Juremir Machado Da Silva (da edição de hoje do Correio do Povo)

Quem é mais ideológico: Hugo Chávez ou a revista Veja? Evo Morales ou o jornal Estado de S. Paulo? As Farc ou O Globo? Nos três casos, o mais razoável é cravar empate. Numa competição brasileira, há uma hierarquia clara: Veja, Estadão, O Globo. A diferença pode ser revelada com uma analogia vagabunda: o ideologismo de Veja é pornográfico, o do Estadão, obsceno, já O Globo coloca uma faixa preta em cima das partes pudendas dos seus comportamentos ideológicos mais explícitos. Nossos três veículos ultraconservadores adoram chamar de ideológicos somente os posicionamentos dos seus adversários. Por que mesmo? É uma guerra de comunicação.
A direita conseguiu vencer muitas batalhas colocando etiquetas nos esquerdistas: xiitas, fundamentalistas, fanáticos. Nem sempre errou. Os mesmos termos, porém, sempre puderam ser aplicados aos defensores do neoliberalismo cuja ideologia era a autorregulamentação do mercado. Parte da mídia se deixou convencer por um estratagema da direita: a fala mansa, com voz de motivador ou de palestrante de autoajuda, confundida com ponderação e equilíbrio. Primeiro a direita disse que não existiam mais esquerda e direita, aproveitando para bater nessa esquerda que estaria mais morta do que um cachorro. Essa é uma ideia claramente de direita. Depois se apropriou da palavra ideológico como categoria de acusação. Ideologia agora é toda ideia que contrarie os meus interesses. Se concordo, não é ideologia.
Somente a esquerda praticaria atos ideológicos. Professores fazem greve em defesa do piso: ideologia. Cria-se a política de cotas nas universidades: ideologia. Qualquer insatisfação organizada contra a ordem vigente é imediatamente rotulada de ‘ideológica’. Para a direita, só a esquerda age ideologicamente. Sempre que um representante de direita ataca alguém por ‘ideologismo’, embora se imagine neutro, imparcial e pragmático, está babando e cuspindo ideologia. As pessoas mais ideológicas que conheço são aquelas que vociferam contra o ideologismo de outros uma dúzia de vezes por dia. Por ideologia entende-se a defesa de algo irrealizável ou até nefasto, contrariando a realidade, a racionalidade ou os interesses gerais, por apego a um conjunto de ideias abstratas e dogmáticas. É exatamente o caso, com frequência, dos que criticam os ‘ideológicos’.
Ideológica é sempre a postura do outro. Jamais a nossa. Muitos não têm consciência objetiva do quanto são ideológicas as suas manifestações. Isso vale para esquerda e direita. Outros, no entanto, agem de má-fé. Isso também vale para esquerda e direita. A mídia brasileira, de maneira geral, cada vez mais conservadora, incorporou a estratégia da direita de que ideológicas são exclusivamente as posturas da esquerda. Qual governo gaúcho foi mais (ou menos) ideológico, o de Olívio Dutra ou o de Antonio Britto, o do socialista que mandou a Ford embora ou o do neoliberal que queria vender até as calças do Estado e acreditava piamente nas virtudes totais da privatização e no mercado soberano? É próprio do ideológico se achar mais moderno, racional e eficiente que os outros. Quem é mais ideológico, um sociólogo militante de uma ONG, com sua bolsa a tiracolo, ou um publicitário que acredita na racionalidade moderna de andar sempre de preto e na relevância espetacular de só dar ao público o que ele pede? Os partidos políticos têm outra lógica. Não são ideológicos. Mas fisiológicos.

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Concordo num ponto com Juremir: há sim uma polarização simplista na opinião pública de hoje. E, simplificações são, sim, próprias de ideologias. E quem diz polarização admite que ela acontece dos dois lados, em sentidos opostos, mas lógicas idênticas. Agora, não é verdade que a direita não se assuma como ideologia. A direita americana sempre assumiu seu liberalismo econômico como ideologia, sem nenhuma vergonha disso. Só que a sociedade americana, ao contrário da brasileira que só funciona com proselitismos e alianças intelectuais bestas, é complexa: a direita não é um grupo ideológico uniforme, há diversas vertentes republicanas ou conservadoras, e elas convivem entre si, concordando ou discordando. De qualquer maneira, ela se assume, sim, como ideologia.

Mas é verdade que, no Brasil, um certo grupo rotulou a esquerda de “ideológica” como se fosse uma ofensa (“Ideologia agora é toda ideia que contrarie os meus interesses. Se concordo, não é ideologia”, como bem lembra Juremir). Acontece que esse grupo não é exatamente de direita como Juremir diz. Veja, Estado, Globo – para usar os veículos citados por Juremir – podem ser definidos, talvez, como progressistas de centro-direita, bastante liberais (no sentido americano do termo) em diversas questões, como aborto, pesquisa de células-tronco, direitos civis, etc.

