Obama-Kramer

January 20, 2009

Vi de relance a posse de Obama. Na hora, lembrei do clássico de Robert Kramer, Route one USA (1989) documentário de mais de quatro horas, que segue a estrada da fronteira do Canadá até Florida Keys. O documentário é uma espécie de volta ao lar para Kramer, que nasceu nos Estados Unidos e se exilou na França no final dos anos 70. Dez anos depois, lá estava ele de volta, cruzando o seu país, e tentando compreendê-lo. É um filme lindo, do tamanho da América, que mostra os mitos, os sonhos, o imaginário, a industrialização, a religião, a imigração, a questão racial, a desigualdade social… Começa com o trecho de Folhas da relva, de Whitman, a Canção da estrada aberta – e logo depois já estamos seguindo fascinados pela Route One, com planos incríveis de crepúsculos nas pequenas cidades, os portos silenciosos, as casas fechadas, aquele tédio no ar… Ou então as grandes cidades industriais, com a fumaça das fábricas, as máquinas funcionando a pleno vapor, os ghetos, dois jovens pobres latinos que se casam, os planos para o futuro, mendigos numa fila de ação de graças comunitária, senhoras protestando na rua contra aborto, um grupo de “bruxas” se reunindo em casa num subúrbio puritano (“Quando Salem encontra Haloween”, diz o narrador).

Finalmente, Jesse Jackon. O então primeiro pré-candidato negro à presidência dos Estados Unidos se deixou filmar pelo diretor, primeiro em um escritório, em seguida durante um discurso para uma multidão. Jackson empolgava, mas, na época, ninguém acreditava de fato que seria eleito presidente. Quase vinte anos depois, apareceu chorando no discurso que Obama fez logo depois de ser eleito, em novembro passado.

Me pergunto como Kramer, que morreu em 1999 (aos 60 anos) e era fascinado por John Ford e os ideais fundadores da América, estaria filmando Obama, agora, nesse exato momento em que caminha até a Casa Branca.

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