Finca Vigía revelada
February 2, 2009

Arquivos de Hemingway são abertos em Cuba
Por Bolívar Torres
De todos os escritores do século 20, o americano Ernest Hemingway, autor de clássicos como Adeus às armas e O velho e o mar, foi provavelmente o mais biografado. A vida movimentada do autor, que escapou da morte por pouco cobrindo guerras na Europa, participando de safáris na África e sofrendo acidentes de carro e avião, para finalmente pôr fim à própria existência com um tiro na cabeça, sempre fascinou leitores e biógrafos.
Mesmo assim, entre touradas, pescarias, bebedeiras e casos de amor, o período em que o autor viveu em Cuba, na sua ampla casa em Finca Vigía, é relativamente pouco documentado. No último dia 5, porém, o anúncio de que o Museu Hemingway, em Havana, vai disponibilizar aos estudiosos versões digitais de documentos, fotos e livros que passaram décadas escondidos no porão de Finca Vigía abre possibilidades para reavaliar a importância dos 21 anos em que Hemingway viveu no país. São cartas, manuscritos iniciados, diários, relatórios enviados ao governo dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra e outras raridades escritas a mão e a máquina, formando um total de mais de 3 mil páginas e fotografias
– O material pode enriquecer diversos aspectos da biografia do escritor – afirma Ada Rosa Alfonso Rosales, diretora do museu. – A maioria das biografias de Hemingway minimiza, quando não ignora, sua presença em Cuba e a importância desse período em sua vida e obra. O primeiro contato do escritor com Cuba foi em 1928. Viveu em Finca Vigía desde maio de 1939 até 25 de julho de 1960 e foi lá que escreveu clássicos como O velho e o mar e Paris é uma festa, entre outros.
Para o escritor Eric Nepomuceno, autor de Hemingway na Espanha, sobre a relação entre o escritor e o país que tanto amava, o farto material ajudará a revirar ainda mais a vida do escritor.
– Para quem gosta de Hemingway, é uma notícia espetacular – comemora. – Por mais rigorosas que sejam essas biografias ou perfis biográficos, sempre há zonas de sombra e também algo novo a ser descoberto que poderá servir para mudar pontos de vista e conclusões ou para trazer novas luzes sobre essa figura tão esmiuçada. Logo após o suicídio de Hemingway, em 3 de julho de 1961, sua viúva, Mary, queimou algumas cartas que o autor separara, levando outros manuscritos e anotações para os Estados Unidos. O governo cubano manteve intacto o resto do material. Mas décadas de exposição à umidade, insetos e calor prejudicaram muitos dos documentos.
– Os materiais não são documentos de arquivo e sim peças de museu – explica Ada. – A consulta dos originais foi limitada para conservação. Estão sendo devidamente preservados, restaurados por especialistas, e digitalizados.
Entre as raridades, há relatos de Hemingway sobre suas aventuras na Segunda Guerra, quando procurou submarinos alemães ao largo de Cuba, além de cartas de amor da condessa italiana Adriana Ivancich – possível inspiração para a heroína de Do outro lado do rio, entre as árvores. O escritor cubano Norberto Fuentes teve acesso à parte do material. Sua pesquisa resultou no livro Hemingway en Cuba – para muitos, a melhor biografia sobre o período do escritor na ilha. Apesar dos levantamentos, ainda circulam no imaginário popular várias lendas e mentiras sobre Papa (como o autor também era chamado).
– Sua figura folclórica e fácil de ser encontrada no velho centro de Havana gerou um sem-fim de histórias, muitas verdadeiras, muitas inventadas – esclarece Nepomuceno.
O biógrafo cita o bar e restaurante La Bodeguita del Medio, que expõe um cartaz escrito “Para mi daiquiri, El Floridita; para mi mojito, La Bodeguita”, com uma suposta assinatura de Hemingway embaixo. Só que, apesar de ter consagrado a Bodeguita com suas façanhas etílicas, o escritor nunca pôs os pés ali. Na época, o lugar era um depósito de bebidas, não um bar:
– O cartaz manuscrito é um blefe. Não foi escrito por Hemingway. Que, a propósito, não assinava Ernest, mas Ernesto ou Ernestito ou Ernestico. E mais: quem vai à Bodeguita vê uma foto de Hemingway sentado num balcão de madeira polida, com um drinque na mão. Tudo igualzinho ao balcão da Bodeguita. Fica mais do que evidente que é ele ali, no lugar em que se encontra o visitante. Pura mentira. A foto é real, mas foi tirada no bar de um navio. O balcão da Bodeguita foi feito à imagem e semelhança do bar desse navio, quando, nos anos 60, o lugar foi reaberto.
Essa matéria contou com a valorosa colaboração de Eric Nepomuceno. Reproduzo aqui minha entrevista completa com ele:
EU: Qual a importância da abertura desses arquivos?
