Beginners

December 27, 2008

Foi difícil, mas consegui entrevistar Tess Gallagher, a viúva de Raymond Carver, que pretende lançar a versão de O que falamos quando falamos de amor, o clássico de Carver, antes que sofresse as alterações de Gordon Lish. Bom, a história toda está bem explicada na matéria abaixo, que fiz para o JB. Só pra dizer que foi realmente emocionante falar – por e-mail – com Tess. Ainda guardo as mensagens na caixa do meu yahoo. Pelo jeito, ela escreveu as respostas com extremo cuidado – mandou juto, inclusive, as notas que os seus advogados – ou seus editores, sei lá – fizeram pra cada frase que colocou no meu e-mail. Leiam a matéria e vcs entenderão (publico, nos comentários, as respostas completas de Tess).

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Raymond Carver, o mutilado

Viúva do escritor, Tess Gallagher quer publicar originais de livro alterado pelo antigo editor

Por Bolívar Torres

Em 1981, o escritor americano Raymond Carver conquistou a crítica com sua segunda antologia de contos, What we talk when we talk about love (literalmente, O que falamos quando falamos de amor), um retrato amargo e desencantado da classe média baixa dos Estados Unidos, que o lançou como um dos maiores expoentes da chamada “literatura minimalista”. Mas o breakout foi doloroso para o escritor, falecido prematuramente em 1988, aos 50 anos. Contra sua vontade, o livro original fora radicalmente modificado por seu editor, o lendário Gordon Lish, que cortou frases, personagens e trechos inteiros de suas histórias, moldando assim o estilo econômico e elíptico que, ironicamente, acabou consagrando Carver. Quase 30 anos depois, a poeta Tess Gallagher, viúva do autor, salvou do limbo os manuscritos originais, antes das alterações de Lish. E, apesar dos protestos da editora Alfred A. Knopf, que detém os direitos de What we talk when we talk about love, pretende publicá-lo em 2009, sob o título de Beginers.

A publicação deverá revelar um Carver mais expansivo, em contraste com o escritor minimalista que ficou cravado no imaginário popular.

– Aqueles que só conhecem a versão já publicada vão perceber como o sentido de história de Carver foi sacrificado em nome de um fim estilístico – afirma Tess Gallagher ao Jornal do Brasil. – Os leitores também descobrirão os contos originais com uma textura mais rica, e com personagens e estrutura narrativa mais desenvolvidos. Suas tramas são mais tradicionais, à maneira de Tchekhov e Hemingway, suas maiores influências. Os originais também têm uma visão de vida muito mais humana e afirmativa.

Depois do sucesso de What we talk when we talk about love, Carver rompeu com Lish. Longe da influência do editor, publicou três antologias poéticas e mais dois livros de contos, Cathedral e Elephant, firmando-se como um dos mais influentes autores americanos da segunda metade do século 20. Magoado com as críticas, Lish afirmou ter “inventado” Carver, que, sustenta ele, não passava “de um motorista de caminhão”.

Até hoje, a relação entre o editor e o falecido contista provoca polêmica. O projeto de Tess encontra resistência entre editores e admiradores da obra. Muitos questionam a autenticidade dos manuscritos de Beginers. Tess afirma que os originais, encontrados por dois acadêmicos americanos numa biblioteca da Universidade de Indiana, foram vendidos para a instituição pelo próprio Lish em 1991, 10 anos depois do lançamento de What we talk when we talk about love.

Gary Fisketjon, último editor de Carver, manifestou-se publicamente contra a iniciativa. Ele conta que o escritor já tivera a chance de recuperar os contos originais em sua última coletânea, Where I’m calling from, que Fisketjon ajudou a organizar em 1988. Carver, porém, preferiu publicar sob o antigo formato apenas três contos. Os outros permaneceram exatamente como Lish havia editado.

Tess não concorda com o argumento. Procurado pelo Jornal do Brasil, Fisketjon preferiu não se manifestar.

– Mais uma vez, temos um editor, Gary Fisketjon, protegendo o que ele acredita ser o cânone Raymond Carver – lamenta Tess. – O trabalho dele como editor é impedir que sejam exumadas novas versões, para que se continuem publicando as versões já existentes.

Ao ver a prova final de What we talk when we talk about love, Carver, que na época ainda se debatia com o alcoolismo, entrou em desespero e tentou impedir a publicação do livro. Chegou até a mandar uma carta para a editora, reclamando que se sentia como se houvesse sofrido “uma amputação cirúrgica”. A leitura dos originais de Beginers confirma as palavras do autor: é possível ver como Lish cortou 55% do texto de Carver. O contoThe bath, por exemplo, foi reduzido em mais de dois terços do tamanho original. A economia formal rendeu ao autor o rótulo de minimalista, que ele odiava.

