somos todos insignificantes”. A auto-ironia desconstrói o discurso, embaralha as pistas, confunde quem odeia a controvérsia. É a diferença entre um Mainardi e um Mirissola, entre um humorista que não se leva a sério e um franco-atirador apelativo. A diferença entre quem entendeu que não há heroísmo na polêmica e quem recorre a ela para chamar a atenção. A diferença entre um sujeito minimamente relevante e outro fadado ao esquecimento. 

Fui para um canto de sofá. Tomando refrigerante, fiquei observando os convidados se atirarem no jantar. Tudo que eu queria era que a van do hotel aparecesse, me levasse de volta para meu quarto, para eu poder assaltar o frigobar. De repente, um garçom velhinho veio me perguntar: “Já foi servido?” Fiz não com a cabeça. Cinco minutos depois, o velhinho voltou com um risoto de pato. Por alguma razão, ele parecia ter pena de mim: “Aqui está, meu filho”. Eu era agora um indigente estendendo a mão em alguma rodoviária. Ele me serviu e disse: “Deus te ama, tá bom”. Juro que ele disse isso: “Deus te ama”. Eu me senti um ser insignificante, muito insignificante.

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Quinta a tarde, ainda em SP, entrevistei Benício del Toro, no Hotel Renaissance. Tinha ido, dois dias antes, na cabine do “Chê”. Visualmente, o filme é bacana. Mas, sinceramente, não consegui pegar o espírito da coisa. É uma boa obra documental, mas do ponto de vista do drama, algo não funciona. Mas enfim, estava lá eu, ele e a produtora do filme numa mesa do Renaissance. Benício disse que o que mais gostava no Chê era o lado “underdog”. “Chê era um underdog… e quem não gosta de interpretar um underdog” – ele riu. Eu acrescentei: “E era um underdog que ajudou outros underdogs…” Ele gostou da definição. Depois disso, passou o resto da entrevista me chamando de “the underdog guy”.

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Horas mais tarde, fui encontrar Aude, uma amiga francesa que conheci em 2007, quando ela ainda morava no Rio. Aude mora em São Paulo, agora, e faz um estágio numa empresa de consultoria ambiental. Nos encontramos nos Jardins. Ela me disse que está com saudades do Rio, que quer voltar para lá, embora São Paulo tenha suas vantagens. Primeiro, tem coisas para fazer nos dias de chuva. Há muitos lugares para sair. Segundo, as coisas funcionam. Sem falar nos táxis… “No Rio, os táxis são podres, fedorentos, os motoristas te tratam como lixo. Aqui, todos são educados, os carros são limpos… Logo que eu cheguei na cidade, me sentia uma rainha dentro dos táxis”, disse Aude. 

Seu estágio acaba em dezembro, mas ela não pretende voltar à França. A situação lá está terrível, ela me disse. Simplesmente, não há mais emprego. Os benefícios sociais estão com os dias contados. Em breve, a coisa estará ruim até para os franceses que moram no Brasil, ganhando 10 mil euros numa Renault da vida: “Com a crise, as empresas vão cortar os salários. A partir de agora, é salário local, cinco mil reais no máximo. O que já não é ruim, mas pra quem ganhava 30 mil…” 

Em geral, franceses costumam ser pessimistas, exagerados, insatisfeitos… Mas Aude parecia, acima das idiossincrasias culturais, realista. Ouvindo ela falar, o tom de voz desiludido, o olhar desencantado, eu conseguia imaginar o futuro nebuloso do seu país.

A noite foi boa. Ao contrário do Rio, o chope em São Paulo tem colarinho grosso, cremoso. Estava com saudades de beber um chope de verdade. Mais tarde, descemos alguma rua dos Jardins, nem tão escura, nem tão sileciosa, mas fria. Não havia neblina. Mesmo assim, senti como se desaparecessemos sob alguma bruma. Insignificantes. Underdogs.