NEPOMUCENO: Hemingway é dos escritores mais biografados de todos os tempos. Poucos autores tiveram a vida tão revirada como ele, e pouquíssimos se expuseram tanto. Ainda assim, sempre há zonas de sombra. E, claro, um interesse enorme por elas. Por mais rigorosas que sejam essas biografias ou perfis biográficos (em especial o trabalho de Carlos Baker), sempre há algo novo a ser descoberto, que poderá servir para mudar pontos de vista e conclusões, ou para trazer novas luzes sobre essa figura tão esmiuçada.
Cuba tem um valor único nessa biografia. A rigor, foi a única residência permanente de Hemingway. Antes, ele havia ganho de presente de um tio de sua segunda mulher uma casa em Key West, ali pertinho, na Flórida. Mas a Finca Vigia foi a primeira casa que ele comprou e pagou. E saiu dali um ano antes de se matar, já doente. Foi seu endereço permanente. E mais: em Cuba ele escreveu parte essencial de sua obra, desde os tempos em que se hospedava no veterano hotel Ambos Mundos (onde até meados dos anos 80 o seu quarto permanecia intacto, com o exemplar espanhol de D. Quixote que esqueceu na mesinha de luz, e onde escreveu boa parte de “Por quem os sinos dobram”) até, e principalmente, a Finca Vigia.
Nessa casa ele escreveu “Do outro lado do rio e entre as árvores”, “O velho e o mar”, “Ilhas da Corrente”, “Paris era uma festa”, “Morte no entardecer”. Ali escreveu artigos e reportagens, recebeu amigos (entre eles uma esplêndida Ava Gardner que nadava nua na piscina que fica em frente da varanda), foi feliz. Ali, enfim, ele chegou com sua terceira mulher (Martha Gellhorn, que na verdade foi quem descobriu o casa, alugou-a e depois convenceu-o a comprar), separou-se e casou com Mary Welsh, a quarta e última. Ali ele padeceu a alegre agonia de uma paixão por uma moça 30 anos mais nova, paixão platônica, insistia com os amigos, mas nem por isso menos demolidora.
É importante destacar tudo isso (a primeira casa comprada por ele, a residência permanente, os livros, os amigos, as mulheres e paixões) para se ter uma idéia aproximada do que esses arquivos devem conter.
Logo depois de sua morte, Mary, a derradeira viúva, foi até a Finca Vigia e recolheu um dos mais emblemáticos (se não o mais) dos quadros de Miró, La Masía, comprado em Paris nos anos 20, quando os dois eram muito pobres e muito amigos. E também outro quadro valioso, de Juan Gris. Levou os dois quadros para os Estados Unidos.
Seguindo o testamento de Hemingway, Mary queimou algumas cartas que ele tinha separado, e levou todos os manuscritos e anotações para os Estados Unidos.
O resto ficou lá, e o governo cubano manteve a casa absolutamente intacta, exatamente como estava quando Hemingway saiu de lá para não mais voltar. Eram quase dez mil livros, pilhas de revistas e recortes de jornais, a máquina de escrever, discos – enfim, tudo. E esse tudo é um mundo de papéis, cartas, bilhetes, manuscritos iniciados, diários, relatórios enviados ao governo dos Estados Unidos durante a II Guerra, quando ele cismou de ser voluntário na vigilância marítima, à procura de submarinos alemães, além de anotações literárias que Hemingway, por alguma razão, não determinou que fossem queimadas, milhares de fotografias.
Em seu esplêndido livro “Hemingway en Cuba” (há uma edição brasileira, da L&PM, traduzida por mim), o escritor cubano Norberto Fuentes – hoje residente em Miami e férreo adversário do governo de seu país – traçou o mais minucioso levantamento da trajetória do escritor na Ilha. Durante anos, ele teve acesso a parte substancial desse acervo imenso. Muitos documentos, porém (em especial cartas), estavam desorganizados, e não foram consultados por Fuentes.
É isso tudo – mais de três mil páginas, mais de três mil fotografias – que passou por um processo de catalogação e digitalização, e que agora é aberto a pesquisadores e estudiosos não apenas da obra e da vida de Hemingway, mas de todo o vasto período de história que vai de 1939 a 1960. Outros mil e poucos serão liberados nos próximos meses. Farto material, portanto, para que a vida dele continue a ser revirada.
EU: Qual a importância da cooperação entre o Museu Hemingway e a biblioteca presidencial John F. Kennedy, em Boston?
NEPOMUCENO: Na verdade, não apenas com a biblioteca Kennedy, mas com o Conselho de Ciências Sociais dos Estados Unidos. Um processo longo, iniciado há alguns anos (creio que em 2002), entre o Conselho de Patrimônio de Cuba e a instituição norte-americana. Que eu me lembre, é a primeira vez que duas instituições oficiais desses dois países rompem, oficial e formalmente, o absurdo bloqueio imposto por Washington à Ilha em 1961.
