Se tem algo que me reconcilia com Porto Alegre é a luz. Corro pelo meu bairro (alto-petrópolis) todas as manhãs e fins de tarde. A luz, de fato, é a única qualidade inquestionável daqui. Até meu bairro, antigamente tão agradável e arborizado, está sendo tomado pelos prédios, num crescimento mal planejado. Mesmo assim, gosto do cheiro da grama e da luz penetrando as folhas das árvores. E os crepúsculos são bíblicos (me sinto num filme de Cecil B. de Mille).

Camus tinha mesmo razão. Ele veio para cá na década de 40. Logo que chegou, anotou no seu caderninho: “a luz é muito bela. a cidade feia”. Claro que ele não deve ter passado pelo meu bairro, bem melhor que os arredores do aeroporto. Mesmo assim, é preciso admitir: não há nada que provoque interesse em Porto Alegre, além do céu e da luz.

No alto-petrópolis, cada vez mais as casas antigas são substitúidas por condomínios de luxo. As árvores estão sumindo. Ou as cortam, ou destroem suas raízes. É triste vê-las apodrecendo aos poucos. Mas é também horrível ver as bases dos tocos – pobres tocos, sem seus corpos. Ao lado, quase sempre um muro de madeira com o nome cafona de alguma imobiliária (a cada três palavras escritas, uma é luxo) e o esqueleto de uma obra.

Antigamente, as árvores se curvaram no alto das ruas, nos cobrindo. Havia metros e metros de teto de vegetação. Mas isso se vê cada vez menos. Agora, os geniais engenheiros, arquitetos e empresários estão nos obrigando ao céu limpo e direto. Com o sol mortífero, pós-camada de ozono, apontado para nós.

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Aproveitando as férias para ver DVDs. Os filmes que não deu para ver em cinema no ano passado. Não adianta. Não gosto de James Gray. Podem falar o que quiserem. Uma estrela para We own the night (vou dizer outra: Eva Mendes também não é tudo isso). Três estrelas para Zodíaco. Uma estrela também para Dois dias em Paris (aliás, uma hora a Julie Delpy diz: “Sem sarcamos em Paris”. Deu vontade de acrescentar: Mas Paris foi erguido com o sarcasmo!)

E três estrelas para Expresso Darjeeling. Que filme! O mais emocionante e bonito de Wes Anderson.

Só uma observação: num dos DVDs vi um trailer de um filme sobre a vida de Jane Austen, com Anne Hathaway fazendo o papel da romancista. Deus! Fico impressionado. Pobre Austen. Agora, além de ser obrigada a ver do seu túmulo suas obras-primas de cinismo virarem inofensivas e frívolas comédias românticas para solteironas, precisa aguentar sua própria vida virar uma comédia romântica… Aliás, tirando o genial As patricinhas de Beverly Hills (melhor adaptação disparada de qualquer romance da autora), todos os filmes baseados em Austen transformam as obras dela em Sex and the citys do século XIX.

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Duas semanas comendo comida saudável. Duas semanas correndo todos os dias. E não emagreci um quilo.

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