Justamente pelo fato de estarem no centro, caem na tentação um tanto ilusória de se colocar acima das ideologias. Talvez acreditem que estejam quando se comparam com seus colegas mais fanáticos à esquerda. Mas não estão. A verdade é que ideologia não é sinônimo de fanatismo, como acusam esses grupos. Mas na maioria das vezes leva à miopia, ao simplismo, à falácia e à imparcialidade.

Mas só para provocar: por que todos os dias ouvimos a imprensa falar horrores de Hugo Chávez e nada contra Putin? Os dois são tiranos da mesma forma, mas parece que só um merece nossa repugnância… Ah, sim, Putin foi um “estabilizador”. Só que, para isso, usou os mesmos meios de Chávez.

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A crônica de Juremir lembra outro texto lido essa semana, o do seu brother Diogo Mainardi, “Quatipuru, quem?”. O texto do Mainardi é excelente, engraçadíssimo. Vai aqui:

PCdoB tem um blogueiro. O nome dele é Ananindeua Borges. Ananindeua Borges ou Quatipuru Borges? Agora estou meio embananado. Só sei que ele tem o nome de uma cidade no interior do Pará. Abaetetuba Borges. Paragominas Borges.

Ulianópolis Borges apresenta-se como membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil. É como se alguém se apresentasse como membro do Terceiro Reich do Brasil. Na última semana, ele me citou em seu blog. O texto contaminou a internet, como um parasita transmissor de esquistossomose.

Parauapebas Borges disse o seguinte:

Karen Kupfer, da revista de fofocas Quem, publicou há poucos dias uma notinha reveladora: “Para comemorar o sucesso do programa Saia Justa, Suzana Villas Boas abriu sua casa para uma festança daquelas. A turma de convidados, que também era recebida por Arnaldo Jabor, marido de Suzana, reuniu políticos, artistas e jornalistas. O candidato José Serra, para quem Suzana presta assessoria, foi prestigiá-la”.

E Parauapebas Borges concluiu acidamente:

O filhinho de papai Diogo Mainardi criou no início do mandato de Lula o seu tribunal macartista mainardiano, no qual promoveu abjeta cruzada contra alguns profissionais da imprensa. Será que o difamador travestido de jornalista fará barulho agora contra seus amiguinhos da TV Globo que gozam das intimidades demo-tucanas?

Itaituba Borges é jornalista. Sua principal fonte de informação: a revista Quem. Mais precisamente: um número da revista Quem de meados de 2002. A notinha, que, segundo ele, foi publicada “há poucos dias”, na verdade é de sete anos atrás. De lá para cá, Suzana Villas Boas saiu do Saia Justa e da assessoria de José Serra. Ela também já se separou de Arnaldo Jabor. Arnaldo Jabor deve ter se casado umas sete vezes desde aquela festa.

Se Mocajuba Borges fosse menos parasitário e consultasse o arquivo de Veja.com, descobriria que o colunista que mais avacalhei em minha coluna (e também no Manhattan Connection) foi o próprio Arnaldo Jabor, condenado reiteradamente pelo tribunal macarthista mainardiano.

Depois de comentar a notinha de Quem, Oriximiná Borges comentou uma notinha de Hildegard Angel. O blogueiro do PCdoB é assim: só abre o jornal para ler a coluna social. Sorry, periferia, mas Oriximiná Borges é o Ibrahim Sued do maoísmo, o Bola Branca da Revolução Cultural. De acordo com ele, além de denunciar Arnaldo Jabor, eu deveria denunciar também Miriam Leitão, cujo cunhado é irmão de Edmar Moreira, deputado do DEM. Miriam Leitão é a melhor colunista de economia do país, mas, se Curralinho Borges fosse menos parasitário e consultasse o arquivo de Veja.com, leria o que escrevi sobre o ex-marido dela, Marcelo Netto, antigo assessor de imprensa de Antonio Palocci. Bujaru Borges poderia verificar igualmente o que escrevi sobre o filho dela.

A internet é como uma cidadezinha no interior do Pará, assolada por parasitas que proliferam nessas zonas insalubres do Terceiro Mundo. Quer um conselho? Cuidado com a água parada. Quer outro conselho? Use botas de borracha.

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Os argumentos do blogueiro chapa-branca podem perder validade na medida que Mainardi nunca deixou de falar mal de Jabor ou do filho de Miriam Leitão. Só que Diogo não rebateu um ponto essecial do texto: ele, que sempre prestou serviços inestimáveis – sem ironia, mas sem ironia mesmo – ao apontar as ligações incestuosas entre governo e jornalistas (em especial os blogueiros, como esse tal de Ananindeua – Deus! – Borges). Mas se o fisiologismo e a natureza chapa-branca da nossa imprensa remonta ao primeiro jornal fundado no Brasil, por que Diogo se preocupa apenas com os jornalistas ligados a esse governo? Se a acusação de Ananindeua – Deus! – tinha um mérito era de mostrar que os vícios acontecem não apenas na esfera do PT – e isso Diogo não responde. Acho o tribunal macartista-mainardiano excelente. Só gostaria que ele expandisse um pouco mais o seu raio de ataque.

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