Yes, man!

January 30, 2009

Em tempos de mudanças e yes, we can, Carl Allen (Jim Carrey) decide dar um gás na sua vida com uma promessa: dizer sim para tudo. A sinopse de Sim senhor (muito similar a de O mentiroso) já sugere um clássico Jim Carrey movie. Ou seja, aquele filme de assegurado sucesso comercial que o genial ator alterna com projetos mais experimentais. E a estrutura não deixa dúvida: é a mesma mistura de comédia romântica, fábula e mensagenzinhas ingênuas, que domesticam a ferocidade – e elasticidade – cômica de Carrey, presentes de forma mais bruta em grandes obras selvagens como Ace Ventura e Eu, eu mesmo e Irene.

De todos os produtos dessa safra, porém, esse é o mais estranho e menos esquematizado – e, por isso mesmo, o melhor. O diretor Peyton Reed conseguiu quebrar a formatação industrial inserindo elementos interessantes, com destaque para as presenças do bizarro stand-up comedian neozeolandês Rhys Darby (no papel do patrão Norman) e a graciosíssima Zooey Deschanel, numa auto-paródia de sua adorável figura indie-freak.

Em sua busca frenética pela felicidade, o filme leva às últimas conseqüências a frase de Hitchcock: “O cinema é a vida, sem os momentos chatos”.

(Minha entrevista com Zíbia Gasparetto)

Aos 82 anos, a escritora espiritualista Zíbia avisa aos seus milhões de seguidores: vai diminuir a produção de livros. No novo, que sai este mês, são os leitores que escrevem

Bolívar Torres

 

 

Com 82 anos completados na última terça-feira, a médium Zíbia Gasparetto decidiu: vai diminuir o ritmo de sua produção. Desde a década de 50, diferentes seres desencarnados começaram a lhe soprar do além narrativas que misturam suspense, romance açucarado e mensagens de auto-ajuda. Um dom sobrenatural que já rendeu 31 livros psicografados e mais de 9 milhões de exemplares vendidos. Mas, em 2006, a entidade Lucius, que teria sido membro do parlamento inglês numa vida passada e que é hoje “responsável” pela maioria dos best-sellers de Zíbia, assobiou no ouvido dela: “Este ano, você escreverá menos”. Zíbia obedeceu seu guia e publicou “apenas” dois livros desde o final de 2007. O mais recente é Eles continuam entre nós, uma rara obra não-psicografada, que chega às livrarias ainda este mês. Trata-se, nas palavras do release enviado pela editora, de “uma coletânea de relatos feitos por leitores sobre experiências que só podem ser explicadas pela intervenção de seres de outras dimensões, sem qualquer lógica materialista”.

– A mediunidade é uma coisa de ciência, mas também é delicada – explica Zíbia. – As pessoas têm medo de lidar com ela. Muita gente tem aptidão para isso, mas não estudou. O que é um problema, porque a mediunidade mexe com muitas energias e é um mundo vasto, que invade a áurea.

Zíbia diz que o livro pode desmistificar as fantasias em torno da paranormalidade – que para ela, não tem nada de “para”.

– Há muitos estudos comprovados a respeito desses fenômenos. Tem essa tal de física quântica, que mostra que o corpo pode sobreviver à parte física. Há muitos autores e livros que comprovam isso – afirma Zíbia.

Quais, Zíbia?

– Hum, pois é, assim, de cabeça, não sei dizer.

Ao longo dos anos, os espíritos foram bom conselheiros para a família Gasparetto. Além do rentável material literário, Zíbia ganha orientações para os negócios. É graças ao bom faro das entidades comunicacionais que os Gasparetto abriram a empresa Vida & Consciência, uma editora especializada em livros cujo principal objetivo é ajudar as pessoas a superar seus tormentos. Com o tempo, no entanto, Lucius já não se comunica tanto com Zíbia, dando mais liberdade para a empresária agir.

– No começo, ele estava comigo em todos os lugares – lembra. – Era no trabalho, no trânsito, na cozinha… Me orientava até na hora de atravessar a rua! Mas, hoje, ele já não me ciceroneia tanto quanto antigamente.