Para o acervo Hemingway, essa parceria foi absolutamente essencial. Havia o sério risco de se perder preciosidades, por causa da má conservação, da escassez de recursos, de tecnologia, razoes que punham em perigo a enorme dedicação dos funcionários do Museu Hemingway (a casa dele). Além de metodologia avançada, a tecnologia de ponta foi essencial. É preciso ressaltar, portanto, que essa parceria – a primeira – bem que poderia se espalhar por outros campos, outros projetos, driblando o embargo absurdo, o bloqueio anacrônico e injustificável.
EU: Há muitas mentiras sobre o período em que Hemingway morou em Cuba?
NEPOMUCENO: Hemingway teve ligações profundas com dois países, que tiveram influência decisiva em sua vida – a Espanha e Cuba.
Na Ilha, seus amigos eram pescadores, garçons, motoristas, jornaleiros, engraxates. Teve pouquíssimo, se é que teve algum, contato com escritores, artistas, intelectuais. Talvez por isso – essa opção por figuras simples, do povo – ele seja, até hoje, venerado em Cuba. Escreveu ‘O velho e o mar’ a partir de histórias que ouvia de Gregório, o marinheiro de seu barco ‘Pilar’. E também por não ter rompido com o governo do então jovem Fidel Castro, contrariando as pressões de Washington. É considerado ‘um de nós’ pelos cubanos.
Sua figura folclórica e fácil de ser encontrada no velho centro de Havana gerou um sem-fim de histórias, muitas verdadeiras, muitas inventadas. Como, aliás, costuma acontecer com figuras públicas de alta popularidade.
Conto duas dessas mentiras.
A primeira: quem entra no bar e restaurante ‘La Bodeguita del Medio’ vê, logo de cara, um cartaz escrito à mão, avisando “Para mi daiquiri, El Floridita; para mi mojito, La Bodeguita’. E embaixo, uma suposta assinatura: Ernest Hemingway.
Hemingway, em vida, consagrou o Floridita como seu porto na cidade. Ia praticamente todos os dias, e consumia doses industriais de daiquiris (um coquetel de limão, rum, gelo e outros segredos). Tinha lugar cativo, assinava as notas, pagava no fim do mês. Usava o Floridita como escritório: recebia jornalistas, visitas formais, e também seus amigos do dia-a-dia, jogadores, corretores de apostas, contrabandistas.
Depois de morto, Hemingway consagrou a Bodeguita. Só que, vivo, jamais pôs os pés ali. O lugar, aliás, nem era bar e muito menos restaurante: era um depósito de bebidas, chamado ‘La Bodeguita de enmedio’, porque ficava entre dois restaurantes populares.
O cartaz manuscrito é um blefe. Nunca foi escrito por Hemingway. Que, a propósito, tanto em Cuba como na Espanha, não assinava ‘Ernest’, mas ‘Ernesto’ ou ‘Ernestito’ ou ‘Ernestico’.
Usava o depósito, é verdade, mas para fazer pedidos por telefone, da Finca Vigia (que tinha uma das poucas linhas telefônicas particulares da Ilha). Encomendava rum, gim, uísque, cervejas.
E mais: quem vai à Bodeguita vê uma foto de Hemingway sentado na frente de um balcão de madeira polida, com um drinque na mão. Atrás do balcão, uma fileira de garrafas, na frente de uma parede espelhada. Tudo igualzinho ao balcão, à fileira e à parede espelhada da Bodeguita. Fica mais do que evidente que é ele ali, no lugar em que se encontra o visitante.
Pura mentira. A foto é real, mas foi tirada no bar de um navio que trazia Hemingway da Europa. Ele resolveu dar uma entrevista coletiva no bar do navio, e a foto foi feita.
O balcão da Bodeguita foi feito à imagem e semelhança do bar do navio, quando, nos anos 60, o lugar – que estava fechado há tempos – foi reaberto.
A outra:
No ‘Ambos Mundos’, o ‘quarto de Hemingway’ foi reaberto no começo dos anos 90, depois que o hotel – que estava em estado lamentável – passou por uma restauração rigorosíssima, e teve de volta a beleza dos anos 30. Com um detalhe: além do ‘Quixote’ (autêntico), apareceram outros ‘livros que Hemingway esqueceu em sua última temporada’ e… uma máquina de escrever Remington. Só que a máquina foi fabricada nos anos 40, quando ele já tinha casa e não se hospedava mais ali. E mais: nos tempos do Ambos Mundos, ele usava uma Smith-Corona, que, esta sim, continua na Finca Vigia, posta num canto, aposentada. Ele só passou a usar a marca Remington no final da década de 40, depois da II Guerra…