Gran Torino
March 18, 2009
Desde Um mundo perfeito, Clint Eastwood não parou de brincar com sua imagem de reacionário individualista, eternizada nos anos 70. O ícone Eastwood foi expandido em suas obras-primas dos 90, com a figura crepuscular do “homem que volta”, assombrado pelo passado. Em Gran Torino, o ator/cineasta mantém a áurea fantasmagórica, mas vai além, pondo em cena seu próprio desaparecimento (morte não só de uma imagem brava e destemida, mas da identidade de um país e início de sua reciclagem mítica), com esplêndida força autosacrificial e redentora. De certa forma, o longa é para o cineasta o que The man who shot Liberty Valance foi para Ford – aqui, com Clint fundindo em uma só figura os personagens de John Wayne e Jimmy Stewart.
Composto em tom menor (e por isso ignorado pelas vovós da Academia do Oscar, mais inclinadas a picaretagens épicas), espécie de Karatê Kid ao contrário, o filme flutua com serenidade pelos limites do gênero, ao mesmo tempo em que vai desconstroindo calmamente os estereotipos que finge apresentar. No final, os simples acordes de piano de Eastwood apenas reforçam a beleza e melancolia desse filme testamento, triste como um por-do-sol de domingo.