That’s what vacations all about
March 20, 2009
Sexta-feira, 13h45. Normalmente, estaria agora caminhando pelas ruas do Rio Comprido, voltando do almoço para o trabalho, a barriga cheia da comida gordurosa dos restaurantes da redondeza.
Mas não. Estou bem confortável, deitada na cama do meu quarto, olhando para o movimento das folhas de uma árvore na minha janela, e recebendo o ar da tarde.
Ou poderia estar correndo. Lendo um romance. Ou então, como agora, ouvindo um debate de futebol pela rádio.
Como que eles conseguem falar 1h30 sobre futebol! Pra passar o tempo, cada debatedor dá sua lista dos melhores jogadores do Inter de todos os tempos. Por e-mail, um ouvinte manda a sua seleção, praticamente só com jogadores mais novos (nada das estrelas do rolo compressor dos anos 50, e sim ídolos recentes como Taffarel, Gamarra e Fernandão). Os mais velhos se mostram insatisfeitos, como o debatedor Claúdio Cabral (ex-dirigente do Inter, conhecido na mesa de debates da rádio como “Mestre Cabral”, que além das opiniões sobre esquemas táticos se arrisca a reflexões culturais – afinal, é o “mestre” da mesa – como a de que João Gilberto não canta nada. Uma vez lembro também que ele chamou o filme sobre Cazuza de “festival da bichice nacional”). Enfim, Mestre Cabral – me sinto como numa fábula de La Fontaine, usando os títulos de honra em tom irônico – o “Maître”, dizia eu, reagiu à seleção mandada.
- É triste, mas daqui há cinco anos, ninguém vai falar de Pelé.
Seu companheiro João Garcia – este, em vez de “Mestre” possui um título mais modesto: “Gordo Garcia” -acrescenta uma pitada filosófica ao debate:
- É porque as gerações passam – diz o Gordo. – Mas ainda se fala em Alexandre, o Grande. Se bem que já estão dizendo ai que ele não era tudo isso…
E então o Mestre conclui com malícia:
- É. Dizem que ele era… daquele tipo, né?
O Gordo ri:
- Mas, naquela época, todo mundo era daquele tipo!
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E quem precisa de redação para se divertir? Ah, férias…
Gran Torino
March 18, 2009
Desde Um mundo perfeito, Clint Eastwood não parou de brincar com sua imagem de reacionário individualista, eternizada nos anos 70. O ícone Eastwood foi expandido em suas obras-primas dos 90, com a figura crepuscular do “homem que volta”, assombrado pelo passado. Em Gran Torino, o ator/cineasta mantém a áurea fantasmagórica, mas vai além, pondo em cena seu próprio desaparecimento (morte não só de uma imagem brava e destemida, mas da identidade de um país e início de sua reciclagem mítica), com esplêndida força autosacrificial e redentora. De certa forma, o longa é para o cineasta o que The man who shot Liberty Valance foi para Ford – aqui, com Clint fundindo em uma só figura os personagens de John Wayne e Jimmy Stewart.
Composto em tom menor (e por isso ignorado pelas vovós da Academia do Oscar, mais inclinadas a picaretagens épicas), espécie de Karatê Kid ao contrário, o filme flutua com serenidade pelos limites do gênero, ao mesmo tempo em que vai desconstroindo calmamente os estereotipos que finge apresentar. No final, os simples acordes de piano de Eastwood apenas reforçam a beleza e melancolia desse filme testamento, triste como um por-do-sol de domingo.
Férias: primeira quinzena
March 17, 2009
Se tem algo que me reconcilia com Porto Alegre é a luz. Corro pelo meu bairro (alto-petrópolis) todas as manhãs e fins de tarde. A luz, de fato, é a única qualidade inquestionável daqui. Até meu bairro, antigamente tão agradável e arborizado, está sendo tomado pelos prédios, num crescimento mal planejado. Mesmo assim, gosto do cheiro da grama e da luz penetrando as folhas das árvores. E os crepúsculos são bíblicos (me sinto num filme de Cecil B. de Mille).