Não é apenas na sabedoria de Lucius que bebe o trabalho literário e empresarial de Zíbia. Outros autores ditam obras para a médium. Entre eles, há nomes conhecidos da cultura brasileira, como Gilberto Freyre. A única diferença é que, pela pena incansável de Zíbia (as entidades ditam horas a fio, sem descanso), o pensador que definiu o conceito de democracia racial troca a antropologia por histórias sentimentalóides no melhor estilo roman rose.

Não dá para negar: devido aos seus dons psicográficos, o grande público brasileiro pôde enfim conhecer alguns autores canônicos da nossa nação. Com um estilo menos erudito, vá lá. E talvez com idéias um pouco menos profundas.

– Ah, o Gilberto… – lembra Zíbia. – Esse só aparece esporadicamente. Mas dita boas histórias. Do que ele escreveu quando vivo, só conheço aquele livro, o Casagrande e Senzala.

“Dona Zíbia”, como é chamada pelos mais de 200 funcionários de sua editora, não sabe explicar por que os autores clássicos mudam tanto seu estilo depois de mortos. Aliás, a empresária não fala muito sobre Freyre. Nem do romancista Graciliano Ramos, outra entidade ilustre que lhe dita alguns contos. Prefere citar José Silveira Sampaio, um espírito vivo, alegre e otimista, que lhe foi apresentado por Lucius. Em vida, Sampaio foi um autor, ator e diretor teatral de sucesso e virou um dos seres desencarnados preferidos da médium.

– Quando ele vem me visitar é sempre uma festa! – exulta. – Ele me dá conselhos. Um dia ouvi claramente: “Hoje você não come sobremesa. Só frutas”. E eu, claro, obedeci.

Mais do que dicas culinárias, Sampaio já ditou alguns livros, como o clássico O Mundo em que eu vivo, em que relata a vida em outras dimensões. Mas é o guru Lucius que emplaca os grandes sucessos da editora: seu Ninguém é de ninguém que ensina a superar os desacertos do ciúme, vendeu mais de 1 milhão de exemplares desde seu lançamento, em 2000. O mais recente triunfo da entidade é o livro Onde está Teresa?, espécie de thriller espírita que vendeu 200 mil cópias em menos de seis meses.

Ao ser perguntado sobre o significado oculto de seus livros, o escritor Ernest Hemingway costumava brincar: “Quando quero passar uma mensagem, mando um telegrama”, dizia. Zíbia Gasparetto, por sua vez, leva mais a sério essa função. Todos seus livros – e os de sua editora – trazem mensagens de aprendizado a seus leitores. Quando é preciso voltar (2001) avisa que fugir dos problemas apenas transfere o momento de enfrentá-los. Já A Verdade de cada um (1996) mostra o quanto se erra quando se pretende julgar os outros. Em Tudo valeu a pena (1993), Lucius ensina que, quando se vencem os desafios, descobre-se que tudo aconteceu para o melhor.

– O mundo está conturbado e as pessoas estão sem rumo – alerta Zíbia. – Quero distribuir para os outros a minha experiência. As pessoas precisam acordar para melhorar sua maneira de viver. Enfim, essa é minha experiência, e ela é intransponível. E aí, consegui tirar as suas dúvidas?

Publicado no Caderno B (Jornal do Brasil) no dia 3 de agosto de 2008

Yes, we can

January 21, 2009

E, já que os tempos mudam e estamos a quebrar tabus, para quando um transexual asiático passivo na Casa Branca?

Obama-Kramer

January 20, 2009

Vi de relance a posse de Obama. Na hora, lembrei do clássico de Robert Kramer, Route one USA (1989) documentário de mais de quatro horas, que segue a estrada da fronteira do Canadá até Florida Keys. O documentário é uma espécie de volta ao lar para Kramer, que nasceu nos Estados Unidos e se exilou na França no final dos anos 70. Dez anos depois, lá estava ele de volta, cruzando o seu país, e tentando compreendê-lo. É um filme lindo, do tamanho da América, que mostra os mitos, os sonhos, o imaginário, a industrialização, a religião, a imigração, a questão racial, a desigualdade social… Começa com o trecho de Folhas da relva, de Whitman, a Canção da estrada aberta – e logo depois já estamos seguindo fascinados pela Route One, com planos incríveis de crepúsculos nas pequenas cidades, os portos silenciosos, as casas fechadas, aquele tédio no ar… Ou então as grandes cidades industriais, com a fumaça das fábricas, as máquinas funcionando a pleno vapor, os ghetos, dois jovens pobres latinos que se casam, os planos para o futuro, mendigos numa fila de ação de graças comunitária, senhoras protestando na rua contra aborto, um grupo de “bruxas” se reunindo em casa num subúrbio puritano (“Quando Salem encontra Haloween”, diz o narrador).