– Quando What we talk when we talk about love saiu, Ray se sentiu violado – lembra Tess. – Tive pena de vê-lo nas entrevistas, falando como se aquele fosse o livro que havia planejado, quando na verdade sabia que não o era. Ray odiava ser chamado de minimalista, sempre negou e corrigiu quem o chamava assim. Apesar disso, em cada aula de literatura e prefácio de livro, ele continua conhecido como um escritor minimalista. Sempre acreditei na importância de corrigir esse erro e mostrar aos leitores a verdade.

Para Tess, ambas as versões têm grande valor:

– Consigo admirar a austeridade da versão de Lish. Mas não encontro nela a grandeza espiritual que faz de Carver um grande escritor, e não apenas um hábil estilista. Mas, nos dois casos, aprendemos algo sobre por que admiramos um escritor: o que ele oferece da sua alma e como podemos abraçar esse presente.

Horizonte

December 27, 2008

Quando saímos era
hora avançada
a festa afastou-se atrás
de nós.
Avançamos
sob os arbustos
a música aos poucos
se afastando,
sumindo ao longe
na elevação.

Havia bruma
E as folhas trêmulas
murmuraram
o breve segredo
da madrugada.

Ela me seguiu
Eu a vi se iluminar
sob a lua entrecortada
Ela me olhou
Ela disse
Sim
Você pode tocar
nas minhas coisas.

Eu toquei.
E depois de sentir
o que nunca havia
sentido antes
- um calor -
seguimos lado a lado
absorvendo
o ar da noite
a vegetação.

Ela não pegou
na minha mão.
Ela me seguiu
em silêncio
até o topo
da elevação.

A cidade surgiu.

Eu vejo a minha casa, ela
apontou,
iluminada
entre outras outras
outras
casas.
As pessoas assistem
- provavelmente -
televisão.
Ela disse:
Eu fico,
não quero voltar.
Quero a noite
o ar
todas as casas
ao longe.

Seus olhos fixaram
o fundo abismo
do horizonte.
E por que não?, eu
disse.
Por que
não?
Eu só queria tocar
- novamente -
nas suas coisas.

Ed Motta não gosta de mim

December 9, 2008

Ed Motta me esculachou. Esculachou também o canecão. E o bolinho de queijo do Canecão.

Pelo menos, isso é o que me contaram. Uma amiga minha foi no show dele quinta passada. Ela me disse que, em determinado momento, Motta começou a falar mal do Jornal do Brasil. Era uma referência a uma entrevista que fiz com ele para o Caderno B. Motta não gostou, porque a matéria destacava suas brigas com a crítica musical brasileira. O cantor é conhecido por seu hábito – louvável, na minha opinião – de se envolver em polêmicas, e falar mal dos críticos. E eu cometi o crime horrendo de citar esse fato na minha matéria.

Ainda durante o show, Motta disse ao público que hoje “qualquer um pode hoje ser jornalista”. Ele estava falando de mim. E continuou falando de mim, me chamando de “mal-educado” e de um “estagiário qualquer” (segundo Motta, eu sou um estagiário). De certa forma, o cantor confirmou tudo que está na matéria. Agradeço a ele por isso.

Em outro momento, Motta – ainda segundo minha amiga – interrompeu o show para, dessa vez, falar mal do som do Canecão. Algumas pessoas riram. E ele completou: “É isso ai: quem rir vai ser castigado com o bolo de queijo da casa.”

É por isso que eu digo: pode me chamar de despreparado, de mau jornalista, de “estagiário”. Mas por favor, eu imploro. Não me coloquem na mesma categoria do bolinho de queijo do Canecão.

Aliás, deixo aqui esse espaço aberto para Ed Motta. Prometo publicar no Hey, light! um direito de resposta, se ele quiser me mandar um. E prometo que ninguém será castigado com bolinhos de queijo.

(Ed e assessoria, o e-mail é: bolivartorres@hotmail.com)

Receita para um domingo

December 8, 2008

http://img517.imageshack.us/img517/9066/dsc01365qn9.jpg

Minha cama; a brisa do mar; e um volume do “Oeuvres complètes de Victor Hugo” encontrado no sebo por 20 reais, com boa parte dos seus ensaios – “A propos de William Shakespeare”, “Littérature e philosophie mélées”, “Proses philosophiques” – fazem minha felicidade das 14h às 20h.

http://img508.imageshack.us/img508/6850/dsc01412lj9.jpg