Camus tinha mesmo razão. Ele veio para cá na década de 40. Logo que chegou, anotou no seu caderninho: “a luz é muito bela. a cidade feia”. Claro que ele não deve ter passado pelo meu bairro, bem melhor que os arredores do aeroporto. Mesmo assim, é preciso admitir: não há nada que provoque interesse em Porto Alegre, além do céu e da luz.
No alto-petrópolis, cada vez mais as casas antigas são substitúidas por condomínios de luxo. As árvores estão sumindo. Ou as cortam, ou destroem suas raízes. É triste vê-las apodrecendo aos poucos. Mas é também horrível ver as bases dos tocos – pobres tocos, sem seus corpos. Ao lado, quase sempre um muro de madeira com o nome cafona de alguma imobiliária (a cada três palavras escritas, uma é luxo) e o esqueleto de uma obra.
Antigamente, as árvores se curvaram no alto das ruas, nos cobrindo. Havia metros e metros de teto de vegetação. Mas isso se vê cada vez menos. Agora, os geniais engenheiros, arquitetos e empresários estão nos obrigando ao céu limpo e direto. Com o sol mortífero, pós-camada de ozono, apontado para nós.
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Aproveitando as férias para ver DVDs. Os filmes que não deu para ver em cinema no ano passado. Não adianta. Não gosto de James Gray. Podem falar o que quiserem. Uma estrela para We own the night (vou dizer outra: Eva Mendes também não é tudo isso). Três estrelas para Zodíaco. Uma estrela também para Dois dias em Paris (aliás, uma hora a Julie Delpy diz: “Sem sarcamos em Paris”. Deu vontade de acrescentar: Mas Paris foi erguido com o sarcasmo!)
E três estrelas para Expresso Darjeeling. Que filme! O mais emocionante e bonito de Wes Anderson.
Só uma observação: num dos DVDs vi um trailer de um filme sobre a vida de Jane Austen, com Anne Hathaway fazendo o papel da romancista. Deus! Fico impressionado. Pobre Austen. Agora, além de ser obrigada a ver do seu túmulo suas obras-primas de cinismo virarem inofensivas e frívolas comédias românticas para solteironas, precisa aguentar sua própria vida virar uma comédia romântica… Aliás, tirando o genial As patricinhas de Beverly Hills (melhor adaptação disparada de qualquer romance da autora), todos os filmes baseados em Austen transformam as obras dela em Sex and the citys do século XIX.
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Duas semanas comendo comida saudável. Duas semanas correndo todos os dias. E não emagreci um quilo.
We are close
March 16, 2009

Está explicado por que o blog ficou tanto tempo sem atualizações. Férias, férias.
Ideologia contra ideologia
March 5, 2009
Juremir Machado Da Silva (da edição de hoje do Correio do Povo)
Quem é mais ideológico: Hugo Chávez ou a revista Veja? Evo Morales ou o jornal Estado de S. Paulo? As Farc ou O Globo? Nos três casos, o mais razoável é cravar empate. Numa competição brasileira, há uma hierarquia clara: Veja, Estadão, O Globo. A diferença pode ser revelada com uma analogia vagabunda: o ideologismo de Veja é pornográfico, o do Estadão, obsceno, já O Globo coloca uma faixa preta em cima das partes pudendas dos seus comportamentos ideológicos mais explícitos. Nossos três veículos ultraconservadores adoram chamar de ideológicos somente os posicionamentos dos seus adversários. Por que mesmo? É uma guerra de comunicação.
A direita conseguiu vencer muitas batalhas colocando etiquetas nos esquerdistas: xiitas, fundamentalistas, fanáticos. Nem sempre errou. Os mesmos termos, porém, sempre puderam ser aplicados aos defensores do neoliberalismo cuja ideologia era a autorregulamentação do mercado. Parte da mídia se deixou convencer por um estratagema da direita: a fala mansa, com voz de motivador ou de palestrante de autoajuda, confundida com ponderação e equilíbrio. Primeiro a direita disse que não existiam mais esquerda e direita, aproveitando para bater nessa esquerda que estaria mais morta do que um cachorro. Essa é uma ideia claramente de direita. Depois se apropriou da palavra ideológico como categoria de acusação. Ideologia agora é toda ideia que contrarie os meus interesses. Se concordo, não é ideologia.