Finalmente, Jesse Jackon. O então primeiro pré-candidato negro à presidência dos Estados Unidos se deixou filmar pelo diretor, primeiro em um escritório, em seguida durante um discurso para uma multidão. Jackson empolgava, mas, na época, ninguém acreditava de fato que seria eleito presidente. Quase vinte anos depois, apareceu chorando no discurso que Obama fez logo depois de ser eleito, em novembro passado.

Me pergunto como Kramer, que morreu em 1999 (aos 60 anos) e era fascinado por John Ford e os ideais fundadores da América, estaria filmando Obama, agora, nesse exato momento em que caminha até a Casa Branca.

Fim de jogo

January 19, 2009

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Morro da Conceição, no fim de um sábado

Outro dia estava em Ouro Preto, deitado na cama dura de um quarto de hotel (Hotel Mirante, não se hospedem lá), depois de um dia incrível na cidade mineira, que eu conhecia pela primeira vez. Tinha acabado de caminhar sob a noite estrelada, subindo e descendo ladeiras imensas, cercadas por construções agradáveis (desculpa e ignorância, mas ainda não descobri a diferença entre barroco e rococó). Sou um idiota plástico e arquitetônico, mas sei do que gosto – e das construções de Ouro Preto, eu gosto.

Fiquei na cama, olhando para o teto, mas não conseguia relaxar. Não importa o quanto tinha sido bom o meu dia, e o quanto poderia ser boa o resto da minha noite. Eu me sentia culpado. Corroído pelo remorso. Explico o por quê: na semana anterior, havia passado uns dias em SP (ler o post Reminiscências de São Paulo), no momento em que lutava contra uma gripe que não se deixava vencer. E essa mesma gripe acabou passando para minha amiga Bruna, que me acompanhou boa parte desses dias na capital paulista. A gripe chegou avassaladora para ela, transformou-se em febre. E pior é que Bruna é cantora: a garganta inflamada não lhe deixava cantar. Tudo por minha culpa.

Não me aguentei. Peguei o celular e fiz um interurbano para SP. Assim que ela atendeu, percebi a voz fragilizada de doente, e me senti péssimo, muito péssimo.

- Ouch- eu disse.  – Ai, ai… OK, eu tô ligando pra me desculpar.

- É tudo sua culpa! – ela brincou (mas seria mesmo brincadeira?) – Você me passou febre! Você tossiu na minha cara!

Para não chorar, nós rimos um pouco, e algumas horas depois eu já estava bebendo minha culpa num bar qualquer de Ouro Preto.

Três meses mais tarde, estou aqui, na minha cama confortável, vendo as descargas elétricas rasgarem o céu, pela minha janela, e escutando a chuva caíndo aos poucos após uma tarde excepcionalmente quente. Tive outro dia incrível. Sol, céu azul, ondas razoáveis na praia da Macumba (sem muito crowd, pelo menos até às 13 horas, antes da garotada invadir o pico), natureza marvilhosa ao meu redor, boa comida, boa música,  boa leitura, nenhum trabalho para o jornal… Não tenho muito a reclamar (bem, talvez eu tenha exagerado um pouquinho no sol).

E não é que mais uma vez chega a culpa junto com a noite e a chuva? Bruna está de aniversário. Eu, aqui, no Rio, não sei o que escrever para ela. O que significa essa data, essa nova etapa de vida, e o que iremos enfrentar daqui para frente? Queria ter a palavra certa, a resposta exata, mas melhor ficar quieto. Melhor deixarque o tempo responda para todos nós. 

