Orgulho zumbi
February 19, 2009

A história é conhecida. Na pequena cidade de Longbourn, a jovem Elizabeth Bennet observa à distância a atmosfera frívola e provinciana ao seu redor, em especial o arrogante Mr. Darcy, amigo do pretendente de uma de suas cinco irmãs. Trata-se do enredo de Orgulho e preconceito (Pride and prejudice, no original) , o primeiro – e talvez mais conhecido – romance da escritora inglesa Jane Austen (1775-1817). Clássica, a narrativa já foi estudada por acadêmicos do mundo inteiro, sendo analisada sob diversos pontos de vista. Foi, também, adaptada com sucesso para o cinema. Quase dois séculos depois de ser publicada, porém, uma nova versão literária da obra-prima surge agora na internet, provocando barulho.
O mundo geek não fala em outra coisa. Em poucas semanas, a novidade se espalhou por sites, blogs e grupos de discussão. A foto da capa, que mostra uma heroína horrivelmente deformada, mandíbula carcomida e roupas repletas de sangue, adianta a irreverente proposta do livro: misturar o realismo novecentista de Jane Austen com… mortos-vivos sedentos por carne fresca. Intitulado Pride and prejudice and zombies, o projeto do escritor americano Seth Grahame-Smith (responsável pelas obras Como sobreviver a um filme de terror e O grande livro do pornô) insere esmagamento de ossos, evisceramentos e outras ações sangrentas à obra canônica, imaginando como seria se a cidadezinha descrita por Austen fosse devastada por uma insurreição zumbi. O livro só deverá chegar às livrarias americanas em junho. Mesmo assim, já virou um best-seller viral, só mesmo possível em tempos de conexões virtuais.
– A ideia veio do meu editor, Jason Rekulak – revela Grahame-Smith, em entrevista ao Jornal do Brasil. – Ele tinha uma longa lista de possíveis combinações, mas a de Orgulho e preconceito com zumbis pareceu a mais divertida. Primeiro, porque escrever cenas de luta e ataques de zumbis sangrentos no estilo de Jane Austen me interessava muito. Segundo, porque o livro original tinha várias cenas, detalhes e personagens que eram, por alguma razão, fáceis de imaginar no contexto de uma insurreição zumbi.
O livro reproduz o conteúdo original da obra de Austen, mas acrescentando novidades em cada uma das suas aproximadamente 300 páginas. Como comprovam as mórbidas 20 novas ilustrações, feitas no estilo de C.E. Brock, responsável pelos desenhos do romance original, as cenas adicionais vão sempre no mesmo sentido: monstros e terror. Agora, além de se preocupar com a mesquinhez de Darcy e a vida amorosa das irmãs, a heroína Elizabeth Bennet deverá conter a ameaça zumbi. E o confronto violento entre os dois apaixonados se mistura a um ainda mais brutal derramamento de sangue.
– Inseri os mortos-vivos, mas num contexto diferente – adianta o escritor. – Não podia mostrar Londres como uma cidade fortificada sem descobrir qual era a sua aparência, o seu cheiro, o seu som, sem trocar cada uma das descrições e detalhes de Austen pelas minhas.
A popularidade precoce do livro surgiu há algumas semanas, quando o projeto da editora americana Quirkbooks (especializada em livros irreverentes, como Guia para descobrir se seu namorado é o anticristo ou Como sobreviver em meio a um tiroteio) vazou na internet. Em menos de 24 horas, uma dezena de websites já espalhava a capa com a ilustração acima, junto com uma breve sinopse. A expectativa é tanta que, antes mesmo do lançamento, a editora já recebe propostas de produtores querendo adquirir os direitos para o cinema.
– No último Comic-Con (festival internacional de arte popular que acontece anualmente em San Diego), centenas de pessoas apareceram querendo cópias – comemora Jason Rekulak, editor da Quirkbooks. – Somos uma pequena editora e fazemos todo tipo de livros estranhos e incomuns. Outras editoras maiores já estão tentando comprar os direitos do livro. Dizem que somos pequenos demais para vendê-lo corretamente. Espero que isso seja o sinal de que o lançamento será algo grande, mas, na verdade, não sabemos no que vai dar. Será interessante ver o que resultará desse online-buzz.