Somente a esquerda praticaria atos ideológicos. Professores fazem greve em defesa do piso: ideologia. Cria-se a política de cotas nas universidades: ideologia. Qualquer insatisfação organizada contra a ordem vigente é imediatamente rotulada de ‘ideológica’. Para a direita, só a esquerda age ideologicamente. Sempre que um representante de direita ataca alguém por ‘ideologismo’, embora se imagine neutro, imparcial e pragmático, está babando e cuspindo ideologia. As pessoas mais ideológicas que conheço são aquelas que vociferam contra o ideologismo de outros uma dúzia de vezes por dia. Por ideologia entende-se a defesa de algo irrealizável ou até nefasto, contrariando a realidade, a racionalidade ou os interesses gerais, por apego a um conjunto de ideias abstratas e dogmáticas. É exatamente o caso, com frequência, dos que criticam os ‘ideológicos’.
Ideológica é sempre a postura do outro. Jamais a nossa. Muitos não têm consciência objetiva do quanto são ideológicas as suas manifestações. Isso vale para esquerda e direita. Outros, no entanto, agem de má-fé. Isso também vale para esquerda e direita. A mídia brasileira, de maneira geral, cada vez mais conservadora, incorporou a estratégia da direita de que ideológicas são exclusivamente as posturas da esquerda. Qual governo gaúcho foi mais (ou menos) ideológico, o de Olívio Dutra ou o de Antonio Britto, o do socialista que mandou a Ford embora ou o do neoliberal que queria vender até as calças do Estado e acreditava piamente nas virtudes totais da privatização e no mercado soberano? É próprio do ideológico se achar mais moderno, racional e eficiente que os outros. Quem é mais ideológico, um sociólogo militante de uma ONG, com sua bolsa a tiracolo, ou um publicitário que acredita na racionalidade moderna de andar sempre de preto e na relevância espetacular de só dar ao público o que ele pede? Os partidos políticos têm outra lógica. Não são ideológicos. Mas fisiológicos.
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Concordo num ponto com Juremir: há sim uma polarização simplista na opinião pública de hoje. E, simplificações são, sim, próprias de ideologias. E quem diz polarização admite que ela acontece dos dois lados, em sentidos opostos, mas lógicas idênticas. Agora, não é verdade que a direita não se assuma como ideologia. A direita americana sempre assumiu seu liberalismo econômico como ideologia, sem nenhuma vergonha disso. Só que a sociedade americana, ao contrário da brasileira que só funciona com proselitismos e alianças intelectuais bestas, é complexa: a direita não é um grupo ideológico uniforme, há diversas vertentes republicanas ou conservadoras, e elas convivem entre si, concordando ou discordando. De qualquer maneira, ela se assume, sim, como ideologia.
Mas é verdade que, no Brasil, um certo grupo rotulou a esquerda de “ideológica” como se fosse uma ofensa (“Ideologia agora é toda ideia que contrarie os meus interesses. Se concordo, não é ideologia”, como bem lembra Juremir). Acontece que esse grupo não é exatamente de direita como Juremir diz. Veja, Estado, Globo – para usar os veículos citados por Juremir – podem ser definidos, talvez, como progressistas de centro-direita, bastante liberais (no sentido americano do termo) em diversas questões, como aborto, pesquisa de células-tronco, direitos civis, etc.
Justamente pelo fato de estarem no centro, caem na tentação um tanto ilusória de se colocar acima das ideologias. Talvez acreditem que estejam quando se comparam com seus colegas mais fanáticos à esquerda. Mas não estão. A verdade é que ideologia não é sinônimo de fanatismo, como acusam esses grupos. Mas na maioria das vezes leva à miopia, ao simplismo, à falácia e à imparcialidade.
Mas só para provocar: por que todos os dias ouvimos a imprensa falar horrores de Hugo Chávez e nada contra Putin? Os dois são tiranos da mesma forma, mas parece que só um merece nossa repugnância… Ah, sim, Putin foi um “estabilizador”. Só que, para isso, usou os mesmos meios de Chávez.
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A crônica de Juremir lembra outro texto lido essa semana, o do seu brother Diogo Mainardi, “Quatipuru, quem?”. O texto do Mainardi é excelente, engraçadíssimo. Vai aqui:
PCdoB tem um blogueiro. O nome dele é Ananindeua Borges. Ananindeua Borges ou Quatipuru Borges? Agora estou meio embananado. Só sei que ele tem o nome de uma cidade no interior do Pará. Abaetetuba Borges. Paragominas Borges.