Enfim, o ponto principal desse tetxo sem rumo, vou esclarecer agora: com amigos – os amigos de verdade – é sempre e sempre será assim. Não interessa a sua felicidade, você quer, você precisa, que o outro compartilhe. Que o outro esteja tão feliz quanto você, que tudo dê certo na medida igual. Nos bons, nos maus momento, o seu pensamento está no outro, tanto quanto em você. E é por isso que eu digo, para esse novo ano completado para Bruna, que tudo de bom e de ruim vai ser compartilhado, e que tudo só fará sentido se for assim.

Em tempos onde não se pode mais confiar em quase ninguèm – e eu sei o quanto isso se tornou verdadeiro para mim recentemente – são poucas as pessoas para quem se pode dizer isso sem remorsos.

As coisas boas da vida

January 16, 2009

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Floresta da Tijuca, num domingo qualquer, qualquer hora

PS: (É pra me redimir pela amargura do post anterior)

Violência

January 15, 2009

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Hoje de manhã, antes de ir pro trabalho, tomei um rápido banho de mar e fui comer um açaí com pão de queijo na lanchonete da esquina. Tinha uma TV ligada na Record, com um programa cretino de variedades. Em pé no estúdio do programa, um apresentador careca de óculos falava sobre violência. Falava, assim, num tom descontraído, num estilo meio Ana maria Brega de ser, mas com um toque mais sério, do tipo: “sou um jornalista com conteúdo, mas não sou chato não”.

Como não tenho TV em casa, não consigo acompanhar a evolução da cretinice de nossos canais. Por isso, quando pego de vez em quando cinco minutos de um programa numa padaria, ou numa lanchonete, sempre me surpreendo a que ponto chegamos (um pouco como quando você encontra aquela pessoa que não vê há muito tempo e percebe, ao contrário daqueles que convivem com ela todo dia, que nunca esteve tão gorda). Enfim, o apresentador estava lá, expondo seus pensamentos sobre a situação emergencial da violência no Brasil. E, para fechá-lo com chave de ouro, chamou seus companheiros de programa para dar sua opinião. Chamou Ana Hickman:

- E aí, Ana, qual sua opinião sobre esse assunto?

Corta para Ana, a loira de longas pernas e símbolo máximo da vitória ariana no imaginário coletivo, sentada numa poltoninha, com pose de jornalista séria. Ele olha com uma cara de intensa gravidade que só pode durar trinta segundos – já que logo depois deverá sorrir para fazer merchand de um produto de beleza qualquer – e diz:

- Acho um absurdo.

Volta para o apresentador. E, mais uma vez, ele chama outra colega sua, pedindo a opinião (que democrático!):

- E aí, Fulana, o que você acha dessa situação?

Pequena pausa para Fulana – uma morena de óculos no melhor estilo “fujo dos padrões de beleza mas ainda assim posso ser graciosa” -ensaiar uma cara de indignação fugaz. E então ela solta essa profunda conclusão:

- Realmente, um absurdo.

Eu queria elaborar uma tese melhor. Uma tese enorme e complexa. Mas não preciso. O apresentador careca tem razão. A loira do merchand tem razão. A baranguinha de óculos charmosa tem razão. Não precisa ser um Sartre para chegar a essa conclusão. A violência é um absurdo. As pessoas em casa ouvem e assistem essas figuras sentadas em suas poltroninhas, encenando a seriedade em seus terninhos e microfones de lapela, e dizendo as maiores obviedades possíveis. As pessoas ouvem e repetem: a violência é um absurdo. Todo mundo está cansado de saber. Todos reprovam a violência. Mas, então, por que somos tão violentos?

A violência é mais do que os números de mortes e assaltos. É a violência das relações humanas. Na praia, vejo vendedores acordando gente deitada na areia. Violência. Vejo pessoas berrando, botando música alta. Violência. Na rua, uma mulher barra meu caminho me empurrando um santinho. Diz: “Toma, meu filho!” Não, eu não sou seu filho. Intimidade demais é violência.

Por que um povo é mais violento que o outro? Não sei, ninguém sabe. Desigualdade social é uma hipotese, mas não é só isso. As pessoas são violentas. Ponto.

Não há respeito no Brasil. Todos só pensam em si. Conheço países em que há competição forte, mas trata-se de competição justa, com regras. Ninguém ultrapassa aquela linha tênue do que é competição e do que é escrotidão. No Brasil, quase todos passam. E se dão bem.

