Férias: modo de usar
March 3, 2009
Primeiro dia de férias, é estranho. A pior parte é arrumar as malas. Como sempre, deixo tudo para a última hora. Poucas roupas na bagagem, o laptop, dois romances (um Hemingway e um Modiano) e alguns rascunhos do livro que pretendo revisar e passar a limpo até abril, quando termina minhas férias.
Pego táxi até o Galeão (43 reais), vendo as últimas imagens da cidade. É engraçado: durante 30 dias, toda a lógica da minha vida vai mudar. Sem redação, sem Rio, nem Rio Comprido. Mas também sem praia da Macumba, nem Bar do Mineiro nos fins-de-semana. Agora é o meu bairro tranquilo em Porto Alegre, os velhos amigos em Torres e, claro, a página em branco do meu livro (ou melhor, os rascunhos a serem organizados, o material bruto e confuso a ser lapidado). Talvez seja essa a idéia mais assustadora. Sem desculpas, vou viver a vida que eu quero. Sem desculpas, vou escrever o que eu quero. Xô editores, assessores, urgências factuais…
A liberdade dá medo. Agora é tudo comigo. Posso confiar em mim mesmo?
Pela janela do taxi, vejo a rotina de um ano saindo aos poucos de dentro de mim. Eu consumi essas paisagens, essas paisagens me consumiram. Rodando em círculos na noite escura, e consumido pelo fogo. Saí do círculo, rumo ao horizonte. Boa sorte aos que ficam. E, por favor, não me lembrem que há uma volta.
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Pela primeira vez, presto a atenção no Rio, à noite, de cima do avião. O desenho da cidade, sob as trevas. Que praia de Niterói é aquela? Ali é o Jóquei ou o Maracanã? É o Jóquei, evidentemente. No escuro, não dá para ver as palmeiras do Jardim Botânico. Copacabana aparece iluminada na noite negra.
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Não há nada mais estressante do que aeroportos. Conexões sempre me deixam de cabelo em pé. É qual portão, qual embarque, qual horário, qual bilhete? Afinal, fazer conexão sempre dobra as chances de algum tipo de engano ou acidente no embarque. Não consigo dormir no voo. Estou quase conseguindo, quando a aeromoça chama para o lanche: um biscoito horrível com presunto, colorido artificialmente. Câncer embalado. Mas eu como.
Em Congonhas, o pânico de sempre. Parece que você vai aterrisar no meio da rua, entre os carros. Dá até para imaginar o piloto botando metade do corpo para fora, e fazendo sinal aos motoristas para estacionar.
Antes de embarcar no avião para Porto Alegre, dou uma olhada na banca. Entre os best-sellers, tem um “Stress, aprenda a lidar com ele”. Claro, claro. Porque você não trabalha em redação.
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Agora acordo com o barulho agradável da rua Pirapó de manhã. Pássaros e trânsito calmo. Estou olhando pela minha janela, as árvores, as casas. É outro mundo. Nada das putas de Copacabana. Nem dos bêbados gritando de madrugada. E das picaretas me acordando às 7 da manhã.
Tomo iogurte caseiro em casa, cem por cento natural, com geléia de morango de Torres. Como vai ser a partir de agora? Férias, como começa isso? Preciso abrir os manuscritos. Preciso dar uma corrida. Preciso cortar o cabelo. Que mais não deu tempo de fazer antes das férias? Experimentar uns sapatos novos, talvez…
Ligo o rádio. Tem um programa na Radio Gaúcha, promovendo um grande debate. “O casamento de Gisele Bunchen vai durar mais do que o de Ronado Fênomeno com Cicarelli?” A Rádio Gaúcha é uma rádio séria. Presta enormes serviços à comunidade transmitindo 14 horas diárias de futebol. Tanto que, para responder à importantíssima pergunta, trouxe suas melhores colunistas sociais (saudades da Hilde e da Heloísa Tolipan…), um publicitário afetado e um psiquiatra. O psiquiatra já deve estudar há vinte anos a mente humana. Do alto da sua sabedoria, chegou a seguinte conclusão:
“Olha o que o Ronaldo fez no cabelo durante a Copa de 2002. Isso é uma prova clara de que ele tem déficit mental…”
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Não tem para onde fugir. Por favor, me levem daqui.