Sucesso ou não, Grahame-Smith espera que a brincadeira aproxime o grande público do universo de Austen.
– Muita gente me escreve dizendo “Nunca li Jane Austen, mas vou ler isto”. Os livros dela têm a reputação de serem verborrágicos e pesados (ao menos, é assim que eu os via quando estava no colégio). Mas Austen é, na verdade, incrivelmente espirituosa, sarcástica e até um pouco malvada. O que são ótimas qualidades.
Incompreendida em seu tempo, Austen traçou um retrato irônico e realista da elite inglesa do século 19. Por outro lado, a figura dos zumbis (presente nos filmes de terror de George Romero e nas “espirais” do autor haitiano Frankétienne) serve frequentemente como alegoria para a exclusão social de certos grupos. Será que, ao menos na crítica política, a união entre a autora e o gore parecerá menos esdrúxula?
– Vou manter o subtexto político do original, mas no nível do absurdo – assevera Grahame-Smith. – Elizabeth continua a heroína independente e emancipada, só que demonstra essa independência se transformando na principal caçadora de zumbis da Inglaterra. Austen gostava de fazer piadas com os ricos e acho que ela iria rir ao ver aristocratas organizando festas e tomando chá enquanto mortos-vivos rasgam o país lá fora.
Não se sabe exatamente como os puristas receberão Pride and prejudice and zombies. Profanação? Brincadeira de mau gosto? Smith garante que se lançou na empreitada com orgulho. E sem preconceitos.
- Tenho certeza que algumas pessoas acharão a coisa de mau gosto – admite. – Mas acredito que a maioria dos “Janetes” espalhados mundo afora tenha algum senso de humor. Além do mais, não sou a primeira pessoa a pôr um toque pessoal numa história dela.
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Aproveitei para fazer uma pesquisa com algumas personalidades. A pergunta era:
Qual clássico da literatura brasileira você reescreveria inserindo zumbis?
Diogo Mainardi e Carlos Heitor Cony não me responderam. Agradeço a atenção. Por outro lado, Tatiana Salem Levy lembrou A paixao segundo GH, de Clarice Lispector (pessoalmente, acho que Clarice devia gostar de zumbis). “O clima estranho do romance combina com zumbi”, justificou a autora de A chave da casa, vencedora do Prêmio Sâo Paulo de literatura. “Seria bom um zumbi para se confrontar com a solidão da personagem. É um livro de confronto. E aquela historia de barata estava fácil demais. Ela tinha era que comer um zumbi…”
Allan Sieber citou Os sertões, porque, segundo ele, já é uma coisa meio zumbi. Já o sempre atencioso Affonso Romano de Sant’anna pensou, pensou, mas não conseguiu achar. Mesmo assim, me passou uma contribuição valiosa. Reproduzo aqui:
- Existe na teoria da literatura, desde os anos 70 algo chamado de ” teoria
da carnavalização”. Durante décadas trabalhei com essa teoria originária de obras Makhail Bakhtin e orientei dezenas de teses a respeito.No Brasil,
classicamente, obras como
“Macunaima” e “A morte e a morte de Quincas Berro d’agua” e “João Ternura”, são exemplos disto. O narrador mistura magia e cotidiano, realidade e suprarealidade para fazer uma paródia da sociedade. É um processo de ” inversão” do mundo, o que se chama de “mundo às avessas”,
como no carnaval. Ora, as estórias vampirescas pertencem a esse universo. Lembro-me que Geraldinho Carneiro, enquanto meu aluno na PUC, nos anos 80, fez até um trabalho sobre vampirismo e carnavalização. As novelas brasileiras de Agnaldo Silva e Dias Gomes, na linha do realismo fantástico exploram isto também. Havia também aquele seriado ” A família Adams” onde Drácula, Frankstein e outras figuras terriveis apareciam carnavalizando os
fatos em forma de comédia. Não conheço o livro do americano, mas é uma fórmula, que está em Dostoievsky e aliás em Érico Verissimo de ” Incidente em Antares”.