(Minha entrevista com Zíbia Gasparetto)

Aos 82 anos, a escritora espiritualista Zíbia avisa aos seus milhões de seguidores: vai diminuir a produção de livros. No novo, que sai este mês, são os leitores que escrevem

Bolívar Torres

 

 

Com 82 anos completados na última terça-feira, a médium Zíbia Gasparetto decidiu: vai diminuir o ritmo de sua produção. Desde a década de 50, diferentes seres desencarnados começaram a lhe soprar do além narrativas que misturam suspense, romance açucarado e mensagens de auto-ajuda. Um dom sobrenatural que já rendeu 31 livros psicografados e mais de 9 milhões de exemplares vendidos. Mas, em 2006, a entidade Lucius, que teria sido membro do parlamento inglês numa vida passada e que é hoje “responsável” pela maioria dos best-sellers de Zíbia, assobiou no ouvido dela: “Este ano, você escreverá menos”. Zíbia obedeceu seu guia e publicou “apenas” dois livros desde o final de 2007. O mais recente é Eles continuam entre nós, uma rara obra não-psicografada, que chega às livrarias ainda este mês. Trata-se, nas palavras do release enviado pela editora, de “uma coletânea de relatos feitos por leitores sobre experiências que só podem ser explicadas pela intervenção de seres de outras dimensões, sem qualquer lógica materialista”.

– A mediunidade é uma coisa de ciência, mas também é delicada – explica Zíbia. – As pessoas têm medo de lidar com ela. Muita gente tem aptidão para isso, mas não estudou. O que é um problema, porque a mediunidade mexe com muitas energias e é um mundo vasto, que invade a áurea.

Zíbia diz que o livro pode desmistificar as fantasias em torno da paranormalidade – que para ela, não tem nada de “para”.

– Há muitos estudos comprovados a respeito desses fenômenos. Tem essa tal de física quântica, que mostra que o corpo pode sobreviver à parte física. Há muitos autores e livros que comprovam isso – afirma Zíbia.

Quais, Zíbia?

– Hum, pois é, assim, de cabeça, não sei dizer.

Ao longo dos anos, os espíritos foram bom conselheiros para a família Gasparetto. Além do rentável material literário, Zíbia ganha orientações para os negócios. É graças ao bom faro das entidades comunicacionais que os Gasparetto abriram a empresa Vida & Consciência, uma editora especializada em livros cujo principal objetivo é ajudar as pessoas a superar seus tormentos. Com o tempo, no entanto, Lucius já não se comunica tanto com Zíbia, dando mais liberdade para a empresária agir.

– No começo, ele estava comigo em todos os lugares – lembra. – Era no trabalho, no trânsito, na cozinha… Me orientava até na hora de atravessar a rua! Mas, hoje, ele já não me ciceroneia tanto quanto antigamente.

Não é apenas na sabedoria de Lucius que bebe o trabalho literário e empresarial de Zíbia. Outros autores ditam obras para a médium. Entre eles, há nomes conhecidos da cultura brasileira, como Gilberto Freyre. A única diferença é que, pela pena incansável de Zíbia (as entidades ditam horas a fio, sem descanso), o pensador que definiu o conceito de democracia racial troca a antropologia por histórias sentimentalóides no melhor estilo roman rose.

Não dá para negar: devido aos seus dons psicográficos, o grande público brasileiro pôde enfim conhecer alguns autores canônicos da nossa nação. Com um estilo menos erudito, vá lá. E talvez com idéias um pouco menos profundas.

– Ah, o Gilberto… – lembra Zíbia. – Esse só aparece esporadicamente. Mas dita boas histórias. Do que ele escreveu quando vivo, só conheço aquele livro, o Casagrande e Senzala.

“Dona Zíbia”, como é chamada pelos mais de 200 funcionários de sua editora, não sabe explicar por que os autores clássicos mudam tanto seu estilo depois de mortos. Aliás, a empresária não fala muito sobre Freyre. Nem do romancista Graciliano Ramos, outra entidade ilustre que lhe dita alguns contos. Prefere citar José Silveira Sampaio, um espírito vivo, alegre e otimista, que lhe foi apresentado por Lucius. Em vida, Sampaio foi um autor, ator e diretor teatral de sucesso e virou um dos seres desencarnados preferidos da médium.

– Quando ele vem me visitar é sempre uma festa! – exulta. – Ele me dá conselhos. Um dia ouvi claramente: “Hoje você não come sobremesa. Só frutas”. E eu, claro, obedeci.

Mais do que dicas culinárias, Sampaio já ditou alguns livros, como o clássico O Mundo em que eu vivo, em que relata a vida em outras dimensões. Mas é o guru Lucius que emplaca os grandes sucessos da editora: seu Ninguém é de ninguém que ensina a superar os desacertos do ciúme, vendeu mais de 1 milhão de exemplares desde seu lançamento, em 2000. O mais recente triunfo da entidade é o livro Onde está Teresa?, espécie de thriller espírita que vendeu 200 mil cópias em menos de seis meses.

Ao ser perguntado sobre o significado oculto de seus livros, o escritor Ernest Hemingway costumava brincar: “Quando quero passar uma mensagem, mando um telegrama”, dizia. Zíbia Gasparetto, por sua vez, leva mais a sério essa função. Todos seus livros – e os de sua editora – trazem mensagens de aprendizado a seus leitores. Quando é preciso voltar (2001) avisa que fugir dos problemas apenas transfere o momento de enfrentá-los. Já A Verdade de cada um (1996) mostra o quanto se erra quando se pretende julgar os outros. Em Tudo valeu a pena (1993), Lucius ensina que, quando se vencem os desafios, descobre-se que tudo aconteceu para o melhor.

– O mundo está conturbado e as pessoas estão sem rumo – alerta Zíbia. – Quero distribuir para os outros a minha experiência. As pessoas precisam acordar para melhorar sua maneira de viver. Enfim, essa é minha experiência, e ela é intransponível. E aí, consegui tirar as suas dúvidas?

Publicado no Caderno B (Jornal do Brasil) no dia 3 de agosto de 2008

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