Reminiscências de São Paulo
November 1, 2008
Quarta-feira, 29 de outubro, noite de entrega do Prêmio Portugal Telecom. Foi na casa Fasano, em São Paulo, um lugar realmente bonito. A cerimônia demorou para começar. Enquanto isso, fiquei ali, sozinho no meio saguão, catando uns salgadinhos na bandeja dos garçons, me entupindo com champagne, e observando a agitação dos convidados. Não conhecia ninguém. Tentei azarar – sem sucesso – uma ou outra assessora. Peguei o press-kit e reli o nome e biografia de todos os concorrentes. 100 mil reais. Um deles ia ganhar 100 mil reais. Obviamente, estava na torcida por Lobo Antunes – talvez o prêmio tornaria ele mais conhecido no Brasil, obrigando a imprensa a falar um pouco menos de Saramago. Mas um outro jornalista me abordou dizendo que preferia Cristovão Tezza. “O Tezza precisa de grana”, justificou.
Passei mal durante a cerimônia. A cerimônia teve discursos longos, muito longos, e eu já começava a sentir os efeitos do whisky, do vinho tinto e do champagne na minha gripe. Não parava de tossir. Difamei com estrondos de tosse as leituras de Fernanda Montenegro, como sempre apresentada como “a grande dama do teatro”. Lugar-comum é o ponto forte dessas cerimônias. Eu estava prestes a desmaiar, quando finalmente chamaram o vencedor.
Deu Cristovão Tezza. Sim. Ele ganhou ”uma grana”.
Depois da premiação, houve um pequeno rebuliço. Alguém falou em polêmica. Vou dizer aqui o que me contaram: assim que foi anunciado o vencedor, um tal de Jorge – não souberam dizer o seu sobrenome, mas me informaram que se tratava de um careca – gritou por farsa. Disse que o veredicto não correspondia à votação. “Polêmica” – era o comentário no jantar. Começaram a ironizar a situação. Ironizaram qualquer tipo de polêmica. Um sujeito de cabelo cumprido puxou o nome de Marcelo Mirissola: “Um dia eu tive que apresentar uma mesa com o Mirissola”, disse o cabeludo: “E aí eu pensei: por que não fazer esse sujeito provar do seu veneno? Pensei seriamente em apresentá-lo ao público como um desgraçado, um imbecil, um debilóide, só para ver a reação dele. ‘Este homem aqui é um ser insignificante’, eu diria, fazendo com ele exatamente o que ele faz com os outros…”
Fiquei pensando: e, de fato, qual seria a reação de Mirissola? Provavelmente morderia a isca do cabeludo, respondendo no mesmo tom. A mesa acabaria em barraco. Já outras pessoas mais espertas recorreriam a auto-ironia. Diogo Mainardi diria: “Esse sujeito tem razão, sou um ser insignificante, totalmente insignificante. Somos todos insignificantes”. A auto-ironia desconstrói o discurso, embaralha as pistas, confunde quem odeia a controvérsia. É a diferença entre um Mainardi e um Mirissola, entre um humorista que não se leva a sério e um franco-atirador apelativo. A diferença entre quem entendeu que não há heroísmo na polêmica e quem recorre a ela para chamar a atenção. A diferença entre um sujeito minimamente relevante e outro fadado ao esquecimento.
Fui para um canto de sofá. Tomando refrigerante, fiquei observando os convidados se atirarem no jantar. Tudo que eu queria era que a van do hotel aparecesse, me levasse de volta para meu quarto, para eu poder assaltar o frigobar. De repente, um garçom velhinho veio me perguntar: “Já foi servido?” Fiz não com a cabeça. Cinco minutos depois, o velhinho voltou com um risoto de pato. Por alguma razão, ele parecia ter pena de mim: “Aqui está, meu filho”. Eu era agora um indigente estendendo a mão em alguma rodoviária. Ele me serviu e disse: “Deus te ama, tá bom”. Juro que ele disse isso: “Deus te ama”. Eu me senti um ser insignificante, muito insignificante.
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Quinta a tarde, ainda em SP, entrevistei Benício del Toro, no Hotel Renaissance. Tinha ido, dois dias antes, na cabine do “Chê”. Visualmente, o filme é bacana. Mas, sinceramente, não consegui pegar o espírito da coisa. É uma boa obra documental, mas do ponto de vista do drama, algo não funciona. Mas enfim, estava lá eu, ele e a produtora do filme numa mesa do Renaissance. Benício disse que o que mais gostava no Chê era o lado “underdog”. “Chê era um underdog… e quem não gosta de interpretar um underdog” – ele riu. Eu acrescentei: “E era um underdog que ajudou outros underdogs…” Ele gostou da definição. Depois disso, passou o resto da entrevista me chamando de “the underdog guy”.
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Horas mais tarde, fui encontrar Aude, uma amiga francesa que conheci em 2007, quando ela ainda morava no Rio. Aude mora em São Paulo, agora, e faz um estágio numa empresa de consultoria ambiental. Nos encontramos nos Jardins. Ela me disse que está com saudades do Rio, que quer voltar para lá, embora São Paulo tenha suas vantagens. Primeiro, tem coisas para fazer nos dias de chuva. Há muitos lugares para sair. Segundo, as coisas funcionam. Sem falar nos táxis… “No Rio, os táxis são podres, fedorentos, os motoristas te tratam como lixo. Aqui, todos são educados, os carros são limpos… Logo que eu cheguei na cidade, me sentia uma rainha dentro dos táxis”, disse Aude.
Seu estágio acaba em dezembro, mas ela não pretende voltar à França. A situação lá está terrível, ela me disse. Simplesmente, não há mais emprego. Os benefícios sociais estão com os dias contados. Em breve, a coisa estará ruim até para os franceses que moram no Brasil, ganhando 10 mil euros numa Renault da vida: “Com a crise, as empresas vão cortar os salários. A partir de agora, é salário local, cinco mil reais no máximo. O que já não é ruim, mas pra quem ganhava 30 mil…”
Em geral, franceses costumam ser pessimistas, exagerados, insatisfeitos… Mas Aude parecia, acima das idiossincrasias culturais, realista. Ouvindo ela falar, o tom de voz desiludido, o olhar desencantado, eu conseguia imaginar o futuro nebuloso do seu país.
A noite foi boa. Ao contrário do Rio, o chope em São Paulo tem colarinho grosso, cremoso. Estava com saudades de beber um chope de verdade. Mais tarde, descemos alguma rua dos Jardins, nem tão escura, nem tão sileciosa, mas fria. Não havia neblina. Mesmo assim, senti como se desaparecessemos sob alguma bruma. Insignificantes. Underdogs.
[...] pelo remorso. Explico o por quê: na semana anterior, havia passado uns dias em SP (ler o post Reminiscências de São Paulo), no momento em que lutava contra uma gripe que não se deixava vencer. E essa mesma gripe acabou [...]