Ulianópolis Borges apresenta-se como membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil. É como se alguém se apresentasse como membro do Terceiro Reich do Brasil. Na última semana, ele me citou em seu blog. O texto contaminou a internet, como um parasita transmissor de esquistossomose.
Parauapebas Borges disse o seguinte:
Karen Kupfer, da revista de fofocas Quem, publicou há poucos dias uma notinha reveladora: “Para comemorar o sucesso do programa Saia Justa, Suzana Villas Boas abriu sua casa para uma festança daquelas. A turma de convidados, que também era recebida por Arnaldo Jabor, marido de Suzana, reuniu políticos, artistas e jornalistas. O candidato José Serra, para quem Suzana presta assessoria, foi prestigiá-la”.
E Parauapebas Borges concluiu acidamente:
O filhinho de papai Diogo Mainardi criou no início do mandato de Lula o seu tribunal macartista mainardiano, no qual promoveu abjeta cruzada contra alguns profissionais da imprensa. Será que o difamador travestido de jornalista fará barulho agora contra seus amiguinhos da TV Globo que gozam das intimidades demo-tucanas?
Itaituba Borges é jornalista. Sua principal fonte de informação: a revista Quem. Mais precisamente: um número da revista Quem de meados de 2002. A notinha, que, segundo ele, foi publicada “há poucos dias”, na verdade é de sete anos atrás. De lá para cá, Suzana Villas Boas saiu do Saia Justa e da assessoria de José Serra. Ela também já se separou de Arnaldo Jabor. Arnaldo Jabor deve ter se casado umas sete vezes desde aquela festa.
Se Mocajuba Borges fosse menos parasitário e consultasse o arquivo de Veja.com, descobriria que o colunista que mais avacalhei em minha coluna (e também no Manhattan Connection) foi o próprio Arnaldo Jabor, condenado reiteradamente pelo tribunal macarthista mainardiano.
Depois de comentar a notinha de Quem, Oriximiná Borges comentou uma notinha de Hildegard Angel. O blogueiro do PCdoB é assim: só abre o jornal para ler a coluna social. Sorry, periferia, mas Oriximiná Borges é o Ibrahim Sued do maoísmo, o Bola Branca da Revolução Cultural. De acordo com ele, além de denunciar Arnaldo Jabor, eu deveria denunciar também Miriam Leitão, cujo cunhado é irmão de Edmar Moreira, deputado do DEM. Miriam Leitão é a melhor colunista de economia do país, mas, se Curralinho Borges fosse menos parasitário e consultasse o arquivo de Veja.com, leria o que escrevi sobre o ex-marido dela, Marcelo Netto, antigo assessor de imprensa de Antonio Palocci. Bujaru Borges poderia verificar igualmente o que escrevi sobre o filho dela.
A internet é como uma cidadezinha no interior do Pará, assolada por parasitas que proliferam nessas zonas insalubres do Terceiro Mundo. Quer um conselho? Cuidado com a água parada. Quer outro conselho? Use botas de borracha.
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Os argumentos do blogueiro chapa-branca podem perder validade na medida que Mainardi nunca deixou de falar mal de Jabor ou do filho de Miriam Leitão. Só que Diogo não rebateu um ponto essecial do texto: ele, que sempre prestou serviços inestimáveis – sem ironia, mas sem ironia mesmo – ao apontar as ligações incestuosas entre governo e jornalistas (em especial os blogueiros, como esse tal de Ananindeua – Deus! – Borges). Mas se o fisiologismo e a natureza chapa-branca da nossa imprensa remonta ao primeiro jornal fundado no Brasil, por que Diogo se preocupa apenas com os jornalistas ligados a esse governo? Se a acusação de Ananindeua – Deus! – tinha um mérito era de mostrar que os vícios acontecem não apenas na esfera do PT – e isso Diogo não responde. Acho o tribunal macartista-mainardiano excelente. Só gostaria que ele expandisse um pouco mais o seu raio de ataque.