Estou cansado. Muito cansado. Só presencio atos violentos, todos os dias. Não faço outra coisa. Nas filas furadas, nas grosserias dos motoristas, na insitência dos pedintes e vendedores. Na rua, na praia, no trabalho.

No trabalho. Rouba-se tudo que se deixa nas mesas. Não se pode deixar um livro, uma agenda, nem um lenço. Deixou, perdeu. No Brasil é assim: não há respeito, tem que passar por cima. Rouba-se reputações espalhando mentiras sobre as pessoas, rouba-se respeito e civilidade, rouba-se até prêmios conquistados com suor e merecimento. Conta-se uma mentira, uma histórinha qualquer e, pronto, consegue-se o que se quer. Quando se menos espera, podem te trair, esfaquear pelas costas. Tudo isso é violência.

E tudo isso nunca acabará, por que no Brasil só se dá bem quem mente, engana, desrespeita, manipula, passa por cima. Só se dá bem que é violento. As pessoas que ainda acreditam no respeito e na civilidade perderam, e estão cansadas, magoadas, acabadas. Desistiram.

A escrotidão venceu. E aí, Ana Hickman, o que você acha disso?

Fumaça

January 8, 2009

Alguém na redação viajou e me trouxe uma caixa de charutos cubanos comprada num freeshop. Nunca tinha fumado antes. Quando cheguei em casa, estressado, tenso, com o peso do mundo nas costas, decidi fazer alguma coisa para relaxar.

Primeiro abri as janelas do quarto: era uma noite fresca e, da minha cama, olhei o Cristo à minha direita, vagamente encoberto pelas nuvens; à minha esquerda, via a praia.

Segundo, enchi meu dorso com spray anti-inflamatório. Apaguei a luz e sentei na cama, de frente para a janela da praia.

Terceiro – enfim! – acendi o charuto.

A mistura funciona: anti-inflamatório + tabaco + brisa do mar. Depois de mais um dia pesado de trabalho, me apoiei no parapeito da janela, soltando fumaça. E não é a sensação boba de estar com um charuto na mão – “Olha, eu estou segurando fogo”! – nem de me sentir classudo com um produto cubano entre os dedos. É a sensação de fumaça entrando e saíndo do meu corpo, eu acho, somado ao efeito relaxante do anti-inflamatório. É o mar quebrando mais além, o som constante das ondas, a areia deserta e mal-iluminada. É a ilusão de que a cidade dorme ao meu redor – e de que sou eu, o ser desperto, que preencho o silêncio e o vazio.

E quando abro As you like it, na segunda cena do quinto ato, Shakespeare ganha um outro significado. Meu corpo está mole, estou chapado, as palavras não parecem as mesmas.

“Se assim é, por que o amor me censurais?”, diz Orlando e minhas baforadas se desmancham no ar. Um casal caminha na praia, deixa pegadas. Da janela, vejo a linha reta marcando a areia atrás deles.

Shakespeare estava certo em colocar algumas das frases que melhor representam sua visão de mundo na boca de bobos. “All the world’s a stage”, diz o Bobo de As you like it . Tudo é simulacro. Tudo é fingimento. Não há verdade ou mentira no teatro. Como no amor. Os papéis se invertem – Rosalinda: homem que representa uma mulher que representa um homem. A representação da representação da representação. Se o mundo é palco, o que é o palco?

O mundo é representação. E a linguagem, ah, a linguagem! Palavras precisam ser enfeitiçadas, porque palavras são vãs. Estamos encobertos pela fumaça: não adianta falar sobre o que se vê, porque ninguém vê nada direito.

“Não sei o que quer dizer poética”, diz Audrey. “É honesta em atos e palavras? É coisa de verdade?”

Com a resposta, o Bobo: “Não, de fato; porque a poesia mais verdadeira é a mais fingida; os namorados são dados à poesia, podendo-se dizer que o que eles juram em poesia inventam como apaixonados”

Então, milagre!, passa um navio. Passam navios todos as noites em frente à minha janela, mas nunca perto o suficiente para que eu os ouça. O grande navio iluminado atravessa o mar escuro, fazendo:

Dúuuuu-dúuuuuuuuu

Dúuuu-dúuuuúuuuuu

E desaparece em seguida.