O Rio Comprido é uma metáfora
February 20, 2009
E, de repente, ouvem-se tiros, do lado de fora da redação. Os colegas soltam uivos. “Já?”, ironizam. “Começou cedo”. Todo mundo está acostumado. Todo mundo trabalha no Rio Comprido.
Eu, pelo menos, estou acostumado. Venho trabalhar todos os dias aqui. Saio da orla, passo pela Lagoa. No trânsito, fico observando os vários tons da água, a fronteira bem definida de reflexos, verde, azul, cinzento… Passo de mar a água doce, cercada por natureza, verde, árvores, corcovado… E aí entro no túnel. Tudo fica escuro. Quando a luz aponta na saída, é um outro mundo. A natureza ressurge esmagada pelo concreto, pela sujeira, pela miséria.
Começa a Rua Paulo de Frontin. Logo de cara, aparece o viaduto, trazendo as imagens mais grotescas do lugar. O concreto pingando líquidos negro. Carros estacionados em posições estranhas, DENTRO da calçada (alguns incendiados ou gravemente danificados). O barulho confuso na pista de cima, que faz tudo vibrar e tremer. E, abaixo, aquele rio, o tal rio comprido, com sua cor indefinida de sujeira.
Depois dos tiros, chega a hora do almoço. É preciso cruzar as mesmas ruas poeirentas novamente. Na rua do Bispo, tem uma mulher vivendo embaixo do viaduto. A casa dela é lixo e fica no meio da passagem. E quando digo “lixo” é lixo mesmo, não força de expressão. Ela construiu uma fortaleza com resíduos, e fica lá dentro, vivendo a sua vida. Come, faz suas necessidades, medita – tudo no interior de um cercado de menos de um metro quadrado, feito de latas, plásticos, pedaços de móveis velhos, lixo orgânico… Ao passar ali por perto, é preciso encontrar um espaço minúsculo entre o castelo de lixo, os buracos na calçada e as poças de urina e lama. O rosto da mulher é inescrutável. Ela não olha os pedestres que passam por seu reino. Não dá para dizer o que há nos seus olhos.
No caminho, é preciso, ainda, desviar de fios elétricos arrebentados. Os fios grossos caíram dos postes, faz pelo menos três semanas. E continuam no chão, ao alcance dos pedestres. Uma colega pula por cima de um fio. Pergunta:
“Se encostar nisso, a gente morre?”
“Provavelmente”, respondo.
Os tiros vão recomeçar mais tarde. E ninguém vai se assustar. Todos sabem que o Rio Comprido não é um bairro. É uma metáfora. Um espaço mítico, palco de todos as derrotas. Talvez por isso o clima de união entre os jornalistas que trabalham aqui. “Somos fudidos do Rio Comprido”, dizem ao entrar – não exatamente com palavras, é claro, mas com uma curvatura de corpo, com uma cabeça baixa, um olhar derrotado. Tem algo de trágico em ser jornalista no Rio Commprido. Tem um quê de fado, que torna a nossa história de vida muito mais simpática e interessante. Sempre me lembro do final de Chinatown, a tragédia que recomeça, o bairro trazendo a mesma fatalidade. “Esqueça, Jake. É Chinatown”.
O Rio Comprido é minha Chinatown. As casas de pintura descacada. Os terrenos abandonados. Os buracos na calçada. As misteriosas poças azuis. E os pé-sujos. Os pé-sujos e seus jukeboxes tocando boléros, pratos de fígado cozido no balcão, bêbados tristes dormindos nas mesas, e gatos famintos rondando as cadeiras.
Já é noite. Estou prestes a ir embora. Páro no ponto de ônibus. Atrás de mim, uma família de mendigos dorme enrolada num lençol. Acima de mim, um tapete espesso de teias de aranha – não aquelas teias normais, mas teias de filme, aquelas seculares, incrivelmente grossas, que aparecem nos Indiana Jones. As aranhas se movimentam por cima da minha cabeça. Os carros passam a toda, jogando a água da rua em mim.
Esquece, Bolívar. É o Rio Comprido.