Férias: modo de usar
March 3, 2009
Primeiro dia de férias, é estranho. A pior parte é arrumar as malas. Como sempre, deixo tudo para a última hora. Poucas roupas na bagagem, o laptop, dois romances (um Hemingway e um Modiano) e alguns rascunhos do livro que pretendo revisar e passar a limpo até abril, quando termina minhas férias.
Pego táxi até o Galeão (43 reais), vendo as últimas imagens da cidade. É engraçado: durante 30 dias, toda a lógica da minha vida vai mudar. Sem redação, sem Rio, nem Rio Comprido. Mas também sem praia da Macumba, nem Bar do Mineiro nos fins-de-semana. Agora é o meu bairro tranquilo em Porto Alegre, os velhos amigos em Torres e, claro, a página em branco do meu livro (ou melhor, os rascunhos a serem organizados, o material bruto e confuso a ser lapidado). Talvez seja essa a idéia mais assustadora. Sem desculpas, vou viver a vida que eu quero. Sem desculpas, vou escrever o que eu quero. Xô editores, assessores, urgências factuais…
A liberdade dá medo. Agora é tudo comigo. Posso confiar em mim mesmo?
Pela janela do taxi, vejo a rotina de um ano saindo aos poucos de dentro de mim. Eu consumi essas paisagens, essas paisagens me consumiram. Rodando em círculos na noite escura, e consumido pelo fogo. Saí do círculo, rumo ao horizonte. Boa sorte aos que ficam. E, por favor, não me lembrem que há uma volta.
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Pela primeira vez, presto a atenção no Rio, à noite, de cima do avião. O desenho da cidade, sob as trevas. Que praia de Niterói é aquela? Ali é o Jóquei ou o Maracanã? É o Jóquei, evidentemente. No escuro, não dá para ver as palmeiras do Jardim Botânico. Copacabana aparece iluminada na noite negra.
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Não há nada mais estressante do que aeroportos. Conexões sempre me deixam de cabelo em pé. É qual portão, qual embarque, qual horário, qual bilhete? Afinal, fazer conexão sempre dobra as chances de algum tipo de engano ou acidente no embarque. Não consigo dormir no voo. Estou quase conseguindo, quando a aeromoça chama para o lanche: um biscoito horrível com presunto, colorido artificialmente. Câncer embalado. Mas eu como.
Em Congonhas, o pânico de sempre. Parece que você vai aterrisar no meio da rua, entre os carros. Dá até para imaginar o piloto botando metade do corpo para fora, e fazendo sinal aos motoristas para estacionar.
Antes de embarcar no avião para Porto Alegre, dou uma olhada na banca. Entre os best-sellers, tem um “Stress, aprenda a lidar com ele”. Claro, claro. Porque você não trabalha em redação.
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Agora acordo com o barulho agradável da rua Pirapó de manhã. Pássaros e trânsito calmo. Estou olhando pela minha janela, as árvores, as casas. É outro mundo. Nada das putas de Copacabana. Nem dos bêbados gritando de madrugada. E das picaretas me acordando às 7 da manhã.
Tomo iogurte caseiro em casa, cem por cento natural, com geléia de morango de Torres. Como vai ser a partir de agora? Férias, como começa isso? Preciso abrir os manuscritos. Preciso dar uma corrida. Preciso cortar o cabelo. Que mais não deu tempo de fazer antes das férias? Experimentar uns sapatos novos, talvez…
Ligo o rádio. Tem um programa na Radio Gaúcha, promovendo um grande debate. “O casamento de Gisele Bunchen vai durar mais do que o de Ronado Fênomeno com Cicarelli?” A Rádio Gaúcha é uma rádio séria. Presta enormes serviços à comunidade transmitindo 14 horas diárias de futebol. Tanto que, para responder à importantíssima pergunta, trouxe suas melhores colunistas sociais (saudades da Hilde e da Heloísa Tolipan…), um publicitário afetado e um psiquiatra. O psiquiatra já deve estudar há vinte anos a mente humana. Do alto da sua sabedoria, chegou a seguinte conclusão:
“Olha o que o Ronaldo fez no cabelo durante a Copa de 2002. Isso é uma prova clara de que ele tem déficit mental…”
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Não tem para onde fugir. Por favor, me